Durante os últimos anos, as apostas online chegaram aos celulares dos brasileiros como uma promessa de dinheiro fácil. Para muita gente, começaram como uma brincadeira, uma aposta pequena, um palpite durante uma partida de futebol. Para outras, terminaram em dívidas, conflitos familiares, sofrimento psicológico e até em pensamentos de morte e mortes .
Agora, uma mudança reacende a esperança de famílias que enfrentaram esse problema dentro de casa. Na sexta-feira (25), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva editou uma Medida Provisória que determina o fim da exploração, oferta, intermediação e publicidade das apostas de quota fixa, as chamadas bets, no Brasil. A medida alcança tanto as apostas esportivas quanto os jogos online, em ambientes físicos e virtuais.
Para uma leitora do PNB, mãe que acompanhou de perto os efeitos da dependência em sua própria família, a notícia tem um significado que vai muito além da economia.
“Eu mesma sofri com esse tipo de aposta dentro da minha casa. Minha filha quase tirou a própria vida por conta desse jogo.”
O depoimento dela revela que as bets tornaram-se um problema que não fica restrito ao bolso de quem aposta, mas atinge toda a família, desestrutura e causa sofrimentos.
Segundo a leitora, a filha começou apostando no chamado Jogo do Tigrinho como uma brincadeira. Aos poucos, porém, perdeu o controle. Chegou ao ponto de comprometer todo o salário mensal com as apostas, enquanto as contas e compromissos continuavam esperando.
“Ela começou numa brincadeira, dizendo que não tinha nada a ver, que era só uma brincadeira. Quando pensou que não, ela estava viciada”, relata.
A situação provocou um enorme prejuízo financeiro e, principalmente, um sofrimento emocional que marcou toda a família.
“Afetou o psicológico dela, afetou o meu como mãe. Eu sofri muito”, conta.
O relato desta mãe reforça os alertas do Ministério da Saúde, que reconhece a “ludopatia”, como um transtorno de comportamento e que tem consequências como ansiedade, depressão, culpa, isolamento, conflitos familiares e comprometimento do orçamento doméstico.
Em julho deste ano, o Ministério da Saúde lançou uma campanha nacional de prevenção aos danos das apostas online, destacando que o uso problemático pode afetar a saúde mental, a situação financeira, a rotina e os relacionamentos familiares.
O problema também ganhou dimensão econômica. Segundo estudo do Banco Central, entre janeiro e agosto de 2024, as empresas de apostas receberam, em média, R$ 20,8 bilhões por mês de aproximadamente 24 milhões de pessoas.
Histórico
A história das bets no país ganhou um marco em 2018, quando a Lei 13.756 legalizou as apostas de quota fixa relacionadas a eventos esportivos. A legislação, entretanto, ainda dependia de regulamentação, mas o Governo Bolsonaro se omitiu e o problema se alastrou.
Em 2023, a Lei 14.790 ampliou o modelo e incluiu também os chamados jogos online entre as apostas de quota fixa. Já em 2024, o Governo Lula criou a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda e publicou uma série de regras para regulamentar o mercado, incluindo mecanismos de fiscalização, publicidade, pagamentos e jogo responsável.
A partir de 1º de janeiro de 2025, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas passaram a poder operar nacionalmente. Os sites autorizados utilizam o domínio “.bet.br”.
Até então, portanto, a política adotada pelo país era de regulamentação e fiscalização do setor. A medida provisória assinada agora muda radicalmente esse cenário ao determinar o encerramento das atividades.
Tigrinho e outros jogos
O caso relatado pela ouvinte também chama atenção para uma diferença importante: bets não significam apenas apostas em futebol.
Os chamados jogos online, como os populares “jogos de cassino”, também foram incluídos na regulamentação de 2023. O Ministério da Fazenda estabeleceu que esses jogos precisavam passar por certificação para serem considerados legais.
É justamente nesse universo que surgiram fenômenos como o Jogo do Tigrinho, que passaram a fazer parte do cotidiano de milhões de brasileiros, causando um impacto que não aparece na tela do celular.
Por trás de cada aposta perdida, pode existir uma dívida escondida, uma conta que deixou de ser paga, uma discussão familiar ou alguém tentando recuperar o dinheiro perdido apostando novamente. De fato, um “jogo de azar”, que funciona no ciclo da perda. Ou seja, perde-se dinheiro, aposta-se novamente para tentar recuperar, perde-se mais e o problema cresce.
O Ministério da Saúde alerta para sinais como dificuldade de parar de apostar, aumento dos valores gastos, alterações no sono e no humor, mentiras para familiares e comprometimento do orçamento. Os jogadores sofrem em silêncio e são tomados pela vergonha e desespero.
“Ela ficou sem pagar os compromissos e bateu o desespero de querer tirar sua própria vida. Ela não admitia que estava dependente do jogo, que estava perdendo dinheiro com o jogo. As pessoas viciadas no jogo se sentem vergonhadas dentro de casa, dentro da comunidade”.
Depois de viver o medo de perder a filha, a leitora diz que hoje não consegue sequer ouvir falar em apostas sem lembrar do sofrimento vivido: “Eu não quero falar em jogo nenhum. Hoje eu fiquei traumatizada. Graças a Deus, minha filha conseguiu se libertar desse maldito jogo. Negócio de bets, de aposta, eu reflito o que aconteceu dentro da minha casa e sou totalmente contra”.
É justamente essa possibilidade de recomeço que faz com que famílias que passaram por situações semelhantes recebam a notícia do fim das bets com alívio. Para essas famílias, não se trata apenas de dinheiro, mas de recuperar a tranquilidade dentro de casa, proteger os filhos e impedir que aquilo que começou como uma brincadeira termine em tragédia.
A decisão do governo ocorre justamente quando o próprio Estado passou a reconhecer os danos das apostas como uma questão de saúde pública. Em 2026, o SUS ampliou o atendimento em saúde mental para pessoas com problemas relacionados a jogos e apostas e também para seus familiares.
“Antes tarde do que nunca. Independente de partido político, a decisão do governo acertou muito em proibir esses jogos de aposta que não têm nada de diversão, pois controla a vida de uma pessoa e adoece uma família inteira. Só não reconhece a importância desta medida que nunca viveu esse drama. Eu e minha família vivemos e, graças a Deus, minha filha saiu disso a tempo”, concluiu a mãe.
A MP foi editada em 25 de setembro de 2026 e, por se tratar de medida provisória, deverá tramitar no Congresso Nacional.
Redação PNB



