“Aterrorizante!”, integrantes do MST relembram ação de despejo no Acampamento Abril Vermelho

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A transmissão ao vivo do programa Palavra de Mulher/Web de ontem (27) relembrou a ação de reintegração de posse realizada na madrugada de segunda-feira (25), em terras ocupadas por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra nos municípios de Juazeiro-BA e Casa Nova-BA. Durante a entrevista, as lideranças do MST Nayara Santos, Socorro Varela e Valmir Oliveira, popular Vavá, junto com o vereador Tiano Felix e a Secretária da Mulher do Partido dos Trabalhadores de Juazeiro, Erica Daiane, falaram sobre a ação de despejo cumprida pelas Policias Federal e Militar.

Nayara Santos, integrante da direção do MST, que estava no acampamento Abril Vermelho, situado no Junco, Salitre, no momento da ação, definiu o ocorrido como “Aterrorizante!”.

“Estávamos nos preparando para uma assembleia, para inicar a lida diária, quando fomos surpreendidos com a ação truculenta das Polícias Militar e Federal. Eles chegaram por volta das 4h40, com o dia ainda turvo, e sem qualquer diálogo, nos atacaram com bombas de gás lacrimogênio, balas de borracha e spray de pimenta, atingindo nossas crianças, idosos, trabalhadores e trabalhadoras. Inclusive eles também usaram helicópteros que sobrevoaram os acampamento e também jogavam bombas de gás lacrimogênio. Foram cenas de guerra, de terror. Famílias inteiras amedrontadas sem saber como se proteger”, relatou a militante.

Nayara disse ainda que durante a ação, crianças ficaram desaparecidas. “Elas ficaram assustadas e com muito medo de tudo que estava acontecendo e acabaram correndo para o mato, até chegarem em algumas roças próximas. Passamos a manhã toda em busca delas. Além disso, cortaram a nossa energia, a nossa internet e nos impediram de registrar a ação. Quando tentávamos usar nos celulares recebíamos ameaças de prisão, tapas nas mãos e costas”, acrescentou.

A ativista finalizou chamando a atenção para o fato da polícia ter levado, na operação,uma ambulância do SAMU para participar da ação. “Esse foi um atestado de que eles sabiam que a ação não seria pacífica, como chegaram a afirmar depois, e que pessoas ficariam feridas, como aconteceu”, finalizou.

A integrante do MST Socorro Varela, que atuava como professora no acampamento do Abril Vermelho, também lembrou com tristeza as cenas da ação.

“Uma das cenas mais tristes que vi foi a destruição da escola onde os “sem-terrinhas” estudavam. Ela foi construída pelos trabalhadores, não houve nenhuma telha doada pelo poder público e cada parede que eles derrubavam doía no meu coração. Então, vê o espaço, onde aquelas crianças sonhavam com um mundo melhor, destruído é um momento de luto. Mas a nossa mente acredita que a luta tem que continuar, e agora ainda mais forte”, declarou a professora.

Durante a sua fala o vereador de Juazeiro Tiano Félix declarou que em momentos anteriores, a gestão municipal tentou mediar o conflito, na tentativa de garantir que a ação de despejos das famílias ocorresse de forma que não prejudicasse os assentados.

“A gente já tinha clareza de que o mandato deveria ser cumprido, mas estávamos querendo discutir a maneira como ele deveria ser executado, que garantisse os princípios constitucionais e os princípios humanos, e infelizmente, desde o primeiro momento eles já eram desrespeitados”, disse.

O vereador afirmou ainda que a Polícia Federal usou um aparato que não é usado em nenhuma tática, inclusive de combate ao crime, e também criticou o posicionamento de alguns profissionais da imprensa, que cobriam o fato.

“Não conheço nenhuma operação da PF aqui na região em que ela tenha usado um aparato tão grande. E eu quero inclusive fazer uma indagação para alguns veículos da imprensa local. Como é vocês que lá estavam, para fazer cobertura do fato, foram barrados pela polícia e noticiam o ocorrido como se isso não tivesse acontecido? Como vocês jornalistas, que tiveram que apagar fotos e vídeos, também não divulgaram essa repressão da polícia ao trabalho da imprensa, mas noticiam nota da PF dizendo que a ação foi pacífica? Em momento nenhum a PF se preocupou com o resultado da operação, ela se preocupou em anular a possibilidade das pessoas terem acesso as imagens reais do ocorrido”, concluiu.

O ativista e integrante do MST, Valmir Oliveira, popularmente conhecido como Vavá, destacou que ao contrário da polícia, a arma usada pelos trabalhadores e trabalhadoras é a palavra, e que a luta do MST não é só a luta pelos trabalhadores rurais, mas sim a luta pela dignidade da sociedade. “Você já imaginou quantas pessoas perderam emprego nas casas agrícolas porque o sem-terra não vai mais comprar os insumos das lojas? Quantas pessoas perderam o emprego de embalar os produtos que o sem-terra produzia lá? Sabe quantas mercadorias deixaram de chegar na mesa do consumidor? Sabe quantos tratoristas deixaram de ganhar dinheiro para preparar o solo para produzir? Quem é que tem noção disso? Então é preciso que a sociedade perceba que a luta do MST é por uma sociedade igualitária”, afirmou.

Para finalizar a conversa, Secretária da Mulher do PT de Juazeiro, Erica Daiane, destacou que a ação das Polícias Federal e Militar no acampamento Abril Vermelho foi “um ato de violência contra a mulher, contra a criança. O que houve viola o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)em diversas cláusulas. E ainda que não tivesse acontecido violência física, já era um processo de violência moral e psicológica. Quantas crianças vão crescer com aquelas cenas na cabeça? Quantos idosos não estão assustados? Essas cenas dificilmente serão apagadas da memória”, lamentou Érica.

 

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Da Redação

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