“Minha mãe, minha Colombina”, por Sibelle Fonseca

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Concorda que tem gente que é carnaval? Gente livre, lúdica, leve, que inverte a ordem, exagera nos gestos e expressões, e sabe bem fantasiar a realidade dura, na maioria das vezes, e pular atrás de um trio. Vezes com máscaras, porque elas são necessárias.

Mas sempre dando a cara, levantando o pescoço e com o dedo pronto a ficar em riste, caso seja necessário. Pena que essa gente é rara e é por isso que o mundo está assim tão chato. Se você tem alguém carnaval, zele.

Mantenha pertinho e pegue a mania de dizer isso ela. Eu guardo um carnaval dentro de mim. Herdei de minha mãe que foi embora no mês de fevereiro do ano passado.

Tenho aprendido a viver sem ela, minha Colombina. Moça linda e inteligente, de humor rápido, soluções ligeiras e cheia de serpentinas. Meu Ar e calor.

De lá pra cá, o sentimento de ser órfã me acompanha. Órfã daquele berço que não embalava dramas, e me punha no chão. Daquele endereço, esquina do meu porto seguro.

Da casa de número 75, onde a menina minha mãe cresceu e viveu até seu penúltimo dia, e para onde eu podia correr só para ver seus olhinhos de amor, mesmo tendo o corpo preso em uma cama. De lá eu nunca saia sem um “Deus lhe abençoe, minha filha”- Um mantra dito por seu coração insuspeito.

De lá eu saia vestida com o manto de Omolu. Mais protegida, mais amada. Quem mais será tão forte ao pedir que “Deus me abençoe”, como a minha mãe, essa Mulher que me abençoou a vida todinha.

Essa Mulher que vive em mim até quando eu me for também. Ela mora na bagunça do meu guarda roupa, na minha caixinha de som, nas minhas toalhas desgastadas, na minha cozinha sempre faltando alguma coisa, na asa da xícara quebrada e na minha casa sem decoração.

Ela mora no meu linguajar, nos meus melhores conselhos e gestos. Mora na minha camisola e ainda mais no meu batom vermelho. Ela sai todo dia comigo para trabalhar e volta pra finalizar o almoço.

Ela faz as contas, paga os boletos, tira tudo por menos, gargalha, faz piada, chora por bobagem, dá seus depoimentos, cuida dos que ama sem afetação.Ela está no feijão, na moqueca de peixe que faço, e no desejo pelo olho dele, se for assado.

Ela me vem no cheiro de pirão de carneiro, no beiju de fim de tarde, no pudim, e na repulsa a caldo de cana. Minha Mãe nunca foi modelo terna e melosa como dizem que devem ser as mães. Minha Mãe foi uma mulher real e esse foi seu maior legado para mim. 

Costurava, bordava, jogava buraco, gostava de Dolores Duran, andava no salto e na rasteirinha com o mesmo equilíbrio que chegava à ponta de seu batom.

Providencial, resolutiva, independente. Pintava o sete num tempo em que mulher não tinha direito nem a alegria e nem a tristeza. E ela era Maria Das Dores, a quem chamavam de Maria Das Alegrias.

Vai saber o que essa mulher, minha mãe, passou em vida para poder partir com tanta dignidade e reverência dos seus afetos. Professora e sacoleira. Uma comerciante que sabia “negociar”, habilidade que usou a vida inteira.

Viajava de “pinga a pinga” até o Ceará pra comprar mercadoria, revender, e também vestir as suas meninas. Ela era arrojada, pra frente. Um motor. Uma usina de ideias e soluções. Mil mãos para os amigos. Mais de mil pés para os seus. Esteio.  Presença. Sorrisos. Dona das gargalhadas e das gaiatices mais gostosas que já ouvi até agora. Disso, fiquei órfã também.

Fiquei órfã da avó dos meus filhos. A avó amiga, confidente, divertida, a que vibrava na formatura do ABC, a que se antecipava e chegava junto. Fiquei órfã da minha avalista nas apostas e escolhas mais duvidosas e incertas que já fiz.

Ela me avalizava, ainda que não me endossasse, e sem antes me avisar dos perigos que eu corria. Dando certo ou errado, estava Ela ali, ao meu lado.

Neste domingo de fevereiro, um ano sem ela, é seu carnaval que me habita. Vivemos intensamente muitos dias de festa, gaiatices, música alta, gestos e mesa fartos, fantasias. Alegria, alegria nas dores Maria.

Eu aprendi a viver sem Mãe e não é mais dor que sinto. É saudade boa. É plenitude e aquela sensação de agora sou eu que estou prenhe da minha Mãe. Do Carnaval que era ela. Instrumento da minha evolução, minha Mãe. Transcendência!

Sou eu quem digo agora: Deus lhe abençoe, minha Mãe! A mais linda deste céu é você! Obrigada por me ensinar que não tem como se viver sem saber fazer um carnaval da vida. Ainda que, de vez em quando e sempre que possível. Se a melancolia do Pierrot encostar, que venha o Arlequim brincalhão, o atrevimento da Colombina, o brilho e as cores da minha Mãe Carnaval. Minha mãe Colombina!

Sibelle Fonseca é juazeirense, radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, humanista, mãe de Carla, Pingo, Mariana,  Ananda e humana de Diana, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e dos animais, uma amante da vida e das gentes.

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