Eu já nasci sabendo que na minha cidade existia um gênio por nome João Gilberto. A Bossa Nova, conheci bem depois. Antes, conheci Dona Patu, sua mãe e vizinha de minha amiga Patrícia Lane, filha de Dona Gessy e Seu Amadeus. Fui algumas vezes a casa daquela senhora de cabelo branquinho e muito amável, que gostava de sentar na porta. Estudei no Instituto Imaculada Conceição, de “tia Vivinha”, irmã de João Gilberto e frequentava a Boutique Infantil “Rosa Amarela”, da cunhada de João, e seu irmão Dedé vivia lá.
Eu tinha uns dez anos quando D. Patu morreu e guardo uma cena deste dia. Fiquei atrás das árvores da praça da catedral, assistido ao caixão sair da igreja. Eu estava lá por ela, e também para ver o gênio, mesmo que de longe. E o vi, segurando uma das alças do caixão. Lembro que meu coração bateu forte e eu nem sabia o porque mesmo.
Lá pra meus 14 anos, fiquei doida por música e conheci a Bossa Nova. Aprendi algumas canções. Adorava cantar “Lobo Bobo” e, claro, “Chega de Saudade”.
Mas foi com Edésio Santos, meu mentor e parceiro musical, que cheguei mais perto de João Gilberto. Edésio falava muito em João e eu adorava ouvir as histórias dos dois. Edésio não gostava nada quando diziam que ele tinha sido professor de violão de João, e, ético como sempre, fazia questão de esclarecer ” Não tem nada disso. A gente aprendeu junto”, retrucava, meu amigo, meu pai preto, meu ídolo.
Edésio tinha um relógio com agenda, daqueles bem modernos pra época. Foi um presente de João. Nos nossos ensaios, que sempre terminavam numas “farrinhas” bacanas, ele me pedia para olhar o número de João na agenda e ligar. Ele queria falar com João e queria que eu falasse com João, realizando-me um sonho. Fiz isso várias vezes e nunca conseguimos um contato. Eu via a decepção no rosto de meu amigo, que além da saudade do seu parceiro, queria me alegrar, com este contato telefônico.
Há pouco mais de 25 anos, quando Edésio se foi, eu ajudei no funeral e peguei com Dona Lalinha, sua esposa, o relógio presente de João. Busquei o número na agenda e arrisquei uma ligação, sem nenhuma esperança de ser atendida. Mesmo assim, o coração triste pela perda de meu amigo, faltava sair pela boca. E se ele atendesse? Em fração de minutos ensaiei o texto da notícia que eu queria dar a João, honrando o relógio com agenda de Edésio, que tinha o número do papa da Bossa Nova. E num é que, já quase para cair a chamada, ele atende com aquela voz mansa que me estremeceu até o fio de cabelo. – Alô?, disse João. Eu me apressei: – Aqui é Sibelle de Juazeiro, amiga de Edésio. Estou ligando para dizer que ele acabou de partir (acho muito feio dizer morreu ou faleceu). Ouvi um silêncio sepulcral, mas esperei na linha. E ele, docemente perguntou meu nome. Eu disse outra vez: – Aqui é Sibelle, amiga de Edésio, estou ligando para dizer que ele acabou de partir. Mais silêncio, até que ouvi dele: “Ô, meu amigo partiu. Vou pedir a minha irmã para levar a coroa mais bonita que puder para ele. Transmita os meus sentimentos a família”. Me agradeceu, gentilmente, me deixando sem fala.
Não demorou muito para que sua irmã, Maria Olívia, a minha Tia Vivinha, entrasse com a coroa mais bonita que pudesse levar.
Eu já atuava em jornalismo nesta época e fui até antiética, confesso. Edésio que me perdoe. Peguei o número de João. Anotei na minha agenda, porque aprendi que um bom jornalista é aquele que tem uma agenda rica. Quem sabe um dia eu precisasse?
Anos depois, num dia 15 de julho, aniversário de Juazeiro, repórter e apresentadora da TV regional, pensei numa matéria com filhos ilustres homenageando sua terra natal. João encabeçava a lista e eu tinha o contato dele. Pensei: “Ligo ou não ligo? E se ele me der um “fora”. Dizem que ele não gosta de Juazeiro. Que é um chato, grosseiro, maniado e doido. Ele vai me tratar mal”.
Deixei-me guiar pelo tal faro jornalístico e liguei, morta de medo, mas liguei. Coragem é fazer, mesmo com medo. E num é que, já quase para cair a chamada, ele atende com aquela voz mansa que me estremeceu até o fio de cabelo. – Alô?, disse João. Eu me apressei: – Aqui é Sibelle, amiga de Edésio, jornalista da TV aqui, e estou ligando para te pedir um depoimento sobre Juazeiro, que está aniversariando. Algo curto, simples (eu queria economizá-lo)”.
Ouvi um silêncio sepulcral, mas esperei na linha. E ele, docemente, se desculpou e disse que não tinha muito o que dizer, porque estava longe há muito tempo. A justificativa, encorajou-me a insistir – “Só uma falinha rápida, João? Dizendo do seu orgulho de ser juazeirense”. Ao que ele me respondeu, docemente: ” Agora, eu não quero falar. Outra hora, quem sabe?” Entendi, agradeci, e nos despedimos.
Nunca mais recorri a minha agenda que tinha o número da casa de João, um privilégio que eu ostentava.
Quando João partiu, em julho de 2019, lendo algumas manifestações ao seu respeito, quis contar essa história real e com testemunhas. Uma forma, claro, de me sentir importante porque falei com um gênio, por duas vezes. Mas sobretudo para defendê-lo dos imbecis que vivem julgando-o e até menosprezando a sua obra, de reconhecimento universal, espalhando asneiras sobre ele.
Calem-se! Respeitem os superiores! João Gilberto sempre foi elevado! Um gênio não enterra umbigo, não tem pátria, nem terra natal. Rendam-se! João Gilberto é universal e transcende. Ouçam vocês ou não, gostem vocês ou não, a obra de João Gilberto, o Papa da Bossa Nova, que levou o nome de Juazeiro para o mundo, está eternizada.
Disse o poeta, também juazeirense, Luiz Galvão: “Joazinho viveu e morreu como quis, sendo ele mesmo, em tempo integral”.
Viver em tempo integral sendo o que se é, é para os grandes e fortes! João é gênio, astro, gente, som, poesia, intensidade, alma e luz. Eterno!
Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, mãe de nove filhos, sendo 5 de 4 patas, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e animais, uma amante da vida e de gente.



