Wellington Monteclaro e o Princípio da Ausência, por Ramon Raniere Braz

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Há ausências que são naturais, fruto do tempo. E há aquelas que são fabricadas, erguidas tijolo a tijolo pela negligência, pelo esquecimento social ou pela falta de vontade política. Grada Kilomba, ao prefaciar a edição brasileira de Pele Negra, Máscaras Brancas de Frantz Fanon, define isso como o princípio da ausência: aquilo que existe, mas é tratado como se não existisse; que tem nome e história, mas não encontra espaço real no presente. Wellington Monteclaro, um dos mais potentes artistas e mobilizadores culturais que Juazeiro já conheceu, corre o risco de ser colocado exatamente nessa segunda categoria.

Monteclaro não se resumiu a ser ator, diretor, artista plástico, escritor, cineasta e professor. Ele foi articulador de sonhos, criador de espaços simbólicos e concretos para que a arte florescesse. Quem o conheceu sabe: sua presença em cena era tão marcante quanto sua presença fora dela, na luta por uma cultura plural e viva. Era um corpo que se movia pela cidade, produzindo encontros, atravessando fronteiras entre linguagens e, sobretudo, entre pessoas.

Para celebrar sua obra e memória, criamos o Festival de Teatro Wellington Monteclaro, que já teve duas edições e até se tornou lei municipal. Uma lei que, no papel, garante vida longa à memória desse ser fundamental para as artes Juazeirenses, mas que, na prática, tem sido tratada como tantas outras leis culturais: relegada ao esquecimento, sem o respaldo material e político necessário para se manter viva.

A memória de Wellington Monteclaro não pode ser reduzida a uma efeméride protocolar. Porque o que está em jogo não é apenas a lembrança de um artista, mas a afirmação de um paradigma: o de uma cultura que se constrói a partir da diversidade e da insurgência criadora. Monteclaro encarnou esse paradigma com rara intensidade, e é justamente por isso que sua ausência fabricada representa uma ameaça à vitalidade cultural de Juazeiro.

O Festival que leva seu nome deve ser entendido como um dispositivo de resistência e de reencantamento do espaço público, capaz de reativar memórias, provocar encontros e tensionar o presente. A lei que o institui não pode ser apenas um registro burocrático, mas o ponto de partida para uma política cultural que reconheça que a arte não é ornamento, mas fundamento.

Que Monteclaro, em sua multiplicidade de gestos e linguagens, continue a ser farol para quem insiste em fazer da arte um território de liberdade.

Por Ramon Raniere Braz, Ator, produtor cultural, pesquisador, graduado em Produção Cultural, possui MBA em Gestão Pública e é discente do Programa de Pós-Graduação em Política e Gestão Cultural da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

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