Ally Viana

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Sobre a Ilha do Massangano, Petrolina, uma resposta ao pastor: “Demoniza quem necessita de um demônio para sustentar a própria fantasia de pureza”

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Músicos tocando na roda do Samba de Véio na Ilha de Massangano Local: Petrolina - PE Data: 10/2018 Codigo: 11DIB754 Autor: Andre Dib

 

Em publicação nas redes sociais da Igreja Verbo da Vida em Petrolina, o pastor Edilson de Lira classificou a Ilha do Massangano como um território onde “abunda o pecado”, chegando a compará-la à Ilha do Marajó, no Pará. A Ilha do Marajó é um arquipélago localizado na foz do rio Amazonas e costuma ser mencionada em reportagens nacionais por seus graves indicadores sociais, como pobreza, dificuldade de acesso a serviços públicos e casos recorrentes de exploração sexual infantil. Ao estabelecer essa comparação, o pastor associa a Ilha do Massangano (comunidade tradicional quilombola do Vale do São Francisco) a um cenário amplamente divulgado como símbolo de vulnerabilidade social, desconsiderando as diferenças históricas, culturais e territoriais entre as duas regiões.

A fala imediatamente gerou forte reação nas redes sociais. Moradores da própria ilha expressaram repúdio nos comentários da publicação, questionando a generalização moral e defendendo a história e a identidade cultural do território. O Fórum de Igualdade Racial de Petrolina publicou nota oficial classificando as declarações como preconceituosas e desrespeitosas, ressaltando que a ilha é um quilombo vivo, com mais de um século de ocupação por descendentes de pessoas escravizadas, marcada por resistência, ancestralidade e diversidade religiosa.

A controvérsia não se limita a um desacordo teológico, ao afirmar que ali “abunda o pecado”, o discurso recai sobre um território historicamente constituído por cultura negra, ribeirinha e popular. A Ilha do Massangano é reconhecida por manifestações como o Samba de Véio (patrimônio cultural de Pernambuco), e por uma religiosidade popular que articula matrizes indígenas, influências quilombolas e o catolicismo tradicional do Vale do São Francisco.

Pessoas com roupa típica dançando na roda do Samba de Véio na Ilha de Massangano | Foto: Adriano Kirihara

Quando se afirma que um território é marcado pela imoralidade, não se está falando de árvores ou de água. Está se falando das pessoas que vivem ali. Está se falando da cultura que ali pulsa. Está se falando da fé que já existe naquele chão.

As terras brasileiras foram historicamente marcadas por processos de colonização que caminharam lado a lado com a imposição religiosa, o país foi colonizado sob doutrinação cristã compulsória, povos indígenas foram catequizados à força, cultos africanos foram criminalizados. A moral cristã europeia se consolidou como padrão de civilização e durante séculos, tudo que escapava a esse padrão foi tratado como atraso, superstição ou mal. Essa história não desapareceu. Quando um líder religioso declara que uma comunidade tradicional precisa ser “alcançada” porque ali “abunda o pecado”, ele toca em cicatrizes históricas que nunca foram completamente fechadas. Não é necessário citar quilombolas ou indígenas nominalmente, o território já carrega essa identidade. O peso simbólico recai sobre ela e a vaga acusação permite que estigmas antigos sejam reciclados em linguagem moderna. E nenhuma tradição cultural afro-indígena deve ser redefinida como carência espiritual para justificar uma evangelização.

A repercussão também mobilizou lideranças de religiões de matriz indígena e afro-brasileira na região. O sacerdote Pai João Bosco, da Aldeia Pena Branca, terreiro que cultua Jurema Sagrada em Petrolina, reúne centenas de frequentadores semanalmente e teve o espaço alvo de apedrejamentos em 2025, repudia as declarações.

“A ilha do Massangano não precisa de auxílio espiritual. Não é uma terra de pecado. É um território tradicional, quilombola, indígena, que precisa de fortalecimento nas suas condições de vida, mas não espirituais”, afirmou.

Ele também questionou o caráter invasivo da lógica anunciada

“Quantas vezes vocês viram um terreiro dizer que vai ocupar um espaço porque ali tem muito neopentecostal? A gente não faz isso porque isso também é um ato violento. É uma agressão cultural.”

Ao comentar a dimensão histórica desse tipo de discurso, Pai João Bosco afirmou que ainda há uma romantização da catequização colonial, ignorando as violências que a acompanharam. “Foi imposição. Foi epistemicídio”, declarou, referindo-se ao apagamento sistemático de saberes e cosmologias indígenas e africanas.

A fala do sacerdote evidencia que o debate não é apenas teológico. Comunidades de matriz afro-indígena convivem diariamente com deslegitimação simbólica, ataques a terreiros, ameaças e tentativas de inferiorização de suas práticas religiosas. A intolerância religiosa no Brasil não se limita à violência física; ela também se manifesta na classificação de determinadas culturas como espiritualmente desviantes ou moralmente suspeitas.

Pai João Bosco incorporando a força do Caboclo Pena Branca. | Foto: Reprodução/Instagram

Quando territórios quilombolas e indígenas são tratados como espaços que precisam ser “resgatados”, reatualiza-se uma lógica histórica que hierarquiza espiritualidades. E essa hierarquia não é neutra. Ela tem cor, tem origem e tem memória.

O escritor e ambientalista Victor Flores, também se manifestou em suas redes sociais, reforçando a dimensão histórica e cultural da ilha.

“A Ilha do Massangano não é um lugar vazio, não é uma terra sem história. Seu nome carrega raízes africanas, sua memória passa pelo povo preto que ajudou a construir Petrolina. Ali existe cultura, existe ancestralidade. O Samba de Véio não é folclore, é patrimônio vivo de Pernambuco”, afirmou o ambientalista.

Ele concluiu pedindo respeito ao território e à sua memória: “Antes de falar sobre qualquer lugar é preciso conhecer a sua história. Antes de rotular é preciso respeitar.”

Se há algo a ser interrogado sob o nome de pecado, talvez ele não resida na geografia que se acusa, mas na compulsão histórica de projetar no outro a sombra que não se suporta reconhecer em si. Demoniza quem necessita de um demônio para sustentar a própria fantasia de pureza.

E é preciso dizer com todas as letras: discursos que classificam territórios tradicionais como espaços moralmente degradados reproduzem uma lógica colonizadora e racializada. Sua fé não lhe confere autoridade para declarar a cultura do outro como impura. Comunidades quilombolas e ribeirinhas não são sujeira moral a ser limpa, nem páginas em branco à espera de correção espiritual. São sujeitos históricos, com direito à própria fé, à própria cultura e à própria dignidade.

Redação PNB

 

Carnaval de Juazeiro 2026: Circuito Parlim reafirma memória cultural e afetiva de juazeirenses

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Depois de críticas de artistas, educadores e moradores, o Carnaval de Juazeiro volta a contar com o Circuito Parlim, espaço dedicado ao público infantil e à valorização da cultura local. O retorno acontece após a retirada do nome do circuito na reformulação da festa, quando o espaço passou a ser chamado de “Folia Kids”, mudança que gerou questionamentos sobre apagamento simbólico da memória cultural do município.
O carnaval havia ficado um ano sem ser realizado, sob a justificativa de reorganização financeira da gestão municipal. Com a retomada da festa neste ano, a programação foi reformulada com o discurso de valorização da cultura local e da cidade como cartão-postal. No entanto, a substituição do nome do Circuito Parlim por um termo em inglês foi interpretada por parte da população como uma descaracterização da identidade cultural construída ao longo dos anos.
Após cobranças públicas, a gestão municipal anunciou o retorno do Circuito Parlim à programação oficial, restabelecendo o espaço infantil como homenagem ao artista que dá nome ao circuito e como reconhecimento da importância da memória cultural para o carnaval de Juazeiro.
Quem foi Parlim?
Parlim, nome artístico de Paulo Marcus Ribeiro Vianna, artista visual, arte-educador e uma referências da cultura popular juazeirense. Professor de arte, Parlim dedicou sua trajetória à infância, ao lúdico e à educação pela arte, atuando em escolas, projetos culturais e ações comunitárias.
No carnaval, Parlim marcou gerações ao integrar o Bloco Pimentinha e criar o Bloco Pirlimpimpim, que se tornaram marcos da história carnavalesca de Juazeiro por transformar a festa em um espaço de brincadeira, formação cultural e participação das crianças. Foi também idealizador do Trenzinho da Alegria, veículo que percorria bairros com música, personagens infantis e oficinas, levando o carnaval para além dos circuitos tradicionais.

 

Bloco Pirlimpimpim, em Juazeiro. Carnaval infantil que marcou gerações da cidade. Foto: Acervo Parlim.
Além da atuação no carnaval e na educação, Parlim participou, nos anos 1980, da fundação do jornal alternativo O Berro d’Água, publicação cultural independente surgida no período pós-ditadura, e produziu livros, gibis e ilustrações voltadas ao folclore, às lendas e à memória do Vale do São Francisco, como Lampião e o Nego d’Água.
Sua produção artística era marcada pelo uso de materiais simples e pela defesa da criatividade como direito. Para Parlim, cultura não se restringia a museus ou galerias, mas estava no cotidiano, na sala de aula, na rua e nas mãos das crianças cobertas de cola e tinta.

 

Parlim no lançamento do livro A Guerra de Canudos, em Juazeiro, meados dos anos 1990. Reprodução do acervo pessoal Parlim.
Falecido em 2015, Parlim se tornou uma referência simbólica da cultura local e passou a ser reconhecido popularmente como patrimônio cultural da cidade. O Circuito Parlim, criado em sua homenagem, consolidou-se como um espaço infantil dentro do carnaval, reunindo arte, brincadeira e educação.
A retirada do nome do circuito e sua posterior retomada evidenciam uma disputa maior sobre memória, identidade e pertencimento no carnaval de Juazeiro. O retorno do Circuito Parlim representa a reafirmação de uma história construída por artistas locais e a defesa do brincar como direito cultural.

 

Confira a programação:

O Carnaval de Juazeiro 2026 também reserva um espaço especial para a alegria das crianças e para a convivência em família. O Circuito Parlim chega como um polo infantil pensado para garantir diversão, segurança e momentos inesquecíveis para os pequenos, sem deixar de fora pais, mães e responsáveis. É o Carnaval vivido com leveza, cores, música e muita brincadeira, reforçando que a festa que abre o Carnaval do Brasil é para todas as idades.

Localizado no Paço Municipal, ao lado da Seculte, o Parlim acontece sempre no período da tarde, com uma programação acessível e acolhedora. O palco recebe atrações que já conquistaram o público infantil, como Tio Diego, Dó Ré Mi e a Banda Pirulito, além do clima animado do Pôr do Samba, criando um ambiente onde diferentes gerações celebram juntas a cultura e a alegria do Carnaval de Juazeiro.

O Carnaval de Juazeiro 2026 é realizado pela Prefeitura de Juazeiro, por meio da Secretaria de Cultura, Turismo e Esportes (Seculte), em parceria com o Governo do Estado da Bahia e apoio do Governo Federal. A iniciativa reforça o compromisso com uma festa democrática, inclusiva e pensada para toda a população, valorizando a infância e fortalecendo o espírito familiar da folia.

Programação – Circuito Parlim (Folia Kids)

Paço Municipal (ao lado da Seculte)

Sexta-feira (30/01)

15:30 – Tio Diego

17:00 – Banda Pirulito

18:30 – Pôr do Samba

Sábado (31/01)

15:30 – Dó Ré Mi

17:00 – Fabiana Santiago

18:30 – Pôr do Samba

Domingo (01/02)

15:30 – Dó Ré Mi

17:00 – Tio Diego

Redação PNB

Caminhada para Zé Pilintra em Juazeiro une Fé, cultura e luta por respeito religioso, neste domingo (23)

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Neste domingo, 23 de setembro, a cidade de Juazeiro será palco de uma manifestação que transcende o religioso e se firma como um ato de expressão cultural e de defesa da diversidade: a Caminhada para Zé Pilintra.

Organizada pelo Terreiro de Mbanda Congo de Seu Zé, a iniciativa promete reunir um cortejo plural, atraindo não apenas adeptos de diferentes tradições religiosas, mas também simpatizantes, curiosos e a população interessada em uma manifestação que celebra a figura de Zé Pilintra.

Mais que Fé: Visibilidade e Combate à Intolerância

O evento possui uma dupla missão. Além da celebração espiritual e cultural, busca dar visibilidade à importância do respeito à diversidade religiosa e alavancar o projeto de construção de um futuro santuário dedicado à entidade, um espaço que seus idealizadores planejam ser aberto ao público. A caminhada se insere em um contexto nacional onde comunidades de matriz africana persistem em relatar episódios de discriminação e intolerância.
Para os participantes, ocupar o espaço público com cultura e fé, reunindo diferentes grupos, é uma forma potente de estimular a convivência, o diálogo e o respeito mútuo.

Zé Pilintra: Um Símbolo da Cultura e da Rua

Zé Pilintra é uma entidade de forte presença nas religiões de matriz africana e afro-indígena, notavelmente na Umbanda e em linhas da Jurema Sagrada. Associado à mediação entre mundos, à proteção e à atuação em espaços urbanos, sua simbologia extravasou o campo religioso.
Popularizado pela estética icônica, terno branco, fita vermelha e chapéu, ele se tornou um símbolo cultural presente em festas, músicas, manifestações artísticas e na própria identidade popular brasileira.

Cortejo Plural e Aberto à Comunidade

A proposta da Caminhada é justamente a acessibilidade e a pluralidade.

“Tem terreiro de Umbanda, de Candomblé, de Quimbanda, tem pessoas que não são de religião nenhuma, tem católicos. A caminhada está reunindo pessoas diferentes, tradições diferentes,” afirma Tata Edson, responsável pelo terreiro organizador.

Foto: Reprodução/Instagram — Congá do Seu Zé (Registro da Primeira Marcha Cultural do Zé Pilintra em Juazeiro)

Diferentemente de procissões restritas, este cortejo não se limita a um único grupo, acolhendo qualquer morador da cidade que queira acompanhar a celebração ou conhecer mais sobre a figura homenageada, independentemente de crença ou ausência dela.

O percurso será embalado por apresentações culturais, incluindo capoeira, samba, coco e samba de roda, reforçando o caráter festivo e cultural da manifestação. Ao final da caminhada, a imagem simbólica de Zé Pilintra será posicionada no local onde se deseja erguer o futuro santuário, em um gesto que busca reconhecimento institucional e fortalecimento das tradições referenciadas pela entidade.

Como Participar?

​A Caminhada para Zé Pilintra será realizada neste domingo, 23 de setembro. A concentração está marcada para as 9h30 na orla de Juazeiro, nas proximidades da Diocese. O evento é aberto e gratuito para toda a população interessada. Mais informações sobre a programação completa e detalhes atualizados podem ser encontradas no perfil oficial dos organizadores no Instagram: @conga.de_seuze.  

Redação PNB