Familiares de paciente da Maternidade de Juazeiro vão parar na delegacia, após desentendimento com equipe do hospital e denunciam tratamento recebido na unidade policial; órgãos se manifestam

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A família de uma jovem grávida de 5 meses e que está internada no Hospital Materno Infantil de Juazeiro procurou o Portal Preto No Branco para relatar um episódio que ocorreu nesta quarta-feira (18), após duas cunhadas da paciente reclamaram do atendimento da unidade hospitalar. Segundo a sogra da gestante, os familiares estavam preocupados com o quadro de saúde da jovem e, ao irem na maternidade, houve uma discussão com alguns profissionais da unidade, que acionaram a Guarda Municipal. As duas mulheres foram encaminhadas à Delegacia de Polícia, onde relatam que foram agredidas pelo delegado de plantão.

“Minha nora está internada desde a última segunda-feira na maternidade de Juazeiro sem receber o atendimento adequado. Ela está sofrendo com dores, vomitando e com uma febre que nunca passa. As pernas dela estão inchadas. Diante desse sofrimento, minhas duas filhas foram lá cobrar um atendimento digno. O que a equipe da maternidade fez foi chamar a Guarda Municipal e levar minhas filhas para a delegacia. Não tiveram nenhum trato com elas que, claro, estavam preocupados e cobrando respostas, e já chamaram a guarda que levou minhas filhas para a delegacia, onde novamente elas foram maltratadas e agredidas”, disse.

Raíssa Cavalcanti, um das cunhadas da paciente, também deu a sua versão sobre o episódio.

“Eu cheguei à maternidade e vi a situação da minha cunhada com uma infecção grave que pode atingir os rins e colocar a vida do bebê em risco. Elas se queixava de dores intensas, febre, vômitos e apenas medicações sendo empurradas, sem solução, sem atenção devida. Uma hora diziam que era infecção, outra hora que era apendicite, outra hora que era aborto. Uma médica chegou a falar que era para esperar o corpo expulsar a criança. Como vai expulsar uma criança que ela mesma disse que está bem, que o útero está fechado e que os batimentos cardíacos estão bons? Vai esperar a infecção se agravar para expulsar a criança e ela morrer?”, questionou.

Raíssa admite que se exaltou ao presenciar a situação, mas nega ter desacatado profissionais da unidade.

“Eu agi pela emoção, sim. Vi ela em cima da cama toda roxa, dura, com as pernas duras, sentindo dor. Comecei a chamar atenção na maternidade pedindo que resolvessem. Não desacatei ninguém, agi como qualquer pessoa agiria ao ver alguém que ama naquela situação”, afirmou.

Segundo ela, após a discussão no hospital, a Guarda Municipal foi acionada e as duas irmãs foram conduzidas à delegacia: “Começou aquele tumulto dentro da maternidade e fomos levadas para a delegacia”, contou.

Ainda conforme o relato de Raíssa, o episódio teria se agravado ainda mais na delegacia.

“Fomos levadas à delegacia e, lá, ao invés de sermos ouvidas, fomos desrespeitadas e agredidas pelo delegado. Em nenhum momento houve desacato da nossa parte, inclusive existem câmeras que comprovam isso. Durante o atendimento, fomos tratadas com agressividade e falta de respeito. Em um momento fora do alcance das câmeras, sofri agressões físicas: fui empurrada, tive meus braços puxados com força, fui jogada contra a parede e saí com ferimentos. Minha irmã também ficou com marcas no corpo. Ficamos detidas na carceragem, sem qualquer explicação adequada, até a chegada de um advogado de nossa família. Isso não é autoridade, é abuso. Isso não é proteção, é violência. Não é normal. Não é aceitável. Estamos falando de uma mulher grávida sofrendo em uma maternidade e de cidadãs que foram buscar ajuda e acabaram sendo tratadas com violência”, disse a cunhada.

A jovem também diz que tentou ser ouvida durante o atendimento, mas não teve espaço para falar.

“As médicas foram ouvidas com calma, dentro de uma sala, com atenção. Elas tiveram espaço pra falar, se explicar, serem escutadas. Quando chegou a nossa vez foi completamente diferente. Já fomos recebidas com grosseria, pressão e falta de respeito: ‘Bora, porra, desembucha, fala logo,’ essas foram as palavras. Eu ainda tentei manter o respeito e disse: ‘Doutor, o senhor não conversou com elas lá dentro? Com a gente tem que ser da mesma forma.’ Mas não adiantou. Não houve escuta. Não houve imparcialidade. Não houve respeito. Parecia que já existia um lado escolhido. Enquanto isso, a gente sendo pressionada, desrespeitada e sem o direito nem de falar. Direito esse que é básico: Ser ouvida. Ser respeitada. Ser tratada com igualdade. Mas naquele momento, isso nos foi negado. Estou buscando meus direitos e espero que esse relato alcance o máximo de pessoas possível, para que situações como essa não continuem acontecendo”.

O Portal Preto no Branco entrou em contato com a Secretaria de Saúde de Juazeiro, responsável pelo Hospital Materno Infantil, e com a Polícia Civil da Bahia para solicitar posicionamento sobre as denúncias.

Em nota, a Polícia Civil informou que “na manhã desta quarta-feira, por volta das 11h, equipes da Guarda Civil Municipal foram acionadas para atender a uma ocorrência no Hospital Materno Infantil de Juazeiro, onde duas mulheres estariam apresentando comportamento agressivo, com ofensas e desrespeito aos funcionários da unidade.
De acordo com as informações, ao chegarem ao local, os GCms identificaram as duas envolvidas. Mesmo na presença dos GCMs, ambas permaneceram exaltadas, sendo necessária a condução das mesmas até a Delegacia de Polícia para adoção das medidas cabíveis. As conduzidas alegaram que estavam insatisfeitas com a suposta falta de esclarecimentos por parte da equipe médica acerca do estado de saúde de uma familiar. No entanto, conforme relato da equipe de enfermagem, as informações teriam sido prestadas, mas ainda assim houve comportamento desrespeitoso por parte das envolvidas. Segundo ainda a Guarda Civil Municipal responsável pela condução, as mulheres passaram a perturbar o regular funcionamento do atendimento hospitalar.
Durante a apresentação na unidade policial, as conduzidas teriam, ainda, desobedecido e desacatado os servidores da unidade, sendo adotadas as medidas legais pertinentes ao caso, sendo o procedimento concluído e será encaminhado a justiça. A Polícia Civil reforça que situações de insatisfação devem ser tratadas pelos meios legais e administrativos adequados, não sendo toleradas condutas que atentem contra o funcionamento de serviços públicos ou a integridade dos profissionais”.

Procurada por nossa redação, a Secretaria Municipal de Saúde de Juazeiro (Sesau) informou que “a paciente recebeu e segue recebendo toda a assistência necessária para a garantia do seu bem-estar e da gestação. Trata-se de um quadro clínico que exige permanência hospitalar, com acompanhamento contínuo da equipe multiprofissional, uso de antibioticoterapia e realização de exames laboratoriais e de imagem. A paciente apresenta evolução clínica satisfatória, encontrando-se estável, sem queixas e sem sinais de edema, assim como o bebê, ambos fora de risco. Quanto ao episódio relatado na delegacia, a Secretaria orienta que a apuração seja realizada junto ao órgão competente. A Secretaria reafirma seu compromisso com a assistência humanizada, ética e de qualidade, bem como com a segurança de seus profissionais e usuários, não compactuando com qualquer forma de desrespeito ou violência no ambiente de saúde”.

 

Redação PNB

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