A frase de Brecht atravessa o tempo com um desconforto persistente e retorna sempre que a história decide repetir seus erros sob novas roupagens. Ela ecoa hoje diante da invasão da Venezuela pelos Estados Unidos e da prisão de Nicolás Maduro por forças militares estrangeiras.
Mais perturbador ainda do que a ação em si é observar a reação entusiasmada de parte da opinião pública brasileira diante desse acontecimento. É preciso afirmar com clareza. Nicolás Maduro consolidou-se como um projeto autoritário de poder.
Seu governo perseguiu opositores, restringiu liberdades civis, enfraqueceu instituições e aprofundou uma crise econômica e social devastadora. A Venezuela viveu anos de hiperinflação, escassez, colapso de
serviços públicos e migração em massa.
Esses fatos não são invenção retórica
nem devem ser relativizados.
Mas reconhecer o caráter autoritário do governo venezuelano não legitima uma
invasão militar estrangeira. O que ocorreu hoje ultrapassa qualquer debate sobre
direitos humanos ou democracia.
Trata-se de uma potência global decidindo,
unilateralmente, intervir militarmente em um país soberano, capturar seu chefe
de Estado e impor sua própria lógica de poder sobre uma nação inteira. O que mais surpreende e choca é ver brasileiros comemorando essa ação.
Como se tanques, bombardeios e prisões extraterritoriais fossem instrumentos
legítimos de reorganização política. Como se a história não tivesse mostrado,
repetidas vezes, que intervenções desse tipo produzem ruínas, não soluções.
Os Estados Unidos possuem uma longa tradição de invadir e desestabilizar
países sob o pretexto de levar democracia. Na prática, essas ações quase
sempre estiveram associadas à defesa de interesses econômicos, estratégicos
e geopolíticos. O discurso da liberdade costuma servir de verniz moral para a
espoliação de recursos, o controle político e a submissão de economias inteiras.
O Oriente Médio é prova disso, com países destruídos, Estados fragmentados e
populações condenadas a décadas de instabilidade. A América Latina também conhece bem esse roteiro. O Brasil não foi exceção.
O golpe militar de 1964 contou com apoio direto dos Estados Unidos, que
financiaram, articularam e sustentaram uma ditadura responsável por censura,
perseguições, tortura e assassinatos. Foram vinte e um anos de autoritarismo
justificados, à época, exatamente com o mesmo discurso que hoje reaparece
travestido de “salvação democrática”.
Celebrar a invasão da Venezuela é, no fundo, torcer para que esse mesmo método seja aplicado aqui. É desejar que uma potência estrangeira intervenha no Brasil, anule processos institucionais, liberte aliados políticos e imponha um governo alinhado aos seus interesses. Essa mentalidade revela um desprezo profundo pela soberania nacional e pela própria ideia de democracia.
Essa pequena parcela de brasileiros que vibra com a invasão pode ser comparada a um grupo de insetos que, em sua ânsia fascistóide de destruir os que pensam diferente, implora para que o dono da casa espalhe inseticida. Acreditam que o veneno cairá apenas sobre os inimigos, sem perceber que ele sempre contamina todo o ambiente.
Intervenções militares desestabilizam economias, provocam altas abruptas de
preços, ampliam a violência e destroem qualquer perspectiva de estabilidade a
médio ou longo prazo. Além disso, enfraquecem o direito internacional e
consolidam a ideia de que países menores não passam de territórios disponíveis
à vontade das grandes potências.
Parece desnecessário lembrar, mas é urgente fazê-lo. O Brasil não é a
Venezuela. Bolsonaro responde a processos dentro do sistema judicial
brasileiro. A América Latina não é o pomar do sonho americano, nem um
tabuleiro onde impérios movem peças conforme sua conveniência.
Criticar Maduro é legítimo. Defender direitos humanos é necessário. Mas
aplaudir uma invasão estrangeira é aderir ao mesmo autoritarismo que se diz
combater. Não há democracia que nasça da ocupação militar. Não há soberania
possível quando o destino de um povo é decidido fora de suas fronteiras.
A emancipação política da América Latina passa pelo fortalecimento de
instituições próprias, pela resolução interna de conflitos e pela solidariedade
entre os povos do continente. Aplaudir invasões é abdicar dessa possibilidade e
aceitar, de joelhos, a lógica imperial que sempre tratou a região como área de
saque. Hoje, mais uma vez, a história nos lembra que o fascismo não surge apenas nas
botas que invadem, mas se fortalece também nos aplausos que ecoam à
distância.
João Gilberto Guimarães Sobrinho, é Cientista social formado pela Universidade Federal do Vale do São Franscisco, escritor e produtor cultural.








