“O vice dos sonhos virou um pesadelo”, por João Gilberto Guimarães Sobrinho

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O vice dos sonhos virou um pesadelo A política brasileira é realmente fascinante. Em poucos meses, um homem pode sair da condição de “grande quadro nacional”, “articulador brilhante” e possível vice-presidente dos sonhos para virar assunto constrangedor em nota oficial e dor de cabeça em grupo de WhatsApp político.

O caso do senador Ciro Nogueira prova, mais uma vez, que na política brasileira a fidelidade dura exatamente até a chegada da Polícia Federal. A internet, que nunca esquece absolutamente nada, fez questão de resgatar antigas declarações do senador Flávio Bolsonaro elogiando Ciro Nogueira como um excelente nome para compor uma chapa presidencial.

Na época, o exministro da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro era tratado quase como um maestro da articulação política, um homem de confiança, um parceiro estratégico, um verdadeiro “vice dos sonhos”. Mas como todo roteiro político brasileiro precisa de um grande “plot twist”, chegaram as investigações envolvendo o escândalo do Banco Master. E bastou a Polícia Federal bater na porta para o clima de romance político virar aquele constrangimento típico de quem encontra o ex no supermercado.

Agora, Flávio Bolsonaro afirma considerar “graves” as acusações contra Ciro Nogueira. Graves. Veja só. O mesmo aliado que antes era visto como peça importante para o futuro do país agora recebe declarações frias, cautelosas e cuidadosamente calculadas para não contaminar ninguém politicamente.

A famosa síndrome do “companheiro até segunda ordem”.

A investigação da Polícia Federal, realizada por meio da Operação Compliance Zero, apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional ligados ao Banco Master. O nome de Ciro Nogueira aparece entre os alvos da operação, que incluiu mandados de busca e apreensão e bloqueio milionário de bens. A defesa do senador afirma que ele não participou de qualquer irregularidade e critica a operação.

O curioso é observar como funciona a moral elástica da política brasileira. Quando o investigado é aliado, surgem imediatamente discursos sobre prudência, garantias constitucionais e presunção de inocência. Quando deixa de ser útil ou vira problema eleitoral, aparece o velho “as acusações são graves”.

A gravidade, aparentemente, depende muito da conveniência do momento. É preciso evitar o abraço do afogado, e a prática virou quase patrimônio cultural do Brasil. Políticos passam anos dividindo palanque, ministérios, jantares, cargos e elogios públicos.

Depois, diante de qualquer escândalo ou inconveniente, fingem que mal conheciam o sujeito. Falta apenas dizer que encontraram o cidadão por acaso na fila do cafezinho do Congresso.

Enquanto isso, o eleitor assiste a tudo como quem vê reprise de novela. Muda o governo, mudam os partidos, mudam os slogans, mas o roteiro continua exatamente o mesmo. O aliado de ontem vira o problema de hoje. O defensor apaixonado vira comentarista cauteloso.

E a indignação seletiva segue firme, forte e extremamente adaptável.

No fim, o “vice dos sonhos” acabou virando um indigesto pesadelo político. E talvez o mais impressionante não seja a investigação em si, mas a velocidade com que alguns políticos conseguem trocar entusiasmo por constrangimento sem demonstrar o menor desconforto.

Quem será o próximo?

João Gilberto Guimarães Sobrinho é Cientista Social formado pela Universidade Federal do vale do São Francisco.

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