“Se tu é preto, tu é suspeito”, diz estudante detido durante viagem de Juazeiro-BA a Sergipe para ingressar na universidade

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O estudante Diogo Delláias é natural de Paulo Afonso, mas desde 2016 reside em Juazeiro-BA. Ele e o amigo Matheus Gomes, foram aprovados nos cursos de química e química industrial, e na última quinta-feira (02) viajaram juntos para fazer a matrícula na Universidade Federal de Sergipe (UFS). Mas a viagem dos jovens foi interrompida no município de Piranhas, Sertão de Alagoas.

De acordo com um desabafo de Diogo Delláias em uma rede social, os estudantes foram abordados, xingados e detidos por policiais. “Havia uma denúncia de que teria uma quadrilha de assaltos a bancos no ônibus. Aquele mesmo procedimento: Polícia chega, só homens descem, e são revistados. Até aí tudo bem. O problema é que falaram que nos viram conversando com o suspeito, aí é que tudo mudou”, declarou Delláias na publicação.

A polícia alagoana diz que a operação era para prender suspeitos de roubo a banco e afirma que no momento da abordagem ao suspeito, preso com dinheiro queimado, arma e munições, os estudantes conversavam com ele e por isso foram levados para a delegacia, para prestar esclarecimentos.

No post que viralizou na internet, o estudante relata como foi a abordagem. “A polícia manda os suspeitos (inclusive nós) sentarem no asfalto, sim, às 14 hrs, ou seja, asfalto ‘frio’. Aí vem os xingamentos… ‘A casa caiu, vagabundo’, ‘Tá de tênis porque sabia que ia cair’, ‘Bora, fala logo, vagabundo'”, descreve o estudante.

O comandante do 9º Batalhão da PM, major Hebert, participou da operação e negou que os estudantes foram maltratados. “Não existe isso. Recebemos a denúncia e fizemos o procedimento padrão. Os policiais pegaram um rapaz com armas e dinheiro queimado, como os quatro detidos estavam conversando, todos foram levados para a delegacia para os devidos procedimentos”, afirma o major.

Diogo Delláias continua o desabafo dizendo que mesmo informando e mostrando aos policiais os documentos que comprovam que iriam fazer a matrícula na universidade, ele e o amigo foram colocados no camburão junto a outros dois jovens. “Como fizeram várias perguntas pra gente, pensei que seríamos liberados, mas não. Aqui no Brasil se tu for preto, tu é suspeito, mesmo provando sua inocência. Fomos levados de camburão até a delegacia de Delmiro. Sim, meus amigos. Sabe aquele lugarzinho apertado que os presos são levados? Fomos nele. Aí me vi naquela situação e não contive as lágrimas, chorei sim. Chorei porque eu trabalho e estudo. Em 2016 eu fui embora pra Juazeiro para poder me dedicar aos estudos. Trabalhei, fiquei longe de amigos, família, namorada, etc. E eu estava alí, na mala de um camburão, local onde um cara que tenta ser alguém na vida não chega nem perto, certo ? Errado. A vida bateu, e bateu forte dessa vez”, diz outro trecho do post na web.

O caso foi registrado na Delegacia Regional de Delmiro Gouveia, município vizinho ao que aconteceu a abordagem. Na delegacia, segundo Delláias, os estudantes ficaram em uma cela com os outros suspeitos. “Só pensava em minha família e amigos. Mas tudo ocorreu bem na medida do possível. Prestei depoimento, nos pediram desculpas e fomos liberados”, continua o post.

Depois de liberados, os estudantes pegaram um transporte para Paulo Afonso e depois conseguiram outro carro para Aracaju, onde fizeram a matrícula. “Não recebemos ajuda para ir a Aracaju, o que poderia ser feito já que ficou comprovado que houve o engano?”, questiona.

“Não somos contra a polícia nem toda a equipe, mas a atitude de alguns que mesmo percebendo e vendo documentos comprovando que não éramos culpados, ainda nos levaram para a delegacia”, critica Delláias.

O delegado regional de Delmiro Gouveia, Rodrigo Cavalcanti, confirmou que os dois estudantes foram detidos, mas negou que tenha ocorrido excesso. O delegado disse que quando a polícia recebeu a denúncia, foi informada de que havia mais de um suspeito no ônibus. “Eles foram conduzidos para a delegacia porque estavam conversando com um jovem suspeito de roubo a banco. A polícia encontrou com esse suspeito arma de uso restrito, munições e dinheiro e como testemunhas disseram que eles estavam conversando, todos foram levados para a delegacia”, disse o delegado.

Sobre a informação de que os estudantes ficaram em uma cela, o delegado negou. “Todos ficaram em uma antessala até serem ouvidos. Depois que foi esclarecido que só um era suspeito, os outros três foram liberados. O suspeito foi preso e levado para a cela. Em nenhum momento houve abuso ou eles foram maltratados”, falou o delegado.

Da redação, com informações do G1 Alagoas

 

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