Candidata, Deus não é seu cabo eleitoral e fé não é cabresto, por Sibelle Fonseca

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“Não existe uma mulher católica ou evangélica estar num partido de esquerda.”

A frase, dita por uma candidata a deputada estadual do PL/PE, em Petrolina, não é apenas uma opinião política, mas uma tentativa leviana de colocar a fé de milhões de mulheres sob tutela eleitoral. É como se ela tivesse recebido uma procuração divina para determinar que uma mulher pode ser cristã, pode frequentar uma igreja, pode seguir os princípios crísticos, mas não pode exercer sua cidadania de acordo com a própria consciência se fizer uma escolha política de esquerda.

Além de tosca, a fala é autoritária e bem aos moldes de alguns políticos da extrema direita.

Primeiro porque nenhuma pessoa é dona de Cristo. Nenhum partido é dono de Deus. Nenhuma ideologia tem escritura registrada em cartório do céu. E nenhuma candidata tem autoridade para distribuir certificado de cristianismo conforme o voto de cada mulher.

Segundo porque a tentativa de dizer que as pautas da esquerda são incompatíveis com os princípios cristãos revela, no mínimo, uma leitura extremamente seletiva e insipiente do próprio cristianismo.

Combater a fome é anticristão? Defender o meio ambiente, a ciência, a artes, a cultura, o direito a educação é anticristão? Defender políticas de inclusão social é anticristão? Lutar contra o racismo é anticristão? Defender uma mulher vítima de violências é anticristão? Combater a violência contra crianças? Defender a dignidade de pessoas em vulnerabilidade social é anticristão? Defender pessoas com deficiência, indígenas, quilombolas e outras minorias em direitos seria anticristão? Defender que uma pessoa LGBT não seja discriminada, agredida ou assassinada, é anticristão também?

Onde exatamente está a incompatibilidade com o ensinamento do Mestre Jesus?

Porque, se a régua é o amor ao próximo, a compaixão, a fraternidade, a solidariedade, a dignidade humana e a defesa dos vulneráveis, talvez seja necessário olhar para todas as pautas políticas, sobretudo aquelas defendidas por setores da direita e da extrema direita,  antes de sair distribuindo o selo de “cristão” e “anticristão”.

É cristão transformar a política de segurança em discurso de vingança? É cristão repetir “bandido bom é bandido morto”, “cancelar CPF” como se a morte fosse solução para todos os problemas sociais? É cristão defender tortura? É cristão incentivar o uso de armas e fazer o gesto bélico como identidade de campanha? É cristão tratar adversário político como inimigo a ser eliminado? É cristão defender que se “metralhe” adversários políticos? É cristão desejar violência contra quem pensa diferente? Atacar e até demonizar outras religiões, as de matrizes africanas, por exemplo, é coisa de cristão? É cristão negar a dignidade de determinadas pessoas porque elas não se enquadram nos costumes de quem está falando? É cristão defender ideias que restringem direitos das mulheres e depois posar como guardião dos “valores cristãos”?

Porque é muito fácil escolher meia dúzia de pautas morais e declarar: “isso é cristão; aquilo é de esquerda; portanto, aquilo é contra Deus”. Difícil é aplicar o mesmo rigor quando a pauta envolve pobreza, desigualdade, violência, racismo, exclusão, direitos humanos e dignidade.

E aqui está a grande contradição da tal candidata e dos seus iguais.

O cristianismo não pode ser reduzido a uma lista de costumes para controlar o comportamento alheio enquanto se esquece da compaixão, da justiça e do cuidado com quem está à margem.

Jesus não ensinou seus seguidores a odiar o diferente. Não ensinou a desumanizar o adversário. Não ensinou que algumas vidas valem mais do que outras. Não ensinou que uma mulher deveria entregar sua consciência política a um partido, líder religioso ou a uma candidata. E certamente não ensinou que o voto de uma mulher deveria vir com autorização partidária.

Mulher cristã, católica ou evangélica, não é propriedade eleitoral de ninguém.

Ela pode ser católica e ser de esquerda. Pode ser evangélica e ser de esquerda. Pode ser conservadora. Pode ser progressista. Pode votar em quem quiser.

Pode inclusive mudar de partido, discordar do próprio partido e mandar para casa qualquer político que não represente aquilo em que acredita.

Porque antes de ser eleitora de um partido, ela é cidadã.

E antes de ser instrumento eleitoral de qualquer projeto político, ela é dona da própria consciência.

O que essa fala arrogante revela não é uma defesa do cristianismo. É uma tentativa de transformar o cristianismo em território eleitoral exclusivo de uma determinada corrente política. Repito: Bem aos moldes de alguns políticos da extrema direita.

E isso é perigoso.

Porque quando alguém começa dizendo “uma mulher cristã não pode estar num partido de esquerda”, o passo seguinte é querer definir também em quem ela pode votar, o que pode defender, o que pode pensar e quais direitos pode reivindicar.

Quem autorizou essa pessoa a definir o que é uma boa cristã? Certamente, Deus está fora disso. Jesus Cristo não faz parte desta conversa.

Não.

A fé não é cabresto. A Bíblia não é programa partidário. As igrejas não são diretórios eleitorais. E Cristo não pertence ao PL, ao PT, à esquerda, à direita ou a qualquer outro partido.

Cristo pertence à fé de quem acredita nele.

E cada mulher cristã tem o direito de interpretar sua fé, exercer sua cidadania e escolher seu voto sem precisar pedir bênção a candidata alguma.

Se alguém precisa dizer que uma determinada mulher não pode ser cristã porque vota à esquerda, talvez o problema não esteja na fé dela, mas na falta de argumentos políticos para convencê-la. Quando faltam propostas concretas, compromisso com as demandas sociais e maturidade para conviver com a diversidade de pensamentos, tenta-se transformar a religião em instrumento de julgamento e exclusão.

Fé não deveria ser usada como régua para definir quem merece ou não ser chamada de cristã e política se faz com ideias, propostas e ações, não com patrulhamento da consciência alheia. Nem tentando transformar Deus em seu cabo eleitoral.

Candidata, deixa Deus em paz!

“Guarda a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada morrerão ao fio da espada.” (Mateus 26:52).

Foto internet

Por Sibelle Fonseca

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