Muitos se perguntam sobre as diferenças urbanas entre Petrolina e Juazeiro. Enquanto o lado pernambucano se destaca pelo intenso processo de verticalização, em Juazeiro esse fenômeno ocorre de maneira bem mais discreta.
Olhando a vista de Petrolina, a paisagem revela prédios cada vez mais altos, enquanto, no lado baiano, em Juazeiro, isso não se repete. Por se tratarem de cidades de médio porte que se consolidaram como importantes polos da fruticultura irrigada, o Vale do São Francisco é marcado por um intenso processo de urbanização.
Enquanto Petrolina é caracterizado por uma intensa verticalização, Juazeiro não apresenta esse fenômeno de forma expressiva, o que está relacionado a diversos fatores políticos, econômicos e culturais. O professor de Geografia Jean Pinheiro afirma: “Apesar de Juazeiro apresentar uma economia bem mais dinâmica que a de Petrolina, é nesta última que o mercado imobiliário se mostra em expansão e mais fortalecido, tendo em vista os incentivos fiscais oferecidos pelo poder público municipal para impulsionar o setor. Isso cria uma falsa impressão de que Petrolina possui uma infraestrutura satisfatória, sendo frequentemente classificada por diversas pesquisas como uma das melhores cidades para se viver no Vale e no país. Porém, é de conhecimento geral a insatisfação com a prestação de vários serviços, como o abastecimento de água.”, finaliza.
Como a verticalização redefine o espaço urbano
Há algum tempo, uma postagem no Instagram do blog RedeGN movimentou a discussão em torno da verticalização na cidade de Juazeiro, tema sobre o qual muitos se mostraram favoráveis, enquanto outros se posicionaram contra. Uma internauta comentou: “Muitas regiões desenvolvidas no mundo não se verticalizam. Essa verticalização também traz impactos negativos no trânsito da região. A preocupação, na verdade, deveria ser com saneamento básico e transporte público avançado, como VLTs, isso sim. O resto, a iniciativa privada cuida naturalmente.” Já outro comentário dizia: “O pessoal não quer admitir que prédios dão, sim, uma cara de capital e deixam a cidade mais bonita”.
A verticalização é um processo de expansão de edifícios em áreas urbanas, esse fenômeno está atrelado ao adensamento populacional e a falta de áreas para construções horizontais. Quando feita de forma planejada pode gerar benefícios para uma cidade, como o aproveitamento do solo, preservação de áreas verdes, mobilidade urbana, eficiência e otimização de serviços públicos, etc. Todavia, esse fenômeno embora, represente uma tentativa de adaptação às exigências urbanas contemporâneas, também acentua debates complexos sobre infraestrutura, qualidade de vida e desigualdade social. Dessa forma, evidencia os desafios enfrentados pelas cidades na busca por equilibrar crescimento vertical, sustentabilidade e dignidade habitacional.
Grande parte das pessoas associam a verticalização como sinônimo de progresso, Jean discorda: “O conceito de desenvolvimento está ancorado não só em questões econômicas, mas pela garantia de qualidade de vida dos seus habitantes. Portanto, pensar a verticalização do espaço urbano em cidades de um país periférico como o nosso é lembrar que o referido processo se deu de modo heterogêneo e desigual daquele que ocorre em países centrais”, afirma o professor.
A verticalização no Brasil é uma realidade, de acordo com o último censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a proporção de apartamentos aumentou, em 2000, era 7,6%, passando para 8,5% em 2010 e em 2020 foram registrados 12,5%. Nessa perspectiva, é indubitável que, com o crescimento exponencial das grandes cidades, o que deveria trazer mais conforto e comodidade para os moradores têm se afastado do espaço público, uma vez que oferecem toda a infraestrutura necessária dentro da segurança dos prédios, como academias e mercados.
Segundo o engenheiro civil e diretor técnico da Efficon Engenharia, Erickson Arving, os valores de mercado locais em anúncios e portais mostram preço médio por m² em Petrolina na faixa de R$ 5.200 a R$ 6.500/m² e valor médio de imóvel à venda variando de R$ 180 a 470 mil, dependendo do porte. Os aluguéis em Juazeiro, nas áreas centrais, costumam variar de R$ 600 a R$ 1.500 para apartamentos padrão de 1 a 3 quartos e as estimativas são padrão médio-alto, pois o custo real pode subir com terreno, infraestrutura, elevadores, acabamentos especiais e exigências ambientais.
A verticalização e a nova face da segregação nas cidades
Concomitantemente a essa tese, é possível relacionar a teoria da “condominização da sociedade”, do psicanalista brasileiro Christian Dunker, que afirma que as pessoas têm construído prédios para se protegerem dos perigos do lado de fora. Consequentemente, a população que vive nessas estruturas não encontra mais motivos para sair de suas bolhas e se arriscar no exterior, o que contribui ainda mais para a desertificação do espaço público.
Ademais, é essencial denunciar a desigualdade na concentração de renda. Como esclarece o arquiteto e urbanista Fernando Augusto Kursancew, professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), edificações voltadas exclusivamente para o interior de seus terrenos tendem a tornar o entorno mais inóspito ao pedestre. A falta de permeabilidade visual e de interação entre o espaço privado e o público reduz a sensação de segurança e faz com que as pessoas evitem circular por essas áreas.
Nesse contexto, é indiscutível que a quantidade de casas e condomínios, tanto no Brasil quanto no mundo, é consideravelmente superior à demanda. Ou seja, o problema da moradia não está na quantidade, mas em uma falha gritante na distribuição desses espaços. Segundo Fernando Augusto Kursancew, que cita o exemplo da cidade de Petrolina, muitos conjuntos habitacionais do programa Minha Casa, Minha Vida, especialmente nas proximidades da BR que dá acesso a Recife, foram implantados fora do contexto urbano consolidado. Essa escolha, frequentemente influenciada por interesses imobiliários e políticos, resultou em empreendimentos isolados, com pouca integração ao tecido urbano.
Dessa maneira, nota-se que esse desacerto tem relação direta com a desigualdade econômica, uma vez que ainda há pessoas vivendo em condições críticas de indignidade domiciliar, em locais com sérios problemas de saneamento básico, o que comprova a vulnerabilidade habitacional como uma questão tanto sociocultural quanto política.
Talvez o verdadeiro progresso não esteja apenas na altura dos prédios, mas na capacidade de uma cidade crescer sem segregação, um debate que ainda está longe de se encerrar. Resta saber: desenvolvimento para todos ou apenas para alguns?
FOTO: Amy Ferreira
POR: Amy Ferreira, Mariane Reis e Sara Freire




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