Passar pela ponte entre Juazeiro e Petrolina sempre foi mais do que uma travessia geográfica. É um deslocamento simbólico entre narrativas, disputas políticas e identidades singulares. Nos últimos dias, esse percurso ganhou um novo personagem: um rapaz chamado Anderson Dias, que se intitula conhecedor do mundo, já tendo visitado “todos os 196 países do mundo”, mas, ao que parece, não teve aquele berço necessário que nos ensina a chegar na casa dos outros com bons modos. Como é bem próprio da maioria dos tais influenciadores (muitos mentores do mal e da futilidade), em busca de combustível para engajamento, o 196 decidiu comparar as duas cidades apontando contrastes. Sabe-se lá a que preço.
Usando um tom próximo ao publicitário, daqueles muito bem pagos, veio o elogio. Em vídeo de cinco dias atrás, Petrolina apareceu como vitrine: organizada, eficiente, isenta de problemas, quase um modelo acabado de cidade cosmopolita bem-sucedida.
Dias depois, Juazeiro foi retratada sob outro filtro. Aliás, sob o olhar vago e vazio do rapaz sem educação. Um recorte marcado por imagens de precariedade, com ênfase na periferia e em equipamentos degradados. Seletivo e decidido a enxovalhar a imagem da cidade, ele não enxergou a “Estação do Saber” espaço requalificado e hoje transformado em equipamento educacional. Preferiu destacar a antiga e pequena estação abandonada pela União. Ele fez um malabarismo até engraçado para mostrar a rodoviária de Petrolina, tão feia e mais violenta, que a de Juazeiro. A escolha não é trivial. Em comunicação, o que se omite pesa tanto quanto o que se mostra.
Os mais juazeirenses, reagiram em defesa da cidade; aqueles que cospem em si mesmos, aplaudiram. Juazeiro, de fato, acumula problemas históricos: planejamento irregular, ciclos de descontinuidade administrativa e muitas limitações estruturais. O ponto sensível está na construção de um contraste que parece menos analítico e mais performático. Uma cidade é enquadrada para exaltação; a outra, para desgaste.
Esse padrão ganha ares estranhos quando se observam episódios anteriores da trajetória do influenciador.
Em março de 2026, por exemplo, Anderson esteve em São Cristóvão-SE e publicou críticas contundentes à gestão turística local. Apontou abandono de espaços históricos e direcionou ataques à então secretária municipal de Cultura e Turismo, Paola Santana, a quem se referiu de forma irônica como “rainha da cidade”. A resposta institucional veio em forma de nota de repúdio, na qual a prefeitura alegou que o influenciador havia mantido contato prévio com o município antes da publicação do vídeo. Sabe-se lá querendo o que.
Ainda em 2026, outra controvérsia emergiu na mesma Petrolina. O influenciador publicou um vídeo simulando uma abordagem da Polícia Militar de Pernambuco, após relatar que seu veículo teria sido parado e submetido à ação de um cão farejador. O conteúdo, que destacava a atuação da corporação, repercutiu por transformar uma situação potencialmente delicada em peça de entretenimento. Mais uma vez, o elemento performático prevaleceu sobre qualquer preocupação com contexto ou implicações institucionais.
Voltando alguns anos, em fevereiro de 2022, Anderson ganhou projeção nacional ao relatar ter conseguido um avião para resgatar familiares, incluindo sua sogra, durante a Guerra da Ucrânia. O episódio foi amplamente compartilhado. Parte do público reconheceu o esforço; outra parte questionou o grau de exposição dado a uma situação humanitária sensível. A narrativa, novamente, oscilou entre feito extraordinário e construção de imagem.
Quando se conectam esses episódios, o padrão se torna mais nítido. O influenciador dos 196 países se aproxima de um território, estabelece um ponto de tensão, seja por crítica, ofensa, denúncia ou encenação, para em seguida amplificar o conflito nas redes.
No caso Juazeiro–Petrolina, essa lógica encontra terreno fértil. A cidade pernambucana, frequentemente apresentada como exemplo de dinamismo, também carrega suas próprias contradições.
A recente “Operação Vassalos”, da Polícia Federal, que o influenciador parece desconhecer, atingiu diretamente a família Coelho, grupo político que se alterna no poder há décadas, estruturando uma dinâmica de forte concentração de influência. Ao longo desses ciclos, investimentos privilegiaram a orla e o centro, ou seja, áreas visíveis, facilmente convertidas em vitrines urbanas.
O 196 não andou pela periferia de Petrolina, esquecida pelo poder público e pelas câmeras dos influenciadores. Ali, os problemas se aproximam aos encontrados em Juazeiro: déficit de infraestrutura, desigualdade territorial e econômica; serviços públicos precários. A diferença está no enquadramento. Petrolina aparece editada como síntese de êxito. Juazeiro, como evidência do fracasso.
Parece gratuito … Será?
Essa assimetria, no entanto, não decorre de escolhas estéticas. Ela dialoga com a lógica de monetização das redes sociais e rende “publis”, conteúdo pago, o que pode incluir dinheiro, permutas, privilégios.
Conteúdos que exaltam atraem; conteúdos que atacam engajam mais ainda. A combinação dos dois maximiza alcance. Tudo que influenciadores deste naipe perseguem, ainda que de forma rasa, rasteira, estúpida e desrespeitosa.
Não é novidade que gestões públicas contratam influenciadores para promover suas cidades. Uma prática já incorporada na comunicação institucional. Não sei se o deslumbramento do influenciador 196 foi contratado. Não sei se a missa foi encomendada. O que me chama atenção, no caso, é a seletividade utilizada que parece menos fruto de uma observação espontânea, responsável e informada, e mais alinhada a lógica do desgaste da cidade vizinha.
Juazeiro tem inúmeros problemas, e negá-los seria leviandade e desonestidade. Mas transformá-la em caricatura, também o é.
Juazeiro é prenhe de Alma, coisa mais rara que concreto. Seus becos têm poesia, tem uma gente feliz, que não se rende, não se submete, e se rebela, hein? Aqui cobra não se cria não. Nem nenhum outro bicho que queira nos engolir. Juazeiro não é submissa. Ela tem a malemolência bossa-novista e a pegada do axé. Juazeiro é um cenário pronto e especialíssimo! Uma pena que o produtor de conteúdo já tenha atravessado a ponte com suas lentes contaminadas.
Desejo que, na sua próxima visita, ele permaneça do outro lado da ponte e curta Petrolina, que coleciona obras, avenidas largas, orlas, investimentos, prédios altos. Mas que ele também informe-se sobre a coleção de escândalos, muitos escândalos, que envolvem a “Terra dos Impossíveis”.
Entre uma narrativa e outra, há uma realidade mais complexa, que dificilmente cabe em vídeos toscos de poucos minutos, mas que segue sendo atravessada todos os dias por quem vive, e não apenas visita, essas cidades.
Por Sibelle Fonseca



