“A poesia do ordinário e a resistência do olhar: Dias Perfeitos”, por Luiz Antonio Costa

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A vida, como eu sempre digo, é um abismo que nos espreita por trás da porta da sala de jantar, como dizia minha mãe. E a arte é apenas o grito que damos ao cair. Quando me sentei para assistir a Dias Perfeitos (2023), sob a batuta de Wim Wenders, eu esperava o óbvio: narrativas grandiosas e conflitos existenciais ruidosos. Mas o diretor, num gesto de sensibilidade sublime, nos dá as costas para a hiperatividade moderna. Ele nos arrasta, pelo silêncio, para o centro do palco onde a verdadeira resistência se consuma: o cotidiano de um homem que limpa banheiros em Tóquio.

O filme é uma bofetada na nossa cara de burgueses bem-comportados e apressados. Esqueçam os roteiros frenéticos e a pompa corporativa. A genialidade da obra está em esfolar a alma humana na sua mais bela banalidade. A rotina de Hirayama não é um fardo, mas um refúgio. E o que sobra? A dignidade de um trabalho que não persegue o homem em seus momentos de descanso, permitindo verdadeira desconexão ao fim do expediente. A vassoura e o balde, uma vez guardados, não o assombram.

Hirayama, vivido por um Koji Yakusho que atua não com palavras, mas com a alma exposta, é o verdadeiro dono dessa ode ao tempo não consumido. Ele é a terra, o barro, o homem que cultiva a arte de ver enquanto o mundo foge de si mesmo. Sua vida é minimalismo essencial: um lar desprovido de mobília supérflua, apenas um tatame, mas repleto de Faulkner e Highsmith, de fitas cassete de Lou Reed e Patti Smith. E o mundo moderno? A hiperconexãonos entrega uma sociedade miúda, impotente, que, incapaz de estar presente, resolve engarrafar a vida em telas. É de uma ironia patética: nós, que temos acesso a todo o conhecimento, somos analfabetos diante do pôr do sol, da lua ou do rio que corre ao lado de nossas casas.

Aí chegamos ao cerne da obra. O filme nos confronta com uma verdade incômoda: acabamos prisioneiros na agitação, perdendo a capacidade de simplesmente olhar. Não paramos para observar o rio que corre ao lado de nossas casas, nem nos permitimos contemplar a ponte que atravessamos diariamente. As árvores da praça da Igreja permanecem invisíveis aos nossos olhos apressados. Hirayama cultiva a arte de ver. Suas fotografias de árvores, suas caminhadas matinais, sua pausa para observar a luz que filtra pelas folhas, não são atos de contemplação ociosa, mas atos de resistência contra a anestesia coletiva.

O desfecho da obra nos devora com sua simplicidade. A música de Nina Simone, “Feeling Good”, desce sobre a cena final não como uma mortalha, mas como um amanhecer. Qualquer outro diretor teria afogado o espectador em diálogos explicativos. Mas Wenders não. Ele deixa a música apenas roçar a pele da esperança. É um silêncio que ensurdece a nossa pressa. É a prova de que a paz, quando abraçada, só pode ser traduzida pela aceitação de que no mundo há muitos mundos, e às vezes não se conectam.

Eu digo, sem o menor pudor: Dias Perfeitos não é um filme sobre como limpar banheiros. É um filme sobre o preço que se paga pela pobreza de atenção. É a constatação de que a verdadeira riqueza não se mede em posses ou status, mas na capacidade de encontrar significado e poesia nas repetições diárias. Wenders pegou a rotina, virou-a do avesso e nos mostrou as costuras tecidas com luz e tempo. E nós com a certeza de que a vida é, e sempre será, a maior e mais bela das resistências silenciosas.

Por Luiz Antonio Costa de Santana, Professor da Univasf e da Uneb. Doutor em Direito, em Ecologia Humana e em Gestão Socioambiental. Advogado e Engenheiro.

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