“5×2: O assombro dos mesmos velhos fantasmas”, por João Gilberto Guimarães

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5×2: O assombro dos mesmos velhos fantasmas

O presidente do PL, Valdemar da Costa Neto, declarou em um luxuoso jantar com empresários que vai atuar para impedir o fim da escala 6×1 no Brasil. O argumento apresentado por ele e por setores empresariais é conhecido: alterar a jornada pode trazer prejuízos econômicos, comprometer a produtividade e gerar instabilidade. A narrativa não é nova. Sempre que trabalhadores reivindicam algum avanço, alguém anuncia o colapso iminente da nação. A retórica muda de roupa ao longo das décadas, mas a essência permanece intacta: ampliar direitos seria uma ameaça ao país.
No século XIX, sustentava-se que o fim da escravidão arruinaria a economia brasileira. A abolição veio e o Brasil não se acabou. Ao contrário, o que ruiu foi a tentativa de justificar a injustificável exploração do trabalho escravo como uma necessidade econômica fundamental.
Em 26 de abril de 1962, o jornal O Globo estampava em sua capa que o pagamento do 13º salário seria desastroso para o país. A medida foi sancionada naquele mesmo ano pelo presidente João Goulart. O desastre anunciado não ocorreu e mais uma vez o mundo não se acabou, o comércio foi aquecido, o consumo cresceu e a economia absorveu o novo direito como absorveu todos os outros. O capitalismo brasileiro mostra-se bastante resiliente quando o dinheiro circula nas mãos de quem trabalha.
Décadas depois, o mesmo enredo se repete. Agora, o suposto risco atende pelo nome de fim da escala 6×1. A lógica é idêntica: se o trabalhador descansar mais, a economia entra em colapso. Curiosamente, boa parte da classe política que se opõe à redução da jornada não enfrenta a rotina exaustiva de seis dias consecutivos de trabalho. Muitos parlamentares cumprem agendas presenciais reduzidas, contam com recesso prolongado, recebem salários muito acima da média nacional, verbas de gabinete, auxílios diversos e uma ampla estrutura financiada pelo contribuinte. Ainda assim, apresentam-se como guardiões da responsabilidade fiscal quando o assunto é o direito de descanso de quem depende exclusivamente do próprio esforço para sobreviver.
A história econômica brasileira revela um padrão incômodo para os defensores do imobilismo: toda conquista trabalhista foi precedida por previsões sombrias. Férias remuneradas seriam inviáveis, a Consolidação das Leis do Trabalho inviabilizaria a indústria, o 13º salário quebraria o comércio. Nada disso ocorreu. O que de fato compromete a estabilidade de um país não é o fortalecimento da sua base trabalhadora, mas a manutenção de desigualdades profundas e a blindagem permanente de privilégios. Países desenvolvidos discutem jornadas reduzidas como estratégia para aumentar produtividade, diminuir adoecimento e melhorar qualidade de vida. Enquanto isso, por aqui, ainda se sustenta que o descanso mínimo representa ameaça estrutural.
Talvez o temor não seja econômico, mas simbólico. Quando o trabalhador conquista tempo, conquista também autonomia, formação, convivência familiar e, sobretudo, consciência. E consciência social nunca foi confortável para estruturas que se alimentam da naturalização do excesso. A classe trabalhadora brasileira precisa refletir com serenidade sobre quem realmente impõe custos ao país. É o cidadão que enfrenta transporte precário, jornadas extensas e salário comprimido, ou são aqueles que acumulam benefícios públicos enquanto defendem o sacrifício dos outros. O Brasil jamais quebrou por ampliar direitos. Mas já pagou caro, muitas vezes, por proteger privilégios como se fossem pilares da economia.

João Gilberto Guimarães Sobrinho é Cientista Social formado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, Graduando em história, pós graduando em História da arte, escritor, Produtor cultural e Representante Territorial de Cultura do Sertão do São Francisco.

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