
Ainda ontem, querendo que uma pessoa muito especial me conhecesse mais um pouco através das histórias que vivi com meu pai, lembrei de algumas palavras dele. Pude ouvi seu tom de voz quando me ensinou a dizer: “Alto Lá! Aqui não!”. Foi quando chegaram uns primos da capital, com mania de dar dois beijinhos nas meninas (moda nova por lá), e ele, meu pai, meu doce maldoso, ordenou que eu rejeitasse aquele cumprimento ousado, expondo assim minha insegurança, minha “tabaroice”.
Lembro do dilema que vivi na noite anterior a chegada deles. Lembro do medo que senti do dia seguinte. Era eu e minha irmã, também condenada ao vexame anunciado. Eles chegaram foi cedo. Antes mesmo que eu e ela chegássemos a um consenso sobre o que fazer para parecer sermos menos ridículas. Os meninos chegaram e já partiram para o nosso encontro com os tais dois beijinhos da capital. Lembro que meu sangue foi todo para a cabeça e a boca secou. Minha irmã sentiu o mesmo, depois ela me contou. Foi tudo tão rápido e nervoso que nós duas, sem combinarmos, demos o lado da cabeça para receber o beijo. Não demos a face. Foi meio constrangedor. Meu pai, com o olhar esperando nossa reação, calou-se para sempre. Nunca soube se nos aprovara ou não. Se fomos obedientes ou meio obedientes. Desobedientes sei que não fomos. Afinal, não oferecemos a face para os dois beijinhos, se era isso que ele queria. Viramos a cabeça e isso nos fazia, as suas meninas, de certa forma, diferentes das meninas tão permissivas da capital, talvez!. Também nunca soube o que meu pai tanto temia. Que mal via nos dois beijinhos. O que tinha de pecado naquele cumprimento. O que sei é que os primos foram embora e nos despedimos, eu e minha irmã, dando a cabeça para os dois beijinhos. E desta vez, já foi mais natural.
Virou um hábito entre nós, dar a cabeça para os dois beijinhos venham eles de onde vierem. Como um código secreto de irmãs. Uma herança, algo assim. Uma mania estranha que pulou geração. É, algumas de minhas filhas também dão a cabeça para os dois beijinhos e ouvem o “Alto Lá” de meu pai, de tanto eu contar.
Penso que ele, pai de 5 meninas, refém de uma sociedade machista e doente, queria nos proteger com suas ordens, muitas vezes, cravejadas de pudores malditos e limitantes. Crenças que carregamos até hoje, eu, e acho que também minhas irmãs. E que eu espero que não passem para minhas netas e tataranetas.
Mas não é sobre os impactos do machismo paternal na minha vida que eu quero falar não. Abstraí tudo isso, creio.
Quero falar é que, e não me perguntem como, re-signifiquei o “Alto Lá, aqui não!” do meu pai. Adotei como um mantra. Meu pai nunca soube que me ensinara o pé da letra da expressão.
“Opa, pera aí, comigo não!”. Coisa que digo ligeiro toda vez que estou sob alguma ameaça ou imposição. Toda vez que tenho que me sair de uma situação. Toda vez que preciso de força e auto-afirmação. Todas as vezes que preciso agir, reagir e poder existir. “Alto Lá, aqui não!”, aqui ninguém invade, nem oprime, nem ameaça, nem impõe. Daqui ninguém tira um pedaço, sem que eu queira. Aprendi a dar freio e voz onde preciso. A dizer que não quero, a dizer o que quero. E imprimir toda força no que desejo. A não me abater com rejeição e nem necessitar de aprovação. Aprendi a ser e agir de acordo com minha natureza, mandando as regras mais rasas, às favas. Aprendi a fazer minhas próprias regras e estou bem em paz com elas. Aprendi a me colocar, a me validar. Aprendi mesmo foi a me respeitar, o que alguns chamam de coragem.
Aprendi que coragem é isso – Mesmo tendo medo da hora dos dois bejinhos, não recuar. Não temer riscos e nem vexames. Não seguir à risca ordens que nem se sustentam. Dar o melhor jeito de “se sair”, de ressurgir, de superar. Chamam a isso de resiliência.
Talvez, com essa história toda, eu possa até dar um conselho, coisa que só dou a quem quero bem: Dê a face, dê a cabeça, dê o que puder, só não paralise!
E diga “Alto Lá, aqui não!”. Aqui existe gente e gente que se respeita! Gente que se garante!
Te digo mais, se é que isto sirva de exemplo: Meus primos foram embora, meu pai também foi embora. Minha irmã, antes dele um pouco. E eu ainda por aqui, ando pagando satisfeita, com juros e correções, por todas as vezes que digo “Alto Lá, aqui não!”
Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente