Ilha do Fogo: Petrolina não cuida, Juazeiro silencia, o povo degrada e tudo está “ao Deus Dará”

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(Fotos: PNB)

Cercada de lixo por todos os lados: esta é a atual situação da Ilha do Fogo, localizada entre Petrolina (PE) e Juazeiro (BA). O ponto turístico, que passou a ser de responsabilidade da Prefeitura de Petrolina no ano de 2016, está ao “Deus dará”. Coisa que nunca se viu antes. É bem verdade que a ilha nunca recebeu atenção de nenhuma das duas prefeituras dos municípios, que ganharam da natureza este belo cartão postal. A falta de sensibilidade dos gestores do passado é mesmo de impressionar, mas imunda do jeito que está hoje, eu nunca vi.

Desde a adolescência frequento este espaço onde vejo o mais fantástico pôr do sol. Uma ilha urbana, privilégio para qualquer cidade que se respeite e pense grande. Não é o caso destas duas. Juazeiro frequenta mais a ilha do que Petrolina e mesmo assim não fez nenhuma questão dela. Petrolina, me parece, não se sente dona da ilha (e eu até entendo) e larga lá. A gestão demonstra não ter o menor interesse pelo ponto turístico.

Recentemente a ilha esteve sob os cuidados do Exército Brasileiro, que nenhuma intervenção fez no local e apenas proibiu o acesso ao público. Daí surgiu o movimento popular “Amigos da Ilha”, que se manifestou contrário a ocupação militar e pediu a ilha de volta em diversas manifestações, também na Ponte Presidente Dutra. O Exército saiu e o movimento se aquietou. A ilha continuou sendo um problema, até que uma parceria entre a prefeitura de Petrolina e o empresário Rodrigo Rodrigues foi firmada. O empresário, do ramo de caiaques, explorava a área dos banhistas do lado de Juazeiro e, em contrapartida, instalou tuneis de lixo e ficou responsável pela presença dos salva-vidas. Deu certo. Até que não havia reclamação da limpeza e nem houve afogamento neste período, segundo Rodrigo.

A gestão mudou e desde que assumiu o município em 2017, a gestão do Prefeito Miguel Coelho abandonou o espaço. Rodrigo me contou que até chegou a conversar com prepostos da prefeitura, sobre retomar os cuidados com a Ilha do Fogo, mas desistiu.

“Procurei a prefeitura de novo nesta gestão e até liberaram o espaço. Demonstraram interesse, mas eu desisti. Eu gastava muito para manter a limpeza e os salva-vidas, mas os frequentadores não colaboravam. O grande problema da ilha é o povo, que bagunça, que suja. Destruíam as placas de sinalização, afundavam as dornas de lixo e não respeitavam nosso trabalho”, disse Rodrigo.

De fato. A ação dos frequentadores “imundos” é destrutiva. No lixo, fora e dentro do rio, encontra-se de tudo. Soube também que tem grupos de jovens que, nos luaus, acendem fogueiras e também espalham lixo no espaço. Um absurdo! Eles deviam ser “Amigos da Ilha do Fogo”, nessa hora.

Nas minhas últimas e recentes idas a Ilha, pela primeira vez, senti mau cheiro e vi ratos. Me senti péssima com tanto lixo. Um desrespeito. Aquele pedaço que faz parte da bela Petrolina está podre. Dá nojo permanecer no local. Sem falar na oferta e consumo de drogas. O trafico por lá rola solto e não se ver polícia. Os ambulantes se proliferam sem nenhum controle. As barracas (que parecem mais uns “cacetes armados”) tomam conta da parte de cima, também sem nenhum controle ou fiscalização.

Tudo “ao Deus dará”.

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(Fotos: PNB)

No final da tarde da última segunda-feira (26), buscando contemplar o por do sol e recarregar a energia para mais uma semana de trabalho, estive na ilha. Não deu pra relaxar. As costumeiras fotos do crepúsculo, deram lugar aos registros da sujeira e do abandono.

Pelos tuneis abarrotados de lixo dá pra ver que há muito a coleta não passa por ali. A rampa de madeira, feita de todo jeito não sei por quem, está desgastada e não oferece nenhuma segurança no acesso. Na parte de cima, lixo por toda parte. O casarão está depredado e virou ponto para práticas criminosas e promiscuidade. Toda a ilha está degradada

Só o cruzeiro está intacto e imponente. Ele que serviu de orientação ao navegantes, do alto, sinaliza que existe uma magnifica porção de terra ali, cercada de mistérios e pelas águas do Velho Chico. Um lugar paradisíaco que merecia ser tratado de forma especial.

Fiz meu registro e deixei o lugar que tenho como meu, pensando no termo “a sombra do ciúme”, criado por Caetano Veloso, quando esteve por estas bandas. Paira mesmo sobre Juazeiro e Petrolina, esta “tenebrosa sombra”, a do ciúme, que além de cego e de cegar, cala. O poeta captou a rivalidade entre as duas cidades

Falei cá com os meus botões: Será que o ciúme é o culpado por este total abandono? A parte boa da ilha é virada para Juazeiro, tem a cara de Juazeiro, já foi incorporada a paisagem de Juazeiro mas, no papel, é de Petrolina. E aí? Faltaria o sentimento de pertencimento por parte de Petrolina em relação a ilha? Seria por isso que a gestão não cuida do que, pelo menos no papel, é seu? Será que esta é a lógica? Ou a intenção é degradar mesmo para justificar uma possível privatização do balneário? Juazeiro, que tanto usufrui do espaço, fica caladinha, omissa. Está cômodo demais não posicionar-se, não é? Covarde, não entra na questão.

Lembrei da historinha da serpente que fica na ponta da Ilha do Fogo, amarrada em três fios de cabelos de Nossa Senhora das Grotas (Padroeira de Juazeiro). Reza a lenda que, dois fios já se partiram. Desejei que ela, a grande serpente, se libertasse e sacudisse as duas cidades pelos pecados cometidos. Mais ainda por este pecado de enjeitar meu pequeno paraíso, a Ilha do Fogo. E largá-la assim, “ao Deus dará”.

Por Sibelle Fonseca, juazeirense, frequentadora da Ilha do Fogo, editora do portal Preto No Branco 

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