Tem eleitor que entra na urna como quem entra numa sorveteria. Escolhe um pouco de cada sabor, mistura tudo e sai achando que fez uma grande combinação. Na política, essa mistura pode ter outro efeito e dar uma dor de barriga danada, com efeitos que amargam por anos.
É o que eu chamo de “voto salada de fruta”.
Claro que é legítimo que todo eleitor vote em quem quiser. Até em Tiririca e no Caneta Azul. Esse direito é inegociável. O eleitor pode, sim, votar em candidatos de partidos diferentes. A legislação não exige fidelidade ideológica entre os votos.
A discussão que proponho é outra: o que esse voto revela sobre a compreensão que temos dos projetos políticos que estamos colocando juntos dentro da mesma urna?
Porque política não é apenas escolher nomes por simpatia, conveniência ou interesse particular. Política é escolher projetos.
É escolher uma determinada visão de Estado, de economia, de políticas sociais, de saúde, de educação, de segurança pública, de desenvolvimento regional e de distribuição de recursos públicos.
Neste sentido, pergunto: Como juntar, sem nenhuma reflexão, candidatos que defendem projetos de sociedade completamente diferentes?
Jogar na urna um candidato que defende a ampliação de políticas sociais, o fortalecimento do papel do Estado e a continuidade de programas públicos, e outro que critica veementemente essas políticas, outra concepção de Estado e pertence a um campo ideológico diferente, demonstra, no mínimo, total despolitização.
É preciso compreender o que se está fazendo.
O voto não deveria ser uma salada de frutas montada pela conveniência eleitoral do momento.
A Bahia oferece um exemplo muito concreto dessa discussão.
O movimento chamado “LuNeto” ganhou visibilidade justamente pela combinação entre o voto em Lula e em ACM Neto. Reportagens registram que essa combinação vem sendo estimulada por apoiadores e circula nas redes sociais. Ao mesmo tempo, ACM Neto afirma que não incentiva esse voto casado e, publicamente, diz que apoia a Ronaldo Caiado na disputa presidencial. No entanto, nos bastidores e caminhadas, há quem diga que a campanha do candidato está “deixando seu eleitor livre”.
Para mim, liberdade é irmã de coerência. Portanto, há de se questionar se o eleitor conhece suficientemente os projetos que está colocando lado a lado.
Porque, se a política vira apenas uma coleção de nomes simpáticos, conhecidos ou eleitoralmente convenientes, perde-se aquilo que deveria ser o centro de uma eleição: a escolha sobre o futuro da sociedade.
E Juazeiro entra nessa conta. Aqui, no interior da Bahia, essa discussão deixa de ser abstrata.
Juazeiro tem hoje uma série de investimentos realizados ou articulados por meio de parcerias entre município, Estado e União. Há obras em andamento, projetos em contratação e novos investimentos anunciados. Também existem projetos de infraestrutura e drenagem articulados com recursos federais e municipais, como a segunda etapa da Travessia Urbana, anunciada em setembro com investimento superior a R$ 187 milhões.
Tudo isso nos leva a uma pergunta que precisa ser feita ao eleitor, seja ele de esquerda, de direita ou de qualquer outro campo: Qual é o projeto de Estado que cada candidato representa?
Porque obra pública não deveria ser tratada como patrimônio de um partido. Se uma obra foi contratada regularmente, financiada e iniciada, ela deve ser concluída. Ponto.
Mas também é legítimo perguntar aos candidatos: quais obras e políticas terão continuidade? Quais serão revistas? Quais serão ampliadas? Quais serão abandonadas? E por quê?
É aí que entra a responsabilidade do eleitor.
Não basta perguntar quem é mais carismático. Quem tem a família mais tradicional na política. Quem aparece melhor nas redes sociais. Quem promete mais.
É preciso perguntar: esse candidato defende o quê? quem?
E, principalmente: os candidatos em quem estou votando defendem, de fato, o mesmo projeto de sociedade?
A política brasileira já nos mostrou inúmeras vezes que alianças eleitorais podem juntar, no mesmo palanque, pessoas que pensam muito diferente. Mas o eleitor não deveria fazer isso de forma automática, pois voto livre é voto consciente.
Se alguém decide votar em Lula para presidente e ACM Neto para governador, esse eleitor tem todo o direito de fazê-lo. Mas deveria saber que está escolhendo projetos políticos diferentes e estar preparado para explicar, para si mesmo, por que acredita que essa combinação atende melhor aos seus interesses e aos interesses da sociedade.
Da mesma forma, quem votar em Lula e Jerônimo precisa saber quais são as propostas, os compromissos e as diferenças entre os projetos apresentados.
Isso é politização. É consciência eleitoral.
O que não podemos é transformar a urna numa fruteira onde cabe tudo. Joga-se nela um candidato daqui, outro dali, uma ideologia de um lado, outra do outro, uma promessa vazia de um grupo e, no final, esperar que tudo isso produza uma política pública coerente.
Pode até parecer uma salada bonita. Mas, dependendo dos ingredientes, o resultado pode ser uma tremenda dor de barriga política.
Eleição é coisa séria e tem efeitos, muitas vezes nefastos, para toda uma coletividade.
Dito isso, apresso-me a responder os frequentes ataques ao meu posicionamento político e social, reportando-me a Paulo Freire que cravou: “Não existe imparcialidade. Todos são orientados por uma base ideológica. A questão é: sua base ideológica é inclusiva ou excludente?”
A minha base é clara, assumida e consciente. O que difere de manipulação. A despeito de ataques, críticas e julgamentos, manifesto o meu compromisso com um projeto de sociedade que garanta direitos e oportunidades para todas as pessoas, que acolha os mais vulneráveis, que promova a justiça social e a dignidade humana.
Por Sibelle Fonseca



