Estamos vivenciando um cenário particularmente desafiador. A falta de água nas torneiras e o esgoto estourado nas ruas de Petrolina e de todo Pernambuco não são apenas transtornos. São um atentado à saúde do povo.
A Compesa, em sua nota, reconhece a legítima preocupação das comunidades diante das falhas no abastecimento de água e das ocorrências de obstrução na rede de esgotamento sanitário. Reconhece também que não consegue mais atender no prazo.
Mas a explicação dada pela própria Companhia revela a verdadeira causa do problema: a privatização parcial.
A nota diz com todas as letras: por causa da privatização parcial, a Compesa já enfrenta uma significativa redução de seu quadro técnico e operacional, além da diminuição da disponibilidade de insumos, ferramentas, equipamentos e demais recursos necessários à execução dos serviços.
Traduzindo para o povo entender: mandaram os trabalhadores embora, tiraram as ferramentas, esvaziaram a empresa por dentro, e agora dizem que não conseguem atender o povo.
Isso não é acidente. Isso é projeto.
Primeiro, sucateiam a empresa pública. Depois, dizem que a empresa pública não funciona. Depois, entregam para a iniciativa privada. É o mesmo roteiro que tentaram fazer com o SUS, com a Petrobras, com os Correios, com tudo que é do povo.
E quem paga a conta? É o povo que fica sem água. É a mãe que não consegue dar banho no filho. É o idoso que tem esgoto voltando para dentro de casa.
E agora, para piorar, o povo ainda vai pagar mais caro por um serviço pior.
Inclusive, vai vir um super aumento da taxa de água e esgoto.
É isso mesmo: o povo vai pagar mais caro para ter menos água e mais esgoto na rua. Vai pagar aumento para a concessionária lucrar, enquanto a Compesa pública é desmontada.
Dizem que o início da prestação dos serviços pelas concessionárias foi reprogramado para 23 de novembro de 2026. Até essa data, as demandas continuam sendo recebidas e encaminhadas aos setores responsáveis da Compesa.
Até lá, o que o povo faz? Fica sem água? Fica esperando? Fica com esgoto na porta? E depois do dia 23, vai pagar mais caro por isso?
Não é possível assegurar os prazos de atendimento anteriormente praticados, diz a nota. Mas o aumento da conta, esse eles garantem que vem. O aumento vem no prazo, o serviço não vem.
Onde falta sistemas de água e esgoto, falta saúde, falta dignidade e falta vida.
Onde falta sistema de água, o povo depende de carro-pipa, de poço, de barreiro. Onde falta sistema de esgoto, o esgoto corre a céu aberto, na porta de casa, na frente da escola, contaminando tudo.
Onde falta sistemas de água e esgoto, sobra doença. Sobra diarreia, sobra verminose, sobra hepatite, sobra dengue, sobra chikungunya. Sobra criança no hospital. Sobra mãe sem dormir.
E é justamente onde falta sistemas de água e esgoto que a empresa privada não vai querer ir. Porque lá não dá lucro. Lá dá prejuízo para quem só pensa em dinheiro. Só a empresa pública vai onde o povo está, mesmo quando não dá lucro. Porque para a empresa pública, o povo não é cliente. O povo é dono.
Água não é mercadoria. Esgoto não é negócio. Água é saúde. Água é vida. Água é direito, garantido na Constituição de 1988, no mesmo artigo que garante a saúde: saúde é direito de todos e dever do Estado.
Quando eu era Presidente do Conselho Municipal de Saúde de Petrolina, eu aprendi que onde falta água, sobra doença. Onde falta Saneamento, sobra diarreia, sobra hepatite, sobra verminose. Não existe SUS forte com Compesa fraca. Não existe cuidar do povo sem cuidar da água do povo.
Eu falo como Técnico em Saneamento. Eu não estou falando de ouvir falar. Eu sei o que é uma rede de esgoto obstruída. Eu sei o que é falta de insumo, falta de ferramenta, falta de equipe técnica. Quando a Governadora Raquel Lyra , esvazia a Compesa, quem sofre é o povo.
Por isso, defendemos a Compesa 100% pública, estatal e forte.
Defendemos a empresa pública porque ela não visa lucro. Ela visa atender. A empresa privada visa lucro. E onde não dá lucro, ela não vai. Quem vai levar água para o interior, para o sítio, para a comunidade rural, se não der lucro? A empresa privada vai querer atender só onde é rentável, e o sertanejo vai ficar para trás.
Defendemos os trabalhadores da Compesa. São eles que conhecem a rede, que madrugam para consertar vazamento, que enfrentam sol de 40 graus para o povo ter água. Não se faz saneamento sem trabalhador valorizado, sem concurso público, sem ferramenta e sem insumo.
Defendemos investimento público, e não entrega do patrimônio do povo. O que Pernambuco precisa não é de concessionária. É de mais investimento na Compesa pública, de recomposição do quadro técnico, de compra de equipamentos, de respeito aos trabalhadores.
A população precisa saber das limitações operacionais, como diz a nota. Mas precisa saber também da causa: essas limitações foram criadas pela privatização parcial. E a solução não é privatizar mais. A solução é reverter esse processo e fortalecer o que é público.
Como Licenciado em História, eu sei: toda vez que o Brasil entregou seu patrimônio, o povo pagou a conta. Como Conselheiro Estadual das Cidades, eu sei: cidade sem saneamento não tem dignidade.
Água é do povo. Esgoto tratado é saúde. Compesa é do povo de Pernambuco.
Não vamos aceitar que transformem um direito em negócio. Não vamos aceitar pagar mais caro por um serviço pior.
Contra o super aumento da taxa de água e esgoto!
Compesa pública, estatal e forte, já!
Água não se vende. Água se defende.
Por Rosalvo Antonio da Silva, Licenciado em História, Técnico em Saneamento, ex-Presidente do Conselho Municipal de Saúde de Petrolina e ex-Conselheiro Estadual das Cidades de Pernambuco.



