“Somos vítimas da polícia e dos bandidos”, diz carta aberta dos Movimentos Antirracistas do Vale

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FOTO ILUSTRATIVA
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CARTA ABERTA DOS MOVIMENTOS ANTIRRACISTAS DO VALE SOBRE O CARNAVAL DE JUAZEIRO EM 2017

O Carnaval é conhecido como uma festa popular que agrega uma infinidade de gentes.
É a festa da mistura e da alegria, mas não de uma paz igualitária.

O poder repressor do Estado, que povoa as ruas com os olhos voltados para os focos de desordem. Desordem? Com que olhos é vista e analisada? O que é desordem, se, afinal, basta ser negrx – ou, preferencialmente, ser negrx, homem e jovem para ser tratado como um cidadão sem direitos quando suspeito?

Relatório recente da ONU (2016), fala que os negros são vítimas de altos índices de violência no Brasil. “O que é desconcertante é que um número significativo é perpetrado pelo Estado, frequentemente através do aparato da polícia militar”, afirma a pesquisa.

Somos vítimas da polícia e dos bandidos.

É dentro desse contexto que acompanhamos com total indignação o caso em que a professora Neide Tomaz e sua família, curtindo o carnaval de Juazeiro, assistiram a cenas terríveis de espancamento de um jovem homem negro rendido por profissionais da Polícia Militar. Não contendo a sua aversão diante de tamanha desproporção e abuso, Neide Tomaz solicitou que as providências coerentes ao caso fossem adotadas.
A cólera da polícia se voltou, então, para ela, seu companheiro e dois filhos, que foram covardemente brutalizados.

A nossa indignação cresce ao saber que esse não é um caso isolado e que a cada hora pessoas negras são maltratadas apenas por serem negras. Em nosso país, o número de jovens mortos equivale a queda de 1 avião a cada 2 dias, 77% desse mortos são negros, no seio de nossa pátria amada acontece um genocídio silencioso dos jovens negros (Anistia Internacional, 2012). Mas isso parece não chocar as “pessoas de bem” do nosso Brasil.

Mas nós negros precisamos não só nos chocar, mas nos posicionar contra esta situação. Os jovens negros são muito mais vítimas do que causadores da violência. Mas o homem negro, em nossa “democracia racial” (ou melhor dizendo, hipocrisia racial), é comumente representado como vilão e por isso toda mãe de adolescente negro fica com o coração na mão quando o seu filho ou filha sai para uma festa ou à noite para um compromisso qualquer. Essa mãe tem medo dele ser assaltado, mas também tem medo da polícia pegar o seu filho e maltrata-lo, com a desculpa de que achou que ele era “suspeito”.

Toda mãe e pai de adolescente negro sabem do que estamos falando.

Nós, dos Movimentos Antirracistas do Vale, manifestamos nosso completo repúdio a violência e ao racismo em todos os tempos e lugares. Nossas cabeças estão erguidas e nossos peitos cheios de coragem para lutar contra o racismo e pela afirmação dos valores de toda vida negra!

Movimentos Antirracistas do Vale
REFERÊNCIAS:
ONU, 2016. https://documents-dds-ny.un.org/doc/UNDOC/GEN/G16/021/35/PDF/G1602135.pdf?OpenElement
Anistia Internacional: https://anistia.org.br/campanhas/jovemnegrovivo/

6 COMENTÁRIOS

  1. Sei de toda essa violência gratuita por parte da polícia com todos os foliões, por que nestes três dias de carnval presenciei momentos terríveis de truculência e agressões desnecessárias realizadas pela polícia.
    E tudo isso nos deixa mais inseguro para deixar os “nossos”, não só filhos mais todos os “nossos” saírem para uma festa.

  2. Sou professora e sou mãe. Muito me preocupa quando assistimos nos noticiários local e nacional a quantidade de jovens assassinados, vítimas da violência. Precisamos dar um basta nisso.

  3. Queremos saber quando o Estado vai reconhecer verdadeiramente a situação de vulnerabilidade da população negra no geral, e dos jovens/adolescentes negros em particular. Além de negligente com a questão étnico-racial no país desde o período escravista até hoje, o próprio Estado financia a violência. Não quero com isso dizer que não deve haver polícia. Deve haver, sim, mas desde que haja também o enfrentamento concreto das situações discriminatórias contra os pobres e negros, que têm nesta própria condição (sua identidade negra manifesta em suas características físicas), o potencial para o fator de suspeição. Deve haver polícia desde que haja programas de formação destes agentes de segurança para que sua prática esteja desvinculada da ideologia racista e da hipocrisia racial. Basta! Basta! Estado, pedimos socorro! Governo, pedimos socorro! Autoridades, mecham-se! Negros merecem RESPEITO! (A SUSPEIÇÃO INFUNDADA TORNA-SE DISCRIMINAÇÃO, ACORDEM!).

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