No dia em que celebramos a advocacia, é preciso ir além da liturgia formal e mergulhar na raiz mais profunda do termo, onde reside a verdadeira nobreza desta vocação. Do latim ad-vocatus, a palavra não designa um mero operador técnico, mas aquele que é chamado para estar junto (ad: para, junto de; vocatus: chamado). É aquele que, ao escutar o chamado do outro, rompe o isolamento e se faz presença, voz e ponte. Nessa etimologia, pulsa uma verdade revolucionária que transcende os autos e os fóruns: antes de ser um profissional do litígio, o advogado é um artesão da proximidade.
Nessa esteira, a advocacia se revela não apenas como base do Poder Judiciário e da própria ideia de justiça — o que já seria grandioso —, mas como pilar fundante da sociedade. A vida, em sua essência mais íntima, não é um contrato de partes isoladas, mas um processo colaborativo, um tecido frágil que só se sustenta pela disposição de estarmos juntos e falarmos uns pelos outros.
O Poder Judiciário, como instituição, é a cristalização estatal dessa dinâmica; o advogado, no entanto, é o seu sopro vital, o elo humano que transmuta o conflito em linguagem, a dor em direito, o grito em argumento. Sem essa figura que “está junta”, a estrutura da justiça seria um arcabouço mudo, inacessível e cego.
A advocacia é, em seu núcleo é a arte de ser chamado a colaborar com o florescimento do outro, desse modo, ela se torna, de fato, um pilar de toda a sociedade, e não um monopólio dos inscritos na Ordem dos Advogados. No sentido formal, o advogado detém a capacidade postulatória e o saber técnico, essenciais à divisão do trabalho jurídico. Mas, no sentido prático e existencial, todo mundo pode ser advogado.
A sociedade pulsa e sobrevive porque, a cada instante, alguém atende ao chamado silencioso de outra pessoa. É o pai que advoga o futuro do filho, o amigo que intercede em uma hora difícil, o vizinho que articula uma demanda comunitária, o cidadão que fala pelo vulnerável que não foi ouvido. Todo ato de falar-por e estar-com, desde que orientado à preservação e ao florescimento da vida em comum, é um ato de advocacia em seu sentido mais puro.
Celebrar o Dia do Advogado, portanto, é celebrar essa vocação humana universal de ser ad-vocatus. É homenagear aqueles que formalizaram esse chamado em profissão, dedicando-se a ser a voz técnica que impede a justiça de se tornar surda. Mas é, também, um convite para que cada pessoa reconheça em si a responsabilidade de colaborar, de ser presença, de advogar a vida. Pois uma sociedade só é justa não quando tem muitos juízes ou leis, mas quando está repleta de gente disposta a atender ao chamado do outro, construindo, juntos, o delicado e grandioso processo colaborativo de existir.
Pablo Bandeira, advogado



