“Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho” (Paulo Freire, A educação na cidade)
15 de Outubro, Dia do Professor, uma das profissões mais importantes para qualquer sociedade que pretenda ser livre, justa e verdadeiramente democrática.
Ser professor nunca foi, e nunca será, apenas transmitir conteúdos, explicar fórmulas matemáticas, ensinar regras gramaticais, apresentar fatos históricos ou preparar estudantes para uma prova. Tudo isso é importante, evidentemente. Mas a missão de um educador vai muito além daquilo que está escrito nos livros e nos programas escolares.
Educar é formar pessoas. É ajudar a construir cidadãos e cidadãs capazes de compreender a realidade em que vivem, de reconhecer as desigualdades que afetam a sociedade, de entender como os direitos foram conquistados e de perceber que nenhum direito caiu do céu. Houve luta, organização, mobilização e muita gente que pagou um preço alto para que hoje tivéssemos acesso à educação, à saúde, ao voto, à liberdade de expressão e a tantos outros direitos fundamentais.
Educar é ensinar que a história não é feita apenas por reis, presidentes, marechais, generais e homens poderosos. A história também é feita por trabalhadores, mulheres, negros, indígenas, estudantes, camponeses e por tantas pessoas comuns que, juntas, transformaram e continuam transformando o mundo.
E é por isso que a educação incomoda quando cumpre verdadeiramente o seu papel. Porque uma pessoa que aprende a pensar por conta própria se torna menos vulnerável à manipulação. Uma pessoa que conhece seus direitos tem mais condições de lutar por eles. Uma pessoa que compreende as relações de poder pode começar a questionar por que alguns têm tanto enquanto tantos outros precisam lutar diariamente pelo mínimo necessário para viver com dignidade.
Paulo Freire, um dos maiores educadores brasileiros, compreendeu profundamente essa dimensão da educação. Para ele, ensinar não era depositar informações na cabeça dos estudantes, como se fossem frascos vazios. Era construir conhecimento, despertar a curiosidade, estimular a reflexão e ajudar as pessoas a lerem criticamente a realidade.
Freire nos ensinou que aprender a ler o mundo é tão importante quanto aprender a ler as palavras. E essa é uma das grandes tarefas do professor: ajudar o estudante a perceber que, por trás de cada palavra, de cada produto, de cada notícia e de cada acontecimento, existem histórias, relações humanas, interesses, direitos e responsabilidades.
Não basta, portanto, saber ler a palavra. É preciso compreender a realidade que ela representa.
Nos últimos anos, assistimos a tantas tentativas de desqualificar, intimidar e demonizar os professores.
Transformaram educadores em suspeitos. Acusaram professores de doutrinação simplesmente porque discutiam política, desigualdade social, questões de gênero, racismo, direitos humanos, democracia e cidadania. Como se fosse possível ensinar história sem falar de conflitos, ensinar sociologia sem discutir a sociedade ou ensinar cidadania sem falar de direitos e deveres.
Criou-se, em determinados setores, a ideia de que o professor deveria entrar na sala de aula, despejar informações, exigir silêncio e sair sem provocar nenhuma reflexão. Um profissional autorizado apenas a ensinar fórmulas, mas não a estimular perguntas. Autorizado apenas a transmitir conteúdos, mas não a ajudar os estudantes a compreenderem criticamente o mundo.
A quem interessa uma educação que não questiona? A quem interessa uma juventude que conhece as respostas de uma prova, mas não sabe reconhecer uma injustiça? A quem interessa uma população que sabe repetir palavras, mas não compreende os mecanismos que produzem a pobreza, a exploração e a desigualdade?
Se chamam de doutrinação o esforço para formar cidadãos conscientes, que conheçam seus direitos, respeitem as diferenças, compreendam a democracia e não aceitem a injustiça como se ela fosse natural, precisamos discutir o que realmente significa educar.
Um bom professor precisa oferecer conhecimento, apresentar diferentes perspectivas, estimular o pensamento crítico para que cada estudante desenvolva sua capacidade de julgar, argumentar e escolher.
E, neste Dia do Professor, precisamos falar também de valorização.
Não existe discurso bonito sobre o futuro sem compromisso concreto com quem educa as novas gerações. Não basta homenagear professores com flores, mensagens nas redes sociais e palavras emocionadas uma vez por ano. É preciso garantir salários dignos, formação continuada, condições adequadas de trabalho, escolas estruturadas, segurança, respeito profissional e tempo para preparar aulas.
É preciso compreender o desgaste de quem enfrenta salas lotadas, jornadas exaustivas, falta de recursos e, muitas vezes, a incompreensão das próprias famílias e da sociedade.
O professor não pode ser responsabilizado sozinho por todos os problemas da educação. A escola precisa de investimento, políticas públicas, estrutura e participação das famílias. E o educador precisa ser tratado como profissional essencial, não como alguém que deve fazer milagres apesar do abandono.
Porque é muito fácil cobrar resultados de um professor sem perguntar quais condições foram oferecidas para que ele pudesse trabalhar.
É muito fácil exigir que ele transforme vidas enquanto se nega a reconhecer o valor do seu trabalho.
Estudantes, respeitem seus professores!
Respeitar não significa concordar com tudo o que eles dizem, nem abandonar o direito de fazer perguntas. Pelo contrário. Perguntar, argumentar e até discordar com respeito também são formas de aprender.
Aproveitem os conhecimentos que eles compartilham. Valorizem o tempo, a dedicação e o esforço de quem prepara uma aula, pesquisa, estuda e tenta encontrar maneiras de fazer vocês compreenderem aquilo que ainda parece difícil.
Certamente hoje vocês não consigam perceber a dimensão de tudo o que estão aprendendo. Algumas aulas podem parecer distantes da vida real, mas, lá na frente, tudo apreendido poderá fazer sentido.
Um professor pode ensinar uma palavra. Pode apresentar uma ideia. Pode despertar uma dúvida. E, às vezes, uma única dúvida é capaz de mudar o rumo de uma vida.
Não desperdicem essa oportunidade.
Aos professores, deixo o reconhecimento de quem compreende que ensinar é muito mais do que cumprir uma carga horária. É exercer uma responsabilidade social imensa, mesmo quando o reconhecimento não chega na mesma proporção do esforço.
Vocês ajudam a formar médicos, agricultores, jornalistas, cientistas, artistas, trabalhadores, lideranças comunitárias e também os cidadãos que vão decidir os rumos da nossa democracia.
Mas, acima de tudo, vocês ajudam a formar seres humanos capazes de conviver com as diferenças, de reconhecer a dignidade do outro e de compreender que a vida em sociedade exige compromisso coletivo.
Por isso, neste Dia do Professor, não quero apenas desejar parabéns. Quero defender respeito, a valorização. Quero defender uma educação pública de qualidade. Quero defender a liberdade de ensinar e de aprender. E quero defender o direito de cada estudante a receber uma educação que não o condene a aceitar o mundo exatamente como ele é, mas que lhe ofereça instrumentos para compreender o mundo e participar da sua transformação.
Porque educar também é mostrar que a realidade não é imutável. Que a pobreza não é destino. Que a desigualdade não é uma lei da natureza. Que o preconceito não é uma opinião inocente. E que os direitos que temos hoje precisam ser conhecidos, protegidos e ampliados pelas próximas gerações.
Uma sociedade que desvaloriza seus professores enfraquece o próprio futuro. Uma sociedade que intimida seus educadores corre o risco de transformar a ignorância em instrumento de poder. E uma sociedade que impede seus jovens de pensar livremente abre mão de uma das suas maiores possibilidades de transformação.
Que nunca faltem professores dispostos a ensinar, estudantes dispostos a aprender e governos dispostos a reconhecer que a educação não é uma despesa a ser suportada, mas um investimento indispensável na construção de um país mais justo.
Que a escola seja um lugar onde se aprende a ler as palavras, mas também a interpretar o mundo. Onde se aprende matemática, português, ciências e história, mas também a exercer a solidariedade, a liberdade, a responsabilidade e a cidadania.
E que nenhum professor precise sentir medo de cumprir sua missão.
Porque ensinar não é apenas preparar alguém para conseguir um emprego ou passar em uma prova. É também ajudar a preparar alguém para viver com dignidade, reconhecer injustiças, defender direitos e assumir a responsabilidade de construir um mundo melhor.
Feliz Dia do Professor!
Por Sibelle Fonseca



