Após ser procurada pela reportagem do Portal Preto no Branco para informar se teria interesse em se manifestar sobre sua autodeclaração racial registrada junto à Justiça Eleitoral, a jornalista e candidata a deputada estadual por Pernambuco, Lara Cavalcanti (PL), desqualificou o trabalho dos profissionais do veículo em áudios enviados à redação.
O episódio ocorreu após o vereador de Petrolina e também candidato a deputado estadual Gilmar Santos (PT) questionar publicamente a autodeclaração racial de Lara Cavalcanti, registrada na Justiça Eleitoral como parda, categoria que, ao lado da população preta, integra oficialmente a população negra brasileira, segundo a classificação de cor ou raça utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), conforme também destacado pelo parlamentar em release encaminhado à imprensa regional.
Diante da repercussão do questionamento, a reportagem do PNB cumpriu uma de suas funções elementares: procurou a candidata para ouvi-la, apresentar seu posicionamento e esclarecer, à luz das regras eleitorais, quais são os efeitos da autodeclaração racial no processo eleitoral.
Lara Cavalcanti informou que não se manifestaria sobre o assunto. Até aí, tratava-se de uma decisão legítima da candidata. O que causa estranheza e merece o repúdio do Portal Preto no Branco é que, em vez de simplesmente exercer seu direito de não responder, a candidata tenha optado por desqualificar o trabalho jornalístico, utilizando expressões como “baixo” e “sem responsabilidade” para se referir ao conteúdo e à atuação dos profissionais do veículo.
Mais grave ainda foi a ameaça de recorrer judicialmente contra o portal. Trata-se de uma reação que demonstra, no mínimo, uma preocupante incompreensão sobre o papel da imprensa em uma sociedade democrática, especialmente quando parte de alguém que também exerce a profissão de jornalista.
A imprensa não precisa da autorização de candidatos, partidos ou agentes públicos para investigar, apurar, questionar e publicar informações de interesse público. Esse é justamente o seu papel. Ouvir os envolvidos, confrontar versões, buscar esclarecimentos e dar espaço ao contraditório não constitui perseguição, tampouco significa desqualificação pessoal. É jornalismo!
Questionar uma informação registrada oficialmente perante a Justiça Eleitoral e buscar esclarecimentos junto à própria candidata não é um ato de irresponsabilidade. Ao contrário, é uma demonstração de responsabilidade jornalística.

O Portal Preto no Branco também repudia a tentativa de associar seu trabalho a interesses financeiros ou político-partidários. Em comentário publicado nas redes sociais, Lara Cavalcanti afirmou: “blog pagou, postou, não é blog de responsabilidade”, referindo-se ao Portal Preto no Branco.
Posicionamento
Diante dessas declarações, o PNB esclarece de forma categórica que não recebe qualquer pagamento para publicar releases de candidatos ou partidos.
Nas eleições de 2026, assim como em pleitos anteriores, o portal tem publicado conteúdos encaminhados por diferentes candidaturas de Juazeiro e Petrolina, independentemente de partido ou ideologia. Dar espaço a uma candidatura não significa apoiá-la e, da mesma forma, questionar um candidato não significa persegui-lo. Essa é uma distinção básica que qualquer veículo de imprensa comprometido com o jornalismo profissional precisa preservar.
Um exemplo disso foi a publicação, no último dia 17 de agosto, de matéria sobre a inauguração do comitê de campanha em Petrolina dos candidatos Carlos Brito e Lara Cavalcanti, evento que contou com a presença de Mendonça Filho.
O Portal Preto no Branco não abrirá mão de seu compromisso com sua identidade e independência editorial, com a apuração dos fatos e com a publicação de informações de interesse público. Também continuará garantindo espaço para o contraditório e para a manifestação dos personagens envolvidos nas notícias.
O PNB respeita o direito de qualquer pessoa discordar de uma reportagem, contestar seu conteúdo ou solicitar esclarecimentos. O que não pode ser naturalizado é a tentativa de desqualificar profissionais, lançar suspeitas sobre a credibilidade de um veículo sem apresentar qualquer prova e utilizar a ameaça de judicialização como instrumento de intimidação diante do exercício regular da atividade jornalística.
A imprensa pode ser criticada. Deve ser criticada quando necessário. Mas não pode ser intimidada por cumprir sua função.
Posicionamento de Lara Cavalcanti nas redes sociais
Em vídeo publicado nas redes sociais após a repercussão das críticas feitas pelo vereador, a candidata defendeu a legitimidade de sua declaração e destacou que branca, preta, parda, amarela e indígena são categorias distintas utilizadas nas estatísticas oficiais de cor ou raça.
“Não há absolutamente nada de estranho, irregular ou extraordinário em uma brasileira se declarar parda. Essa é a minha autodeclaração, feita de forma legítima, consciente e honesta. O que eu considero grave é alguém, por conveniência política, pegar uma informação oficial e tentar distorcê-la para construir uma narrativa contra mim. Isso não é debate político. Isso é tentativa de desqualificação pessoal e, principalmente, violência política de gênero”, declarou.
O que diz o Estatuto da Igualdade Racial
Ouvido pelo PNB, o advogado Dr. João Macário explicou que o Estatuto da Igualdade Racial estabelece que população negra é o conjunto de pessoas que se autodeclaram pretas e pardas, conforme o quesito de cor ou raça utilizado pelo IBGE.
O advogado também destacou que “a criação de mecanismos específicos para ampliar o financiamento e a presença de candidaturas negras é resultado de uma construção histórica do movimento negro brasileiro, que há décadas denuncia a desigualdade racial nos espaços de poder. Uma das protagonistas dessa luta institucional foi a deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), cuja trajetória também está ligada à defesa da participação da população negra na política”.
Macário esclareceu ainda que existem mecanismos de fiscalização quando há alteração ou questionamento da autodeclaração.
“A autodeclaração, porém, não é absoluta nem significa que basta alguém se declarar pardo para ter acesso, sem qualquer controle, às políticas afirmativas destinadas à população negra. A própria existência das bancas de heteroidentificação demonstra isso. Quando uma pessoa que não é socialmente reconhecida como preta ou parda utiliza apenas a autodeclaração para buscar benefícios de uma política afirmativa destinada à população negra, há um desvirtuamento da finalidade dessa política.”
Por fim, o advogado ressaltou “a importância do letramento racial para que o debate seja conduzido com responsabilidade, reconhecendo tanto a importância das políticas de ação afirmativa quanto o direito à autodeclaração e os mecanismos existentes para evitar o desvirtuamento dessas políticas”.
Caso ACM Neto
A discussão sobre a autodeclaração racial de candidatos ganhou grande repercussão nacional nas eleições de 2022, quando o então candidato ao Governo da Bahia, ACM Neto, declarou-se pardo.
A declaração foi alvo de questionamentos durante aquela eleição. Em 2026, ACM Neto voltou a declarar sua raça à Justiça Eleitoral, desta vez como branco, após a repercussão do episódio anterior. O político afirmou que a mudança ocorreu a partir de um processo de aprendizado, ou seja, de letramento racial.
O caso passou a ser citado como exemplo da dimensão política que a autodeclaração racial adquiriu nas eleições brasileiras, especialmente depois que as regras passaram a vincular a informação à distribuição proporcional de recursos públicos e de tempo de propaganda para candidaturas negras.
ACM Neto aprendeu. Lara Cavalcanti ainda precisa aprender. Inclusive, precisa revisitar os princípios jornalísticos, a humildade para reconhecer equívocos, e a urbanidade no tratamento com os colegas de profissão.
Redação PNB



