“Qual a proposta para o Brasil?: O anti-Lula e o perigo de votar contra, sem saber exatamente a favor de quê”, por Sibelle Fonseca

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A Pesquisa Datafolha, divulgada na última quinta-feira (8), mostra que 25% dos eleitores de Flávio Bolsonaro (PL) escolhem o candidato por quererem derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo o levantamento, entre os eleitores de Lula, esse percentual é de 13% quando a motivação declarada é derrotar o adversário.

Esse dado revela que parte do eleitorado de Flávio Bolsonaro vota movida pelo desejo de derrotar Lula. Mas o que existe, afinal, por trás dessa rejeição? E quais são os riscos de uma escolha política baseada mais no ódio ao adversário do que na avaliação de propostas, trajetórias e responsabilidades?

A política deveria ser o espaço do debate de ideias, da comparação entre projetos e da escolha consciente dos caminhos que uma sociedade deseja seguir. Quando uma parcela do eleitorado transforma a rejeição a um candidato em sua principal motivação para votar no outro, o país corre o risco de ficar em segundo plano.

Ser contra Lula é um direito democrático. Criticar o presidente, rejeitar suas políticas e desejar outra alternativa fazem parte da liberdade de escolha. O problema começa quando a antipatia por uma liderança se transforma em justificativa suficiente para apoiar qualquer alternativa, independentemente de sua experiência, de suas propostas ou de suas consequências para a população.

O chamado antipetismo ou sentimento anti-Lula é perigoso para a sociedade e deve ser analisado sob a luz da consciência.

Imagine uma pessoa que está preocupada com o preço dos alimentos, o valor do aluguel, a qualidade da saúde pública, o acesso a educação de qualidade, a segurança do bairro e as oportunidades de emprego para os filhos. São questões concretas, que interferem diretamente na vida cotidiana. Não seria fundamental perguntar a qualquer candidato: o que você pretende fazer? Como vai fazer? De onde virá o dinheiro? Quem será beneficiado? Quais serão as consequências das suas decisões?

Quando a prioridade do eleitor passa a ser simplesmente impedir que Lula vença nada disso é levado em conta.

O voto deste eleitor acaba escolhendo não o projeto que melhor responde às suas necessidades e as do país, mas aquele que considera mais útil para derrotar alguém de quem não gosta.

Não há a menor responsabilidade neste voto motivado pelo ódio e não pela identificação com propostas concretas.

O candidato que se opõe ao “odiado” por alguns precisa apenas gritar palavras de efeito e  alimentar o ressentimento contra o adversário.

Lula tem uma trajetória política de décadas, marcada por experiências de governo, programas sociais, decisões econômicas, conquistas reconhecidas por seus apoiadores e críticas importantes feitas por seus adversários. Sua história pode e deve ser examinada com rigor, sem idealizações e sem a tentativa de colocá-lo acima de questionamentos.

É legítimo cobrar explicações sobre a economia, a gestão pública, os compromissos assumidos e os resultados entregues. Nenhum governante deve receber um cheque em branco sem ser acompanhado pelo seus fiadores.

Avaliar Lula exige considerar o conjunto de sua trajetória, suas decisões, os efeitos de suas políticas e os interesses que elas atendem. Reduzir toda essa história a uma rejeição pessoal não ajuda a tomar uma decisão mais consciente, pois o ódio é um péssimo conselheiro. O ódio é burro.

Do outro lado, Flávio Bolsonaro também precisa ser submetido ao mesmo rigor. Ser filho de Jair Bolsonaro, atacar Lula, repetir jargões e até fake news contra o adversário, não  constitui um programa de governo.

É preciso perguntar quais são suas propostas para o emprego, a renda, a educação, a saúde, a segurança pública, o Meio Ambiente e a redução das desigualdades. É necessário avaliar sua experiência política, suas posições, suas alianças e sua capacidade de governar.

Um eleitor consciente deve examinar os questionamentos judiciais e as acusações que envolvem sua trajetória. Flávio Bolsonaro está no centro de investigações e denúncias que vão desde o seu envolvimento com milícias à sua “amizade” com o ex-banqueiro preso Vorcaro. Acusações que devem ser esclarecidas, com base em provas, e muito bem avaliadas pelo eleitor.

Se o eleitor cobra transparência, responsabilidade e coerência de Lula, precisa cobrar o mesmo de Flávio Bolsonaro. Se exige propostas de um, precisa exigi-las do outro.

Quando o adversário é apresentado como um inimigo a ser eliminado, e não como alguém cujas ideias precisam ser confrontadas, o debate público perde qualidade. Informações inconvenientes são descartadas, erros dos aliados são normalizados e denúncias passam a ser julgadas de acordo com a conveniência política.

Um escândalo envolvendo o adversário pode ser considerado imperdoável, enquanto um episódio grave envolvendo o candidato preferido é tratado como irrelevante, exagerado ou inventado.

Nesse ambiente, a política deixa de ser uma disputa entre projetos e se transforma em uma guerra de identidades. E, quando isso acontece, quem perde não é apenas um candidato. Perde a sociedade, que passa a discutir menos os problemas reais e mais a necessidade de derrotar o outro.

Uma democracia não se resume ao ato de votar. Ela depende de eleitores capazes de avaliar informações, cobrar compromissos, reconhecer erros e exigir responsabilidade de quem ocupa o poder.

Quando a rejeição se torna o principal motor de uma escolha eleitoral, abre-se espaço para que os eleitores escolham qualquer coisa. Esse é um terreno muito perigoso.

A democracia corre riscos quando o fanatismo político se torna maior do que o compromisso com os fatos. Quando a defesa de um candidato importa mais do que a defesa de princípios e quando propostas deixam de ser cobradas porque o objetivo passa a ser derrotar o outro lado.

Assim se elege para representar a sociedade figuras que precisam apenas alimentar o medo e a raiva ao adversário.

E o que acontece no dia seguinte à eleição? O preço dos alimentos não desaparece. A fila por atendimento médico não diminui, o salário não aumenta, a criminalidade não é contida e o que já não era tão bom, pode ficar ainda pior. O risco de desmonte do que já foi conquistado, direitos históricos ameaçados e a democracia em risco são perigos iminentes.

Convicção é importante, mas não deve ser confundida com certeza absoluta. A maturidade democrática também exige disposição para ouvir, comparar, reconhecer contradições e mudar de posição quando os fatos justificam essa mudança.

Antes de votar, os cidadãos e cidadãs devem refletir: “Quem eu quero que governe, com quais propostas e sob quais compromissos?” e jamais: “A quem eu quero derrotar?”.

Que interesses esse candidato representa? Quais medidas pretende adotar? Como suas decisões podem afetar minha família, meus direitos, meu trabalho e o futuro das próximas gerações? Que trajetória sustenta suas promessas? O que dizem os fatos, para além dos discursos de campanha?

Essas perguntas precisam ser feitas a Lula e a Flávio Bolsonaro. Porque o voto não deveria ser um instrumento de vingança política.

No fim das contas, derrotar Lula não é, por si só, um projeto de Brasil.

A democracia precisa de mais do que rejeição. Precisa de propostas, compromisso com a verdade, responsabilidade pública e eleitores dispostos a olhar para além das paixões eleitorais.

Fora disso, corre-se o risco de escolher um caminho sem saber exatamente aonde ele vai levar.

Por Sibelle Fonseca

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