Alunos do curso de Medicina da Faculdade Estácio Juazeiro, na região Norte da Bahia, voltaram a entrar em contato com o Portal Preto no Branco, para relatar uma série de problemas graves no internato. Conforme os relatos, as principais irregularidades estão nas aplicações das provas práticas.
“Nós, estudantes de Medicina desta instituição, vimos, por meio desta, expor, de forma anônima, nossa profunda insatisfação e indignação diante da condução do internato e, principalmente, da forma como vêm sendo aplicadas as provas práticas. Mais uma vez, somos submetidos a, avaliações em condições extremamente desfavoráveis, sobrecarregados, exaustos física e mentalmente, em razão da intensa carga de atividades assistenciais, nas quais “tocamos serviço” sem o devido espaço para discussões e aprendizado estruturado. Tal realidade tem se repetido há muito tempo, e apesar de inúmeras tentativas de diálogo, solicitações e manifestações, a coordenação não adota nenhuma medida efetiva para corrigir esses problemas. A aplicação das provas práticas, em especial, escancara essa falta de preparo e organização. Trata-se de avaliações feitas em bonecos, sem que previamente tenhamos qualquer treinamento ou preparação adequada para esse formato, o que não condiz com a realidade da prática clínica, na qual atendemos pessoas diariamente. Se estamos no campo atendendo pessoas todos os dias, por que não podemos ser avaliados justamente nesse contexto real, que reflete nossa vivência e aprendizado? Avaliar em bonecos não apenas perde o sentido, como também desrespeita o esforço e a dedicação diária dos alunos no cuidado aos pacientes.”, desabafam os estudantes.
Os estudantes questionam também a justificativa da instituição de que a prova prática seria exigência da Estácio Nacional. “Em outras unidades da Estácio, como em Alagoinhas, no Rio de Janeiro e no Paraná, isso não acontece. Aqui, somos tratados de forma incoerente e sem respeito”, acrescentam.
Eles criticam a subjetividade das avaliações.
“Apesar de se apresentar como um exame objetivo, a forma como avaliadores interpretam desempenhos pode variar, influenciada por percepções individuais, o que levanta dúvidas sobre a real padronização dos critérios. Os estudantes também relatam o alto nível de estresse gerado pelo formato do exame. O tempo limitado em cada estação e a pressão da observação direta podem afetar o desempenho, sem necessariamente refletir o conhecimento ou a competência clínica adquirida. Por fim, alguns especialistas apontam que o OSCE, quando usado de maneira isolada, não consegue avaliar integralmente a formação médica, já que privilegia aspectos técnicos e comportamentais em situações específicas, deixando de lado dimensões como acompanhamento longitudinal de pacientes e tomada de decisão em cenários mais complexos.”
Ainda segundo os estudantes, a pressão e a sobrecarga são constantes. “Além disso, há a sobrecarga de atividades teóricas em pleno internato, como sessões clínicas obrigatórias e eventos acadêmicos, que retiram tempo valioso de estudo e descanso. Muitas vezes, nesses espaços, não encontramos acolhimento ou orientação, mas sim situações de constrangimento, sendo colocados ao ridículo diante de alguns preceptores, que claramente não demonstram interesse em ensinar e, em diversas ocasiões, chegam a desmerecer e desrespeitar os estudantes.”
Os relatos destacam ainda o impacto na saúde mental dos dos estudantes que estão finalizando a formação, os chamados internos. “Estamos chegando ao limite. É muito esforço físico e psicológico para pouco retorno. O internato deveria ser aprendizado, mas está nos adoecendo.”
Eles finalizam pedindo mudanças imediatas. “Solicitamos, portanto, providências urgentes, com revisão imediata do modelo de avaliação prática, abertura de canais efetivos de escuta e participação dos alunos, e adoção de medidas que priorizem a qualidade da formação médica e não apenas a imposição de provas desconexas da realidade prática. Seguiremos denunciando enquanto não houver mudanças concretas.”
Encaminhamos as reclamações para a Faculdade Estácio, em Juazeiro, e aguardamos uma resposta.
Relembre
Em junho deste anos, a trágica morte de uma estudante que estava no último ano do curso de medicina da Faculdade Estácio gerou forte comoção entre alunos, que na ocasião alertaram sobre as condições de saúde mental dos estudantes, principalmente dos que estão finalizando a formação, os chamados internos. Após o ocorrido, eles enviaram ao PNB uma série de relatos que denunciam um ambiente acadêmico adoecedor, supostamente marcado por pressão excessiva, silenciamento e negligência institucional.
“A formação médica da Estácio, em Juazeiro, está adoecendo os seus estudantes. A morte da estudante de medicina em internato que ocorreu ontem, por si só, já deveria ser motivo de luto coletivo, de reflexão profunda e de ação imediata. Mas, mais do que isso, é o retrato de um sistema que vem falhando repetidamente com seus alunos, empurrando-os para o limite da saúde mental e fingindo que isso é parte do processo formativo. Denunciamos aqui a cultura institucional que normaliza o sofrimento, ignora sinais de esgotamento, e silencia qualquer pedido de ajuda. Um sistema que exige presença total, desempenho impecável e resistência absoluta, mas que não oferece escuta, acolhimento ou suporte psicológico adequado. Denunciamos o fato de que estudantes têm adoecido em silêncio, enfrentando jornadas desumanas, abusos de autoridade, humilhações públicas, medo constante de represália — tudo isso sem qualquer rede efetiva de proteção. Denunciamos a naturalização da exaustão e do colapso psíquico como “parte da rotina médica”. Denunciamos, também, a ausência de políticas reais de saúde mental para alunos em formação, a inexistência de protocolos eficazes de acolhimento em situações de crise, e a negligência institucional diante de denúncias de abuso psicológico e moral no ambiente hospitalar”, declarou um grupo de estudantes. Temendo represálias, eles preferiram não se identificar.
Eles destacaram ainda que a situação vivenciada pelos estudantes não pode ser naturalizada e exige que medidas urgentes sejam adotadas para mudar o cenário.
“É urgente dizer: isso não é normal. Isso é violência. Não é normal chorar escondido no banheiro de um hospital. Não é normal ter medo de admitir sofrimento. Não é normal adoecer em silêncio com medo de parecer fraco. Não é normal que a formação médica custe a vida de quem sonha em salvar outras. Quantas mortes mais serão necessárias para que sejamos tratados com dignidade? Hoje, a dor tem nome. E o silêncio institucional não pode continuar sendo a resposta. Exigimos da universidade, dos hospitais e de todos os profissionais envolvidos compromisso real com a saúde mental dos alunos. Exigimos estruturas de escuta, acolhimento, canais de denúncia efetivos e mudanças concretas nas condições de formação. Não aceitaremos que mais uma vida seja apagada em silêncio. Hoje falamos em nome de todos que estão sofrendo, calados, dentro de um sistema que precisa mudar. Que essa morte não seja mais uma estatística. Que seja o fim do silêncio”, acrescentou.
O grupo classificou o ambiente da faculdade de medicina Estácio como “hostil”, de “medo” e “pressão constante”.
“O que ocorreu com a aluna não foi apenas uma tragédia individual, mas o reflexo de um ambiente hostil, de uma cultura acadêmica que adoece seus alunos. A faculdade se tornou um lugar em que o medo e a pressão constantes se sobrepõem ao cuidado e à empatia. Profissionais que deveriam nos orientar e nos formar como médicos e como seres humanos preferem humilhar, ignorar ou pressionar. Não há espaço para falar sobre sofrimento, para pedir ajuda ou para dizer que algo não está bem. Durante os rodízios, sequer podemos reclamar ou agradecer. Somos constantemente lembrados de que qualquer manifestação de insatisfação pode ser punida. Os coordenadores não gostam que a gente demonstre vulnerabilidade, é melhor ficar em silêncio do que arriscar a fúria de quem manda”.
Os universitários destacaram ainda que era necessário perceber a existência de um problema estrutural na faculdade, para que outros casos como a da aluna Cristina Carneiro voltem a acontecer.
“É revoltante que tenha sido necessário chegar ao ponto de uma vida ser perdida para que, talvez, alguém pare e perceba que existe um problema estrutural: a formação médica está matando seus alunos. Uma cultura de medo, de hierarquia tóxica e de desumanização que cobra sem ensinar, que pune sem escutar. Nós não podemos normalizar isso. Não podemos aceitar que seja assim. Uma vida perdida não pode ser apenas mais um número. É urgente que mudemos a forma como cuidamos de quem escolheu cuidar de vidas”, desabafaram.
Redação PNB