Crítica Cultural: Um pankararu e seus sons, por Raphael Leal

3

 

Assistir a um bom show musical é uma experiência fantástica!

Nesta quinta-feira, 21, no Teatro Dona Amélia, no Sesc Petrolina, Gean Ramos nos presenteou e deu um exemplo de como realizar um bom espetáculo. Mesmo tendo uma produção autoral, homenageou o maravilhoso Vander Lee.

Sem firula, bem ensaiado, com uma produção musical excelente, e uma produção de palco simples e eficaz. Saiu do terreiro da sua obra para ser intérprete. E foi muito bom! Com novos arranjos, mas respeitando a sonoridade do mineiro, foi da guitarrada à bossa nova.

Reformou o cancioneiro do autor de Esperando Aviões, Iluminado, dentre outros clássicos que nos arrebatam. Ah! O cara não foge às raízes: “jogou nos peitos” do público um vídeo da tribo Guarani-kaiowá, com a cacique desabafando do contínuo extermínio de nativos, por madeireiros e políticos que invadem as terras indígenas para expulsá-los e fazerem uso comercial, além da derrubada da floresta.

Primeira vez que ouvi falar de Gean Ramos foi através do jornalista e professor universitário Emanuel Andrade. O som daquele índio me chamou a atenção. Cheguei a ouvi-lo em barzinho, poucas vezes, mas foi o suficiente para perceber que aquele lance era sério, profissional. O cara tinha mise-en-scène, sem desmerecer os vários artistas, muitos amigos, que ainda “fazem barzinho”.

Ele já era companheiro de Camila Yasmine e aos poucos fomos nos aproximando. Quando morei no Rio de Janeiro, estive com os dois, além da minha companheira de sempre, Déa, no Beco das Garrafas, referência da bossa nova, num dia chuvoso. Conversamos um pouco, ouvimos um tiquinho de som e partimos.

Em seguida, ele me mandou um convite para assistirmos a um show que faria na Sala Baden Powel, em Copacabana. E lá fomos nós, eu e Déa. Enviei o card do facebook para todos os amigos do Rio. Ao mesmo tempo em que tinha um orgulho de assistir a um artista da minha região, ficava preocupado com a recepção dos cariocas.

Mas logo isso, passou, porque, de cara, mostrou quem era e a sua musicalidade de qualidade. Cantou samba, bossa nova e rock and roll, e dançou o toré dos pankararus, do município de Jatobá, Pernambuco. Foi elogio pra tudo que é lado. Ganhou a plateia.

Mas o que mais me chamava a atenção é que ele não apresentava uma boçalidade, comum a alguns bons músicos, que são até gente boa, mas são boçais. Como o elogio da humildade só pode ser dita pelo outro, pois “elogio em boca própria é vitupério”, presumo que seja uma pessoa-músico humilde, simples.

Quem não ouviu, ou não assistiu ao show, perdeu. As participações do bailarino, e das excelentes cantoras Carol Guimarães e Camila Yasmine, abrilhantaram ainda mais a noite. E Gean tem uma empatia com a platéia, que nos alivia também os rompantes de emoções que rondam as canções amorosas.

Espero que ele amplie estas apresentações a outros lugares, inclusive em Juazeiro. Parabéns a toda a equipe que colaborou para aquele concerto!

Vander Lee se orgulharia! Para não dizer que não falei das flores, embora seja um show para sentir, se emocionar, ouvir cada som – Albérico é produtor fonográfico da melhor qualidade – um show de teatro, sugiro encurtar o repertório para que não se alongue tanto – e ouvir aquelas músicas sem tomar algo, num ambiente sem ar-condicionado funcionando, é um suplício.

E não estrague o cenário com um copo descartável. Evoé, Gean!

Raphael Leal é jornalista

3 COMENTÁRIOS

  1. Adoro a escrita de Rapha. Ao ler, mesmo distante, sentimos como presente. Uma descrição perfeita e sem firulas. Parabéns aos envolvidos para este acontecimento!

  2. Assistir o show da grande estrela Gean Ramos foi uma experiência ímpar. Fiquei muito emocionada com cada canção, seja de Vanderli ou do próprio Gean. Para completar o alto nível emocional, Gean com toda sua simplicidade e doçura, convidou Ana Rizia para cantar no palco que era seu…lindo gesto que nos deixou felizes (a mim como matriarca da família que ali estava : Madeleine, seu esposo Guilliardi e a filhinha Vivctória Luara, meu filho mais Juan Diego, a mãe de Ana Rizia: Iasodara e ainda a mãe de Guilliardi) estávamos todos nos deliciando com o show mais que espetacular, também na companhia de meu irmão Pe Malan.

DEIXE UMA RESPOSTA

Comentar
Seu nome