“A vocação cultural de Juazeiro“, por João Gilberto Guimarães

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Há cidades que a gente entende pelos mapas, pelos números ou pelas manchetes. Juazeiro, eu aprendi a entender pelo que ela sente e faz sentir. Aqui, a cultura nunca foi e nem é enfeite nem acontecimento isolado. Ela é a respiração cotidiana de uma gente, gesto coletivo, força e movimento que organiza a vida e projeta a cidade para além de si mesma, para além de nós mesmos.

O último ano foi uma prova clara disso. A Prefeitura realizou uma série de eventos culturais que movimentaram Juazeiro em muitos sentidos, do simbólico ao econômico, do íntimo ao coletivo. A Juá Literária talvez tenha sido o retrato mais sensível desse momento. Não foi apenas uma festa do livro. Foi a cidade inteira se reconhecendo leitora, ocupando praças, escolas e espaços públicos com palavras, histórias e encontros. Ver crianças, jovens e adultos atravessados pela leitura foi também ver a autoestima do juazeirense sendo tocada, como quem se lembra do próprio valor.

Na música, Juazeiro reafirmou sua relação profunda com o som. O Festival A Bossa foi um sucesso retumbante, reunindo grandes atrações e lembrando ao Brasil que esta cidade não apenas consome música, ela a produz. Não é pouco dizer que Juazeiro deu ao mundo João Gilberto, o gênio que reinventou a canção brasileira, e Ivete Sangalo, essa força da natureza que leva alegria por onde passa. Quando a música ocupa a cidade, ela parece apenas voltar para casa.

O Festival Edésio Santos da Canção, tão tradicional e tão necessário, continuou cumprindo seu papel de dar voz à música autoral, aos compositores que cantam o cotidiano, as dores e as belezas do lugar onde vivem. É ali que a cultura se renova sem perder o chão, que novos artistas surgem e que a canção permanece viva.

E houve o Carnaval de 2026, grandioso em todos os sentidos. Em apenas quatro dias, cerca de 120 milhões de reais circularam na economia local. Mas mais do que o número, impressiona o que ele representa. A cultura colocando gente para trabalhar, gerar renda, sustentar famílias. Do distribuidor de bebidas ao vendedor ambulante, do artista ao técnico, do barraqueiro ao catador de latinhas, forma-se uma corrente de trabalho e dignidade que só a cultura é capaz de criar com tanta força e capilaridade. O turista que chega movimenta hotéis, restaurantes, transportes e leva consigo a imagem de uma cidade viva.

Essa vocação cultural se amplia quando olhamos para as belezas naturais de Juazeiro. O Rio São Francisco, as ilhas, os esportes aquáticos, a paisagem que convida ao encontro e ao descanso. Cultura e natureza caminham juntas, criando um turismo que não é predatório, mas afetivo, sustentável e identitário.

Por tudo isso, falar de cultura em Juazeiro é falar de desenvolvimento. Investir nos artistas da cidade, nos eventos, na formação e na infraestrutura urbana não é luxo, é visão de futuro. A cultura faz o dinheiro circular, gera emprego, atraivisitantes e, sobretudo, fortalece o sentimento de pertencimento de quem vive aqui.

Juazeiro quem te conhece que te compre. Uma cidade que canta, escreve, festeja e reinventa a si mesma. Que os gestores sigam atentos a essa vocação, que essa chama nunca se apague e que novos investimentos continuem chegando, para que a cultura siga sendo o coração pulsante desta terra banhada pelo rio e movida pela criação.

Por João Gilberto Guimarães Sobrinho é escritor, Cientista Social, graduando em história, pós graduando em História da arte, pesquisador das políticas públicas de cultura, atualmente é o Representante Territorial de Cultura do território Sertão do São Francisco.

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