A Venezuela paradisíaca de Nikolas Ferreira Durante anos, uma das imagens mais repetidas no discurso político bolsonarista foi a de que o Brasil estaria a caminho de se transformar em uma “Venezuela”. A comparação funcionou como um dos principais argumentos eleitorais contra o PT: o retorno de Lula ao poder seria, segundo essa narrativa, o primeiro passo para a deterioração econômica, a perda de patrimônio e a ruína do país.
A realidade, entretanto, tem uma curiosa capacidade de contrariar slogans. Enquanto o discurso anunciava a Venezuela, os indicadores brasileiros produziram números que dificilmente combinam com a caricatura de um país em colapso.
E, no meio dessa contradição, aparece um personagem particularmente simbólico: Nikolas Ferreira, um dos mais conhecidos representantes da direita bolsonarista. O deputado acaba de declarar à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 3,9 milhões para as eleições de 2026.
Em 2022, sua declaração registrava R$ 36.820,46. A diferença nominal é de aproximadamente R$ 3,86 milhões, ou um crescimento de 10.488% no patrimônio declarado. É importante fazer a ressalva: esse número não significa que Nikolas tenha colocado R$ 3,9 milhões em dinheiro no bolso.
Parte relevante do patrimônio é um imóvel avaliado em R$ 2,23 milhões, adquirido mediante financiamento, com saldo devedor declarado de R$ 1,72 milhão. O próprio deputado argumenta que o valor integral do imóvel aparece na declaração, mas não corresponde ao seu patrimônio líquido.
Ainda assim, há uma pergunta legítima e jornalisticamente interessante: como alguém que se apresenta como crítico de um modelo econômico supostamente destinado a transformar o Brasil em uma Venezuela acumula patrimônio dessa magnitude justamente no Brasil que, segundo o discurso político que ajudou a difundir, estaria caminhando para o desastre? A pergunta não é uma acusação de irregularidade. Não há, nas fontes consultadas, comprovação de que o crescimento patrimonial de Nikolas seja ilícito.
É uma questão sobre a distância entre retórica política e realidade econômica. O problema da narrativa “o Brasil vai virar uma Venezuela” é que ela pressupunha que determinados indicadores econômicos e sociais caminhariam para uma deterioração semelhante à venezuelana. Mas os números recentes contam uma história diferente. Em 2025, a taxa anual de desemprego brasileira foi de 5,6%, a menor da série histórica da PNAD Contínua iniciada em 2012.
Em comparação com 2024, houve queda de 1 ponto percentual. O número de pessoas desocupadas caiu aproximadamente 1 milhão, para 6,2 milhões. E não foi apenas uma fotografia isolada.
No trimestre encerrado em fevereiro de 2026, a taxa chegou a 5,8%, também recorde para aquele período da série. É claro que desemprego não é sinônimo de prosperidade.
O Brasil continua enfrentando desigualdade, informalidade, juros elevados e uma série de problemas estruturais. Mas existe uma diferença entre reconhecer esses problemas e afirmar que o país está reproduzindo o caminho venezuelano. Uma economia com a menor taxa anual de desemprego da sua série histórica não se encaixa facilmente na narrativa de um país em colapso econômico.
Outro dado curioso aparece no mercado automobilístico. Depois de seis anos consecutivos de alta, o preço médio real dos veículos novos começou a recuar em 2026. Levantamento da Bright Consulting apontou que o preço público médio deflacionado dos veículos leves caiu de R$ 172,5 mil em 2025 para R$ 170 mil em junho de 2026, uma redução real de 1,5%.
No mercado de usados, o movimento foi ainda mais claro: levantamento do Índice Webmotors apontou recuo dos preços dos veículos usados no primeiro semestre de 2026, enquanto os modelos zero quilômetro permaneceram praticamente estáveis. Não significa que o brasileiro esteja comprando carro barato, muito menos que automóveis tenham deixado de pesar no orçamento familiar.
Mas novamente o dado é incompatível com uma narrativa simplista de deterioração generalizada. Aqui existe outra ironia.
A Petrobras atravessou os primeiros anos do governo Lula com resultados bilionários. Em 2023, a companhia registrou lucro líquido de aproximadamente R$ 124,6 bilhões. Em 2024, o lucro caiu fortemente, para R$ 36,6 bilhões.
Portanto, seria incorreto dizer que a Petrobras apresentou crescimento contínuo dos lucros durante todo o governo Lula. Mas em 2025, a estatal voltou a apresentar um resultado extraordinário: R$ 110,1 bilhões, crescimento de aproximadamente 200% em relação a 2024. E o movimento continuou em 2026.
No segundo trimestre deste ano, a Petrobras registrou R$ 52,4 bilhões de lucro líquido, quase o dobro do mesmo período do ano anterior e seu terceiro maior resultado trimestral da história.
A Reuters, contudo, ressalta que esse resultado foi fortemente influenciado pela alta internacional do petróleo associada ao conflito entre Estados Unidos e Irã. Portanto, não pode ser atribuído simplesmente à política econômica do governo brasileiro. Ou seja, a realidade é mais complexa que o slogan.
É justamente aí que o patrimônio de Nikolas Ferreira ganha dimensão simbólica. Em 2022, ele declarou pouco mais de R$ 36 mil em bens. Quatro anos depois, declara R$ 3,9 milhões.
Nesse intervalo, o Brasil não virou a Venezuela anunciada nos discursos eleitorais. Ao contrário: o país registrou desemprego anual mínimo da série histórica, os preços reais dos carros novos começaram a recuar, os usados tiveram queda no primeiro semestre de 2026 e a Petrobras voltou a registrar lucro superior a R$ 100 bilhões em 2025. E Nikolas, justamente nesse Brasil que seus discursos políticos frequentemente apresentam como ameaçado pelo desastre econômico, multiplicou seu patrimônio declarado por mais de cem vezes.
Talvez seja essa a verdadeira ironia do caso. A Venezuela que era anunciada como destino do Brasil não chegou. Mas, aparentemente, o Brasil continuou sendo um lugar suficientemente bom para que um de seus mais combativos críticos acumulasse milhões. E talvez seja necessário inverter a pergunta. Não é mais apenas: “O Brasil vai virar uma Venezuela?” A pergunta agora poderia ser: “Se o Brasil virou a Venezuela que diziam que viraria, por que a vida econômica de alguns de seus mais fervorosos críticos parece contar uma história tão diferente?”
A resposta exige menos propaganda e mais números. E os números, como sempre, são menos convenientes que os discursos.
João Gilberto Guimarães Sobrinho é Cientista Social Formado pela Universidade Federal do Vale do São Francisco, produtor cultural, escritor e editor, colaborador do portal Preto No Branco.



