“Sete anos na montanha”, por Dr. Luiz Antonio Costa

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Posso falar da literatura como patrimônio ou como instrumento pedagógico. Ainda seria pouco. Um grande livro ocupa mais que uma estante: muda a respiração e o modo como percebemos o tempo. Há obras que lemos com os olhos, mas também com a memória, com o corpo e com aquilo que a vida ainda não soube explicar.

Entre esses livros está A montanha mágica, de Thomas Mann. O personagem Hans Castorp sobe aos Alpes suíços para visitar o primo Joachim, internado em um sanatório em Davos. A visita deveria ser breve, mas o hóspede provisório permanece e a estada se prolonga por sete anos. O que parecia episódio vira destino; o que parecia pausa, iniciação.

Todo grande romance é, talvez, isto: uma interrupção da vida comum para que a própria vida possa ser vista com mais profundidade. Na planície, Castorp era um jovem engenheiro, filho de uma sociedade burguesa educada para o trabalho e o futuro previsível. Na montanha, essas certezas perdem estabilidade. O relógio continua a marcar as horas, mas o tempo já não é o mesmo. Os dias passam por refeições, repousos, medições de temperatura, conversas e esperas. O corpo, antes quase invisível, torna-se presença absoluta. A respiração ganha importância. A febre vira linguagem. A morte deixa de ser ideia distante e passa a circular pelos corredores.

Mann compreendeu que a doença pode tornar-se experiência filosófica. O sanatório de Davos não é só hospital. É também laboratório espiritual. Ali, Castorp aprende que existir exige mais que funcionar. A vida não se resume a cumprir horários, responder obrigações e obedecer ao movimento exterior do mundo. Há uma vida subterrânea, silenciosa, muitas vezes sufocada pela pressa. A montanha revela essa vida escondida.

Por isso, o romance é também uma meditação sobre o tempo. Não apenas o tempo do calendário, mas o tempo vivido. Há dias que pesam como anos e anos que passam como névoa. Certos instantes abrem fendas na consciência. A espera, a doença, o amor e a proximidade da morte modificam a duração das coisas. O tempo útil da planície perde seu império. Em seu lugar surge um tempo mais espesso, mais ambíguo, mais interior.

Há também uma economia secreta nessa narrativa. Não a economia dos mercados, mas a economia mais radical de todas: a administração do tempo finito. Em economia, chama-se custo de oportunidade aquilo que se perde quando se escolhe um caminho e não outro. Hans Castorp paga um custo imenso ao permanecer sete anos na montanha. Perde a vida ordinária, a carreira previsível, os compromissos da planície, talvez até a juventude tal como ela poderia ter sido. Mas o romance nos obriga a perguntar se todo custo é perda. Algumas escolhas empobrecem a vida; outras a tornam mais profunda.

A planície organiza a vida pela eficiência; a montanha a expõe ao pensamento. Castorp talvez tenha perdido tempo, se medirmos a vida pelo relógio da utilidade. Talvez tenha encontrado tempo, se entendermos que viver exige mais que produzir e cumprir etapas. O custo de oportunidade de sua permanência na montanha é também o preço de sua formação.

Talvez a economia e a filosofia se encontrem nesse ponto: ambas partem da escassez. A economia pensa a escassez dos bens; a filosofia, a do tempo. Não podemos viver todas as vidas, percorrer todos os caminhos, realizar todos os desejos. Cada escolha abre uma possibilidade e fecha outras. Por isso a literatura nos importa tanto. Ela amplia simbolicamente aquilo que a existência real limita. Em um único livro, vivemos vidas que não tivemos e aprendemos dores que não seriam nossas.

Walter Benjamin dizia que a modernidade empobreceu a experiência. Recebemos informações e estímulos sem conseguir transformá-los em sabedoria. A narração exige outra relação com o tempo. Exige demora, escuta, memória. Talvez por isso o livro de Mann seja tão necessário em uma época que confunde velocidade com intensidade. Lê-lo é aceitar uma pedagogia da lentidão. A obra nos obriga a desacelerar e a perceber que a existência não cabe no ritmo da produtividade. A literatura, quando alcança grandeza, devolve essa gravidade sem transformá-la em desespero.

É isso que Mann realiza. Ele recusa a ideia de que o sofrimento purifica por si mesmo ou de que a enfermidade torna alguém superior. Sua lição é mais madura: o sofrimento pode ensinar e aprisionar; a proximidade da morte pode despertar a consciência e seduzi-la para o abismo. Pode gerar niilismo ou intensidade. Em Mann, a morte merece reconhecimento.

jamais adoração. Saber-se finita dá profundidade à vida; transformá-la em fascínio retira essa dignidade. A sabedoria está em atravessar essa tensão.

As ideias contidas num livro têm corpo e voz. Sentam-se à mesa, discutem, disputam a alma do personagem. Talvez seja essa uma das maiores forças da literatura: fazer com que conceitos deixem de ser abstrações e passem a respirar dentro de vidas concretas. O tempo, a morte e a liberdade surgem como experiências que exigem escolha.

Kierkegaard chamava de desespero essa doença do espírito que nasce quando o ser humano se perde de si mesmo. Ler esse romance é aceitar uma pergunta difícil: em que medida nossa vida nos pertence? Quantas de nossas escolhas são apenas obediência ao costume? Quanto de nossa saúde aparente esconde uma pobreza interior? Mann não responde de forma simples. Um grande escritor raramente entrega respostas prontas. Ele nos deixa diante de uma cena, de um rosto, de uma despedida. A partir daí, cada leitor precisa fazer sua própria travessia.

A literatura é abrigo. Depois de um grande livro, voltamos à vida com alguma alteração íntima. Talvez vejamos menos brilho nas urgências e desconfiemos mais das certezas que se impõem. O tempo, nosso bem mais precioso, não deve ser entregue tão facilmente à dispersão.

Sete anos na montanha podem parecer desperdício. Para Hans Castorp, foram educação. Para o leitor, podem ser revelação. A literatura tem essa força estranha: inventa uma história e, por meio dela, nos devolve uma verdade que já nos habitava, mas ainda não tinha encontrado forma.

No fim, é isso que um livro importante faz: ensina-nos a viver com a consciência de sua presença. Toda vida terá sua montanha. Resta saber se teremos paciência para subi-la.

Por Luiz Antonio Costa/ Doutor em Direito (UNLZ/UBA). Doutor em Ecologia Humana e Gestão Socioambiental (UNEB). Professor da UNEB e da Univasf. Advogado

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