Certa vez, nos idos dos anos 90, eu estava jogando bola bem em frente à casa do poeta. Entre um lance e outro, ele saiu na porta gritando com sua voz tão característica: “João Gilberto! João Gilberto!” Na minha ingenuidade de menino, pensei: “Ele me conhece?” Alguns segundos depois, um cachorrinho preto apareceu e ele disse: “Pra dentro, João Gilberto!” Pois é, o nome do cachorro era João Gilberto. Essa é uma das histórias que tenho com esse sujeito formidável chamado Manuca Almeida. Anos depois, em razão do meu trabalho com o CLAE e a literatura, acabamos nos conhecendo e até fizemos alguns eventos juntos.
Manuca, apesar de não ter nascido em Juazeiro, foi o maior juazeirense que conheci. Vencedor do Grammy, apresentador de TV, poeta de performances marcantes, compositor, fundador e diretor de jornal ainda na adolescência, Manuca foi, de fato, um multiartista grandioso, com grandes contribuições para a cultura de Juazeiro.
Sua poesia ultrapassava os limites do papel, ganhava vida em suas performances intensas e cheias de paixão. Ele dominava as palavras e os palcos com a mesma destreza com que encantava plateias e inspirava gerações. Sua contribuição para a música também foi notável, com composições que ganharam o mundo e também o Grammy latino e ajudaram a fortalecer a identidade musical do Vale do São Francisco.
Ao lado de sua eterna companheira Lu Almeida, a maior de suas fontes de inspiração para seus poemas, Manuca construiu uma maravilhosa história de vida, baseado na palavra. Hoje, quem quiser conhecer mais sobre seu trabalho pode visitar o Memorial Manuca Almeida, mantido e organizado por Lu Almeida no Quintal do Poeta.
Manuca às vezes se aborrecia com Juazeiro. E isso é bem compreensível já que Juazeiro às vezes pode ser bem malvada com seus poetas e artistas, mas eu nunca vou esquecer da sua última performance, quando, no seu cortejo, as pessoas que o admiravam cantavam e dançavam suas músicas, e pelas ruas o povo de Juazeiro saía às portas e aplaudia bravamente o nosso poeta querido.
O legado de Manuca Almeida permanece vivo não apenas em sua obra, mas na lembrança de todos que tiveram o privilégio de conhecê-lo. Seu espírito irreverente, sua criatividade inesgotável e seu compromisso com a cultura fazem dele uma referência eterna na arte brasileira.
Manuca organizava, todos os anos, no dia 14 de março, o Dia da Poesia. Hoje, ao relembrar suas histórias e sua trajetória, reafirmamos a importância de manter viva sua memória. Neste mês de março, que ele transformou em um verdadeiro festival poético, que o Manuqueísmo juazeirense siga inspirando novos poetas, músicos e artistas a perpetuar a beleza e a força da arte através da palavra.
Dando continuidade ao legado do poeta, Lu Almeida organiza nesta sexta feira (14) às 20h um sarau em homenagem ao “Dia municipal da cultura e da poesia Manuca Almeida”.
Para finalizar esta pequena homenagem, compartilho um poema que fiz em sua memória.
O provérbio do espírito
(oração do Juazeiro)
Sou protegido
pelo espectro das carrancas imaginárias que habitam nos meus ombros cansados. quando toda a minha alma é um barco a vela
que navega pela íris dos meus olhos vendados
E ainda que eu naufrague
no horizonte das águas
no rio da sorte,
não me afogarei em mal nenhum
pois a frondosa árvore
será comigo
tenho na mão um terço, do que tenho, ou não,
e tenho ainda muito mais do que eu preciso, a palavra, na boca, a palavra, na cabeça, a palavra, no coração.
Viva Manuca, viva a poesia viva de Juazeiro!
Por: João Gilberto Guimarães, é cientista social formado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, pesquisador das políticas públicas de cultura, poeta, editor e fundador da editora CLAE, também escreve para o teatro, em parceria com o ator Elder Ferrari ganhou em 2020, o prêmio Respirarte da Fundação nacional das artes (FUNARTE), com o espetáculo Quebranto.



