Ficar em casa e sair somente quando necessário. Sem opções de lazer, como shopping, barzinhos e restaurantes. Encontro com amigos e parentes distantes, só virtualmente. A pandemia da covid-19, infecção causada pelo novo coronavírus, remexeu a vida dos brasileiros. Para lidar com essa nova realidade, é preciso não somente cumprir as regras de distanciamento e isolamento social, medidas consideradas por especialistas como essenciais para barrar uma proliferação ainda maior do vírus, como também cuidar da saúde mental.
Essa mudança no comportamento social pode abrir brechas para a aparição ou o agravamento de patologias, conforme alerta o psicólogo Elias Fernandes, especialista em saúde coletiva. O profissional avalia que os efeitos psicológicos do isolamento serão diferentes em cada pessoa, já que estão diretamente relacionados aos recursos cognitivos, forma de pensar e estrutura social de cada um. Entretanto, ressalta que as pessoas que já possuem algum transtorno como depressão, ansiedade ou algum outro caso psiquiátrico, tende a sofrer um agravamento.

Psicólogo Elias Fernandes (foto: arquivo pessoal)
“Ficar mais em casa pode trazer repercussões psicológicas, pois existe um afastamento das redes de apoio, muitas vezes, e o nível de estresse fica maior. Se a pessoa convive numa casa com muita gente, esse contato diário com pode acirrar discussões de família, e consequentemente desenvolver um nível maior de ansiedade, por exemplo. Já as pessoas que ficam sozinhas sem a família e sem rede de apoio, podem iniciar um princípio de depressão, pois tendem a diminuir o autocuidado consigo mesma”, ressalta.
O profissional considera ainda que pessoas que dispõem de mais recursos psicológicos, físicos e sociais, têm mais probabilidade de lidar com esse distanciamento de uma forma tranquila. “Essas pessoas, de uma forma geral, terão apoio da família, recursos financeiros e possibilidade de trabalhar em home office. Isso ajuda bastante. Já outras não vão poder contar com isso, por não ter recursos e os insumos necessários. Para essas pessoas, aumenta muito mais o nível de ansiedade, pois além de ter que lidar com as questões da pandemia e do distanciamento, têm que lidar com a falta de recursos, do álcool-gel e até mesmo da água e sabão”, explica.
Logo, as pessoas mais vulneráveis, como as que têm algum tipo de transtorno ou as que não têm apoio da família, como também as que estão sozinhas e que não possuem recursos financeiros e operacionais, devem sofrer mais as consequências. Elias Fernandes alerta ainda, que os cuidados com os idosos também devem ser redobrados.
“É difícil se habituar com essa nova rotina de isolamento dentro de casa. E isso vai se agravar se ele [o idoso] não tiver pessoas para apoiar. Essa mudança de rotina pode também aumentar quadros de depressão e ter algumas repercussões cognitivas, de atividades, questões motoras, por eles não estarem se exercitando”, alerta.
Eventos cancelados x frustrações
Por causa da pandemia, eventos previamente planejados, como formaturas, casamentos, festas de aniversários, precisaram ser cancelados. A festa de formatura da Raquel Vieira, estudante de História, prevista para acontecer neste mês de abril, precisou ser adiada. Mesmo sabendo que o evento ainda vai acontecer, só que em uma outra data que ainda não foi definida, a estudante não esconde o sentimento de frustração.
“Foi criada toda uma expectativa para a festa. Convites entregues, parentes e amigos de outras cidades com passagens compradas para vir para cá, e agora tudo foi por água abaixo. Sei que a formatura ainda vai acontecer, mas provavelmente somente no segundo semestre, mas não tem como não ficar frustrada com tudo isso. Estava prestes a acontecer”, disse a universitária.
De acordo com Elias Fernandes, esse sentimento de frustração acaba sendo natural diante de situações como a da estudante. “São eventos que têm toda uma simbologia. Não é somente adiar a comemoração, mas tudo que isso representa e tudo que demandou, o tempo que foi dedicado àquilo”, explica.
Entretanto, o especialista reforça que é preciso entender as circunstâncias do adiamento, e ter pensamentos positivos, mesmo diante da situação. “Não é algo que você pode resolver, pois não está no seu nível de escolha, é para além dela. Se você não tem o que fazer diante dessa situação, é preciso organizar seus pensamentos de uma forma mais positiva, entendendo o que é esse momento, e compreendendo que isso não muda o que as pessoas sentem por você, a intensidade ou o significado do evento”, acrescenta.
Os aparatos online têm sido um forma encontrada por muitas pessoas, para barrar o sentimento de frustração por ter que adiar ou cancelar a festa. É o que planeja a dona de casa Rosa Maria, que completa 50 anos no dia 23 de abril. A comemoração de meio século de vida renderia uma grande festa, entretanto, com a pandemia, decidiu adaptar o convite feito aos amigos.
“Vou juntar meus filhos e festejar em casa mesmo, com tudo que tenho direito. Mas meus amigos e familiares que moram aqui, mas que vão poder estar aqui comigo em casa, também vão festejar, pois vou transmitir via internet para todos. Foi a forma encontrada para não passar a data em branco, e para tê-los perto de mim, mesmo que distantes”, disse Rosa Maria.
Internet
A internet tem sido uma boa aliada, nesse período de isolamento social, por se mostrar uma ferramenta importante para proporcionar entretenimento e distração. Entretanto, o psicólogo alerta para a necessidade do uso consciente da ferramenta, visto que pode trazer prejuízos para quem necessita, por exemplo, desenvolver tarefas em home office ou de Educação à Distância.
“A internet pode funcionar como um momento de distraibilidade. Não é a internet que é o problema, é o uso que a pessoa faz. Usá-la para se distrair assistindo séries e filmes, não é o problema. Mas quando ela acaba atrapalhando a organização da pessoa, a internet vira um problema”, disse Elias Fernandes, que alerta também que o consumo exagerado de informações pode causar um estado de hipervigilância.
“Ver coisas na internet pode desencadear um estado de hipervigilância, de medo e assombro. Além disso, é preciso estar atento às notícias falsas, que geram incerteza, pânico e ansiedade para a população. É preciso fazer um uso consciente para que a internet seja uma aliada e não uma inimiga da gente”, considera.
Cuidados
Organizar a rotina é uma das recomendações mais importantes para preservar a saúde mental e lidar com essa nova realidade. O especialista em saúde coletiva aconselha o desenvolvimento de atividades que proporcionem a sensação de prazer, e que possam ser realizadas em casa, mas ressalta a importância do equilíbrio.
“O que dentro de casa eu posso fazer para me sentir bem? Assistir série? Ficar mais próximo à família? Fazer exercícios? Desenvolver trabalhos artísticos, literários? Preciso entender o que me faz bem e quais as possibilidades de fazer em casa. Cada um vai ter a sua estratégia. O equilibro é a base. É preciso equilibrar inclusive o tempo que você determina para cada coisa. É preciso criar rotinas, cronogramas, ter momentos de interação, mesmo que virtuais”, sugere.
Elias Fernandes reitera que é preciso ter foco: nos pensamentos positivos e potencialidades, nas atividades que dão prazer e vontade de continuar, e que liberam hormônios importantes para sensação de prazer. O profissional acrescenta ainda que, nesse período, evitar conflitos, também é importante para a preservar a saúde da mente.
“Vamos evitar conflitos, desgastes e fatalizar as situações. A gente sempre pode tirar algo positivo das situações. É como se fosse a metáfora da pérola: a ostra é machucada pela areia, contudo, usa essa resiliência para transformar adversidades em uma joia, que é a pérola. A gente precisa justamente disso: ter foco na nossa resiliência para transformar nossas adversidades em joias”, finaliza o psicólogo.
Da Redação por Thiago Santos



