Aristóteles apregoava que a política é “a ciência soberana e, mais do que todas, a ciência arquitetônica”, estabelece a finalidade de todas as outras ciências e desenha o edifício social. Quando a política abdica dessa função arquitetônica, deixa de ordenar fins, para focar em micropautas do cotidiano, passa a labutar contra o povo. É nesse vazio que se compreende a ascensão da nova direita ao poder federal no Brasil: menos a vitória de um projeto de nação do que a consagração da blogueirização da política.
A blogueirização converteu o espaço público em plataforma de engajamento. O corte viral, o meme e a provocação substituíram o programa, o plano e a proposta. A política tornou-se conteúdo, vale mais o que circula do que o que se constrói. Nessa gramática, o adversário não é interlocutor, mas personagem a ser ridicularizado; o debate não busca verdade, foca apenas no alcance.
Nessa esteira, o fenômeno da blogueirização é, assim, o símbolo maior do esvaziamento de ideias que vigora na política. Esta passou a ser habitada por uma maioria extremamente desqualificada, incapaz de formular, confrontar e sustentar projetos à altura do país. Não há mais debate de ideias relevantes: há performance, palanque digital e disputa de métricas. A ausência de substância não é acidente, mas um método cruel, que revela uma classe política que trocou a arte de governar pela ânsia de aparecer.
A supracitada nova direita que chegou ao Planalto revelou o fundo do poço que vive a nossa cultura política. Não houve apresentação de projeto relevante para o país; sustentou-se na guerra cultural, no ressentimento e na desinformação. Seus memes mobilizam hostilidade, vitimismo, revisionismo e urgência — não convencem pela razão, mas excitam paixões. As fake news, por sua vez, corroeram a própria noção de fato em si.
Assim, a política virou frivolidade permanente, meme, corte, boato e culto à viralização.
Esse modus de fazer política é fruto de uma elite fracassada intelectual e culturalmente, que se alimenta da miséria do povo.
O desafio que urge é restaurar a política como ciência arquitetônica: capaz de subordinar interesses à finalidade comum e de dar sentido às demais ciências. Sem isso, continuaremos presos ao espetáculo das frivolidades, enquanto o edifício social segue sem projeto, sem planta e sem rumo.
Pablo Bandeira, juazeirense, Advogado, formado em Direito pela FACAPE, com atuação em Direito Penal e Cível, produtor de textos sobre filosofia e ciência política



