Em tempos recentes, a cultura brasileira tem sido alvo de ataques sistemáticos: cortes de investimento, tentativas de deslegitimação simbólica e discursos que insistem em tratar a arte como algo supérfluo ou descartável. Ainda assim, apesar desse cenário adverso, a cultura nacional segue demonstrando sua força, sua capacidade de resistência e, sobretudo, sua relevância. Os fatos falam por si. O Brasil voltou a ocupar um lugar de destaque no cenário cultural internacional, reafirmando que nossa produção artística não apenas resiste, como se impõe com qualidade e potência.
A vitória do filme Ainda Estou Aqui no Oscar de 2024 representou um marco histórico para o cinema brasileiro. Mais do que uma estatueta, o prêmio simbolizou o reconhecimento internacional da nossa capacidade de contar histórias universais a partir de uma perspectiva profundamente brasileira. Foi a consagração de profissionais, técnicas e narrativas que dialogam com o mundo sem abrir mão de identidade, memória e compromisso social.
Esse movimento de reconhecimento ganha ainda mais força com a conquista do prêmio de Melhor Ator no Globo de Ouro por Wagner Moura. Trata-se de um artista cuja trajetória está intimamente ligada à coragem estética, ao pensamento crítico e à defesa da cultura como instrumento de transformação. Wagner Moura é brasileiro, nordestino, baiano, e carrega em sua arte a marca de um Brasil diverso, complexo e profundamente criativo.
Sua fala ao receber o prêmio ecoou com força ao lembrar que, “se traumas podem ser passados de geração em geração, os valores também podem”. Essa afirmação sintetiza o papel essencial da cultura na formação cidadã. A arte não é apenas entretenimento; ela educa, provoca, forma consciência e constrói pertencimento. Por meio do cinema, do teatro, da música e das múltiplas linguagens artísticas, uma sociedade aprende a se enxergar, a reconhecer suas contradições e a imaginar futuros possíveis.
Em um país marcado por profundas desigualdades sociais e históricas, a cultura exerce uma função estratégica no desenvolvimento. Ela movimenta a economia, gera emprego e renda, fortalece a economia criativa e impulsiona o turismo. Mas, acima de tudo, forma cidadãos mais críticos, sensíveis e preparados para a vida democrática. Investir em cultura é investir em educação, em cidadania e em desenvolvimento sustentável.
O reconhecimento internacional do cinema e dos artistas brasileiros desmonta a narrativa de que nossa cultura é menor ou irrelevante. Pelo contrário, quando há investimento, políticas públicas e valorização, o retorno se manifesta em prestígio, impacto social e projeção global. A conquista de Wagner Moura simboliza não apenas um prêmio individual, mas a força coletiva de milhares de artistas que seguem criando mesmo diante de adversidades. Simboliza também a centralidade do Nordeste e da Bahia na construção da identidade cultural brasileira.
Celebrar essas vitórias é reafirmar uma escolha política e civilizatória: a de defender a cultura como direito, como política pública e como pilar do desenvolvimento do país. Em meio aos ataques, a resposta da arte brasileira tem sido a excelência, o talento e a persistência em contar nossas próprias histórias. Confesso o orgulho profundo que sinto ao ver nossa cultura ganhar o mundo e afirmar quem somos. E, diante da conquista de um artista como Wagner Moura, esse orgulho se torna ainda mais evidente, carregado de identidade e pertencimento. Deus me livre de não ser baiano.
Por João Gilberto Guimarães Sobrinho, cientista social formado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, graduando em história, pós graduando em História da arte, poeta editor e produtor cultural.



