Sempre Aos Domingos: “Mães clichês, mãe reais”, por Sibelle Fonseca

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Eis que chega o Dia da Mães e as mesmas narrativas, os repetitivos conceitos.
Não sei se estou ranzinza ou a maturidade me deu a ousadia de não fazer mais concessões ao imposto e estabelecido.
Fiquei ainda mais intolerante aos padrões e coisas repetidas, com tanto fervor, que até parecem verdades.
As frases com que enaltecem as mães me incomodam. Funcionam mais como pressão, mais cobranças, mais pesos, mais rótulos.
Li uma hoje que me socou o estômago: “Todas as mães são iguais”. Não são. Antes de sermos mães, somos humanas e, como tal, somos diferentes. Temos experiências diferentes, feridas diferentes, sentimos, agimos e desejamos diferente.
Nos colocaram no molde mãe de ser, e ai daquela que tentar sair do gesso. Infeliz daquela que “pense fora da caixinha”. Essa não é mãe, é Madalena. E as pedras são atiradas.
Para não incomodar tem que ser mãe clichê e se lascar todinha para corresponder ao modelo Maria. Botam logo Nossa Senhora como matriz e, coitadas de nós, condenadas à perfeição.
Mãe não erra, não tem limitações, limites, nem desejos próprios, muitos menos seus enganos e desenganos. Ela sequer pode ter emoções naturais, como raiva, medo, decepção, impotência, frustração, insegurança, ressentimento, vazio, agressividade, rejeição, nada.
Das emoções negativas, ela só está autorizada a sentir culpa. Como se não bastassem as culpas que já carrega, outras tantas lhe são imputadas, impiedosamente. Mães erram até quando tentam acertar. Eternas culpadas, estas vilãs dos divãs!
A consciência culpa, as crenças culpam, a sociedade culpa, os filhos culpam também. E culpa é a coisa que mais nos oprime neste mundo. A culpa nos encolhe e pesa o sentimento de não conseguir ser ‘boa o bastante’. Caímos no manto da comparação, da idealização de nós mesmas, e sofremos com isso.
Livrar-se deste estado de culpa, é tarefa penosa, é exercício diário e oi lá quem consegue. Tenho tentado.
Outra frase que também li neste dia, foi a célebre estrofe do verso de Coelho Neto: “Ser mãe é desdobrar fibra por fibra o coração; ser mãe é padecer no paraíso”.
Com todo respeito ao autor, que definição mais sacana! Que peso nos colocou, hein, meu querido?
Primeiro porque transforma a mãe em mártir, com a única missão de ter filhos, criá-los e sacrificar-se por eles. Um adestramento.
Segundo porque coloca a maternidade como um sacrifício, uma sentença de sofrimento eterno, um fardo pesado.
Parem com tanta romantização das mães. Nem padecer, e nem paraíso, ora bolas. Nem ser sagrado, com super poderes ou algo que o valha. Mãe é gente, hein?
Intuição de mãe falha. Conselho de mãe, nem sempre serve. As previsões dela, danadas para pensarem no pior, nem sempre se concretizam. Mãe tem pensamentos pecaminosos, tem traumas, transtornos, libido, infantilidades e insanidades também.
Para de por sua mãe na pista de um autorama. Aceita que ela tem suas próprias curvas, seu retrovisor, seus precipícios e para-brisas.
Ser mãe é uma vivência real, com todas as dores e delícias de uma vida real.
Nem tão ao céu nem tão a terra. Nem padecer, nem paraíso.
Minha primeira filha hoje, me agradeceu por ser uma “mãe real”. Os quatro me deram, logo cedo, uma cesta com mimos como, cervejas, amendoins, salaminho, azeitonas e um chocolate para o final. Eu amei e entendi a definição de ‘mãe real’.
Maternidade real é despir-se de conceitos que ditam como a maternidade deve ser. Como tem que ser uma mãe.

A melhor mãe do mundo não precisa ser igualzinha a outras mães do mundo. Não precisa gostar de flores, de coisas de casa, de ir a novena, de saber fazer bainha, de nada disso. A melhor mãe é aquela que dá o seu melhor, e ama sem condições, e vai, aos poucos, sendo desnecessária, porque ensinou sobre o voo. Sobre a vida.

Vamos evoluir nestes conceitos, e reduzir as expectativas: ninguém é perfeito, inclusive as mães.

Não meçam as mães, não limitem as mães, não as comparem e nem rotulem.

Nenhuma de nós somos “menos mãe” por não termos conseguido entrar na forma, por não termos amamentado ou feito uma cesariana, por termos perdido aquela festinha da escola, por não termos agido na hora esperada, por não termos tido a doçura ou a coerência naquele momento, por não termos usado um ‘avental todo sujo de ovo’, por não termos conservado um matrimônio feliz para sempre, ou por qualquer outro conceito que tente diminuir nossos esforços como mãe.

Vamos aceitar as falhas, porque todo vivente erra, e acerta, e erra e acerta.

Vamos saber da pessoa que está por trás da mãe. Tem uma menina dentro dela, uma adolescente, uma mulher.

Vamos ser mães reais. Vamos ser filhos e filhas reais.

Porque o mundo está carecendo de pessoas reais.  Genuinamente, pessoas.

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente.

 

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