O Banco Master, alvo de uma investigação sobre fraude financeira, irregularidades bancárias e possíveis conexões políticas, movimentou quase R$ 16 milhões no município de Juazeiro, na região Norte da Bahia. Conforme apuração realizada pelo Portal Preto no Branco, a movimentação aconteceu por operações do cartão consignado Credcesta, realizadas entre os anos 2021 e 2025, durante a gestão da ex-prefeita Suzana Ramos.
Dados administrativos apontam que foram movimentados R$ 15.502.287,67 em operações vinculadas ao Banco Master envolvendo servidores municipais. O volume inclui transações classificadas como compras e saques realizadas por meio do produto financeiro ofertado aos servidores.
Os registros apontam ainda que R$ 15.097.343,58 correspondem a operações de Credcesta Compra, enquanto R$ 404.944,09 referem-se a Credcesta Saque, totalizando pouco mais de R$ 15,5 milhões no período analisado. O produto financeiro teve grande adesão de servidores ao longo dos anos, e acabou gerando prejuízos para muitos deles.
“Logo quando o município fez esse convênio com o Credcesta, que é do Banco Master, os funcionários públicos começaram a receber ofertas para fazer o cartão. Essas mensagens chegavam para a gente, inclusive pelo RH e também pelo WhatsApp. Eu fiz o cartão e comecei a usar. No começo, chegava a fatura direitinho e eu pagava normalmente. Depois parou de chegar a fatura. Só vinha cobrança e os juros começaram a ficar abusivos. Quanto mais eu pagava, mais eu devia. Eu pagava e a dívida só aumentava”, contou uma servidora.
A profissional contou ainda que tentou diversas vezes entrar em contato com a empresa para entender os valores cobrados, mas não conseguiu obter retorno.
“Eu tentava contato para pedir informação sobre aqueles valores, mas nunca conseguia falar com o call center deles. Também não recebia mais fatura, só cobrança, e muitas vezes sem um valor claro para pagar. ”, afirmou. Mesmo depois de eu ter pago o que usei, continuavam chegando cobranças”, contou.
Outro problema apontado pela servidora foram os descontos diretamente no contracheque.
“Começaram também os descontos em folha. Como não vinha mais a fatura, eu fui me perdendo nos valores. Eles diziam que tinham descontado, por exemplo, R$ 300 em folha, mas quando eu ia olhar o contracheque apareciam R$ 460. Às vezes diziam que tinham descontado R$ 200 e no contracheque vinha R$ 380. Começou a ficar insustentável. Por isso eu acessei a Justiça e o processo está correndo”, relatou.
Ela acrescentou ainda que, após a mudança de gestão municipal, as cobranças teriam sido interrompidas.
“Graças a Deus, depois que Andrei assumiu, no primeiro mês já parou de vir cobrança”, concluiu.
Credcesta e o escândalo nacional do Banco Master
O produto financeiro Credcesta, utilizado nas operações registradas no município, também tem sido alvo de reportagens e investigações nacionais. Reportagem do portal E-Investidor/Estadão descreve o modelo como um negócio baseado em um mecanismo que permite descontos em folha por tempo indeterminado, o que fez o produto ficar conhecido no mercado como um sistema de “dívida infinita”.
O modelo se expandiu amplamente no país, sendo ofertado a servidores públicos em diversos estados e municípios, incluindo Juazeiro, o que gerou forte rentabilidade para as instituições financeiras que operam o produto. Paralelamente, o Banco Master passou a enfrentar uma série de investigações e crises institucionais. A instituição foi alvo de operações da Polícia Federal e acabou entrando em processo de liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central, em meio a suspeitas de irregularidades financeiras e relações com agentes públicos.
Nesse contexto, o volume de quase R$ 16 milhões movimentados localmente por meio do Credcesta insere a realidade municipal em um debate mais amplo que vem ocorrendo no país sobre a atuação de instituições financeiras no mercado de crédito consignado para servidores públicos, os riscos de endividamento prolongado e a necessidade de maior transparência e regulação desse tipo de operação.
Conexões políticas no noticiário nacional
A atuação do Banco Master voltou ao centro do debate público após reportagens nacionais apontarem relações financeiras entre a instituição e figuras políticas. Nesta semana, reportagem publicada pelo jornal O Globo revelou que o Banco Master e a Reag Investimentos realizaram pagamentos que somam mais de R$ 3,8 milhões a empresas ligadas ao ex-prefeito de Salvador ACM Neto.
ACM Neto é aliado político da ex-prefeita Suzana Ramos, responsável pela gestão municipal durante o período em que foram registradas as operações do Credcesta com o Banco Master.
Redação PNB



