Sempre Aos Domingos: “A proliferação dos influencers e o São João de Petrolina- Quando foi que o vazio ficou tão bonito a ponto de virar referência?”

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A presença purpurinada e deslumbrante de figuras conhecidas como “influenciadores” no São João de Petrolina roubou a cena e também acendeu um alerta. Entre nomes nacionais com milhões de seguidores e perfis locais em ascensão, o brilho das telas se sobrepôs à essência da cobertura dos fatos. Em meio a cachês elevados e disputas por visibilidade, a festa popular vem a cada ano se distanciando da verdadeira cultura nordestina.

O que mais me inquieta, no entanto, não é apenas o valor pago por essas presenças, mas o espaço que foi subtraído dos profissionais da imprensa que vivem esse território e dão voz aos seus acontecimentos. Chegou-se ao ponto de interferências diretas na logística e no trabalho jornalístico, com episódios que limitaram a atuação da imprensa. Enquanto os operários da comunicação regional precisaram se humilhar e amargar constrangimentos para cobrirem a festa, os influenciadores eram tratados como VIPs (Very Important Person.) A estes, toda regalia.

Percebo algo profundamente inquietante acontecendo diante dos nossos olhos e, pior, sendo celebrado. A proliferação dos chamados “influencers”, protagonistas da era digital. Essas figuras estão nas festas públicas e particulares, nos camarotes, nos palcos e não mais como coadjuvantes, mas como uma espécie de atração paralela, quase obrigatória. Alçados à condição de estrelas, disputam os holofotes com artistas renomados como se fossem parte da mesma prateleira de relevância cultural. Circulam como celebridades, disputam flashes, pautam conversas. E o mais inquietante: são tratadas como referência de sucesso. E eu pergunto: sucesso de quê?

Talvez, de uma lógica onde influenciar para o bem ou para o mal é o que importa. Aliás, é o que engaja. Influenciar virou sinônimo de induzir. Onde vender é mais importante do que responsabilizar. Onde a vida é um catálogo e as pessoas, consumidores em potencial, ratinhos de laboratório vulneráveis a qualquer experiência. Não importa o que está sendo promovido. Apostas, ilusões, procedimentos, padrões inalcançáveis, futilidades, fofocas, boatos, notícias falsas e o escambau. Desde que engaje, desde que renda, desde que viralize.

O algoritmo decide quem merece aplauso e a estética do vazio tomou conta.

Uma gente que não leu um livro sequer na vida, passa a construir valores, comportamentos e, sobretudo, prioridades sociais. Opinam sobre o que não sabem, cagam regras, super indicam produtos duvidosos que, muitas vezes, nem usam.

Um padrão que se repete, se multiplica e se impõe como referência. São os corpos milimetricamente calculados, as loiras impecáveis, as magérrimas moldadas por procedimentos, os boys sarados, os deslumbrados, as vidas editadas pela I.A. São esses que vendem tudo. Da rotina “perfeita” ao produto milagroso, da aposta fácil ao sonho rápido. E sempre com um link na bio e um discurso pronto nos stories.

Hoje, esses são o modelo. Visibilidade virou sinônimo de importância. Não importa o conteúdo, não importa a contribuição, não importa a responsabilidade. O que importa é o alcance. De nada valem mais o conhecimento, a arte, o pensamento crítico. O que vale é o consumo. A aparência. A vida filtrada e muitas vezes completamente dissociada da realidade.

Enquanto isso, cresce a lista de episódios envolvendo esses mesmos personagens: investigações, prisões, envolvimento com práticas ilegais, promoção de apostas, esquemas duvidosos e uma banalização assustadora da influência como ferramenta de manipulação. Puro suco puro de ostentação! Algo “surreal”, sempre “incrível” (termos repetidos por essas figuras, muitas, de vocabulário raso).

Antes que me critiquem, não estou aqui generalizando, mas reconhecendo um padrão preocupante que tem atingido em cheio a sociedade já tão débil em valores e ideais.

Não se trata de demonizar indivíduos, mas de encarar o espelho coletivo. Porque somos nós, como sociedade, que passamos a aplaudir esse espetáculo. Fomos nós que trocamos conteúdo por vitrine, profundidade por alcance, consistência por estética.

Não se trata de negar a existência ou a força desse fenômeno. Ele é real, poderoso e, em muitos casos, legítimo. Mas precisa ser questionado e com urgência. Porque quando a embalagem passa a valer mais do que o conteúdo, o risco não é apenas cultural. É ético. Eu vejo perigo quando a sociedade que começa a confundir popularidade com mérito.

É preciso admitir que estamos formando uma geração que não quer mais ser algo, quer parecer ser.

E talvez a pergunta mais incômoda de todas seja: quem estamos escolhendo seguir e por quê? Pergunta necessária também.

Cresci ouvindo de meu pai: “diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és”. Como uma boa adolescente rebelde, eu refutava a velha máxima.

Mas a maturidade me faz atualizar esse pensamento. Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és.

O certo é que nossas conexões sociais e digitais revelam muito sobre a nossa identidade

Por fim, a pergunta que permanece, atravessando curtidas, stories e contratos publicitários: Quando foi que o vazio ficou tão bonito a ponto de virar referência?

Sibelle Fonseca é juazeirense, radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, humanista, mãe de Carla, Pingo, Mariana, Ananda e humana de Diana e de mais 5, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e dos animais, uma amante da vida e das gentes.

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