Câncer de próstata: o mais incidente em homens, por André Deeke Sasse

 

 

O câncer de próstata é o mais comum nos homens no Brasil (sem considerar os tumores de pele não melanoma): 31,7% de todos os tipos de câncer masculino, seguidos de pulmão (8,7%) e intestino (8,1%). Nosso país se diferencia dos índices no mundo, em que os tipos de câncer mais frequentes nos homens são pulmão (16,7%), próstata (15,0%), e intestino (10,0%).

Segundo dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), foram mais de 68 mil casos novos em 2018-2019, com mais de 14 mil mortes relacionadas à doença. O principal fator de risco é a idade: mais de 75% dos diagnósticos acontecem após os 65 anos.

A boa notícia é que cada vez mais homens se curam dessa doença e naqueles casos em que o quadro é mais avançado, novos medicamentos descobertos na última década têm melhorado muito o tempo e a qualidade de vida.

O câncer de próstata em estágio inicial geralmente não provoca sintomas, enquanto em estágio avançado pode causar alguns sinais, como micção frequente, fluxo urinário fraco ou interrompido, vontade de urinar frequentemente à noite, sangue na urina ou no sêmen, disfunção erétil, dor no quadril, costas, coxas, ombros ou outros ossos se a doença se disseminou.

E afinal, como é realizado o diagnóstico? É imprescindível o exame físico feito pelo médico, incluindo o toque retal. Este exame é necessário para que o médico verifique a consistência da próstata, o tamanho e se existem lesões palpáveis. Ainda motivo de tabu – desnecessário – entre muitos homens, o toque retal é essencial para o diagnóstico da doença. É um exame rápido e indolor. Junto com o exame de toque é realizado o exame PSA (antígeno prostático específico), medido no sangue, quando se suspeita de câncer de próstata.

Após o diagnóstico, as dúvidas são frequentes e a ansiedade frente ao tratamento é inevitável. Porém, obviamente, o primeiro passo é manter a calma! O segundo passo é técnico. Trata-se da chamada “classificação de risco” do câncer de próstata, que será realizada pelo médico e que está diretamente relacionada com as chances de cura, sobrevida e que direciona as opções de tratamento. Para essa classificação são utilizados dados como o tamanho e a invasão do tumor, o valor de PSA, o grau de diferenciação do tumor pela biópsia e a presença ou ausência de metástases. Considerando essas variáveis, o câncer de próstata poderá ser classificado em grupos de muito baixo risco, baixo risco, risco intermediário e alto risco.

Após essa classificação, cada paciente é avaliado de forma individualizada, respeitando sua idade, antecedentes pessoais, disponibilidade de acesso aos tratamentos e seus desejos quanto aos resultados esperados, permitindo assim que decida junto com seu médico a melhor forma de tratamento, respeitando sempre sua decisão.

Atualmente, as opções de tratamento disponíveis são variadas. Podemos realizar a observação vigilante, indicada para pacientes de muito baixo risco. Nessa modalidade o paciente é acompanhado com exame de PSA, toque retal e biópsia de próstata em períodos preestabelecidos, avaliando a evolução do câncer. Caso as características do tumor permaneçam de bom prognóstico (sem evolução da doença), o paciente poderá ser apenas acompanhado, evitando os efeitos colaterais do tratamento.

A cirurgia continua sendo uma das principais opções para o tumor restrito à próstata. A prostatectomia com dissecção linfonodal é a ressecção completa da próstata, vesícula seminal e linfonodos. Atualmente as técnicas disponíveis são a cirurgia aberta, videolaparoscópica e a robótica. As três opções são equivalentes quanto ao resultado oncológico de cura e a escolha baseia-se na habilidade do cirurgião com cada técnica.

Outra opção para doença localizada exclusivamente na próstata é a radioterapia externa ou a interna conhecida como braquiterapia. Esta técnica permite a emissão de radiação direcionada à próstata, combatendo diretamente as células tumorais, preservando os órgãos próximos, reduzindo assim os efeitos colaterais como inflamação da bexiga e do intestino.

Já a terapia de supressão androgênica – que pode ser realizada combinada com radioterapia – baseia-se na diminuição dos níveis dos hormônios masculinos, inibindo o estímulo de crescimento das células neoplásicas da próstata. Este tratamento pode ser realizado por meio de cirurgia de orquiectomia (retirada dos testículos) ou com medicamentos.

As opções anteriormente apresentadas são todas indicadas para pacientes com doença restrita à próstata. Mas há uma dúvida comum sobre quando o tumor se espalha para outros órgãos, que são as chamadas metástases. Para estes casos tivemos os maiores avanços nos últimos anos. Desde 2012, foram aprovadas cinco novas medicações com aumento de sobrevida. Além da supressão androgênica realizada quando há presença de metástases, temos as opções de quimioterapias, novos antiandrógenos – como Abiraterona e Enzalutamida, vacina sipuleucel T e um radio fármaco (Radium 223). Com todas essas opções, o tempo e a qualidade de vida dos pacientes atingiram níveis nunca antes alcançados.

Receber o diagnóstico de câncer de próstata não deve ser acompanhado do estigma de incurabilidade ou tratamentos sofridos. As diversas opções de terapias cada vez mais eficazes e com menos efeitos colaterais já são uma realidade e possibilitam muitos sucessos de pacientes na luta contra esse tipo de câncer.

* André Deeke Sasse, oncologista, professor de pós-graduação na FCM-Unicamp, membro titular da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) e da Sociedade Europeia de Oncologia (ESMO). Fundador do Grupo SOnHe – Sasse Oncologia e Hematologia, que atua na oncologia do Hospital Vera Cruz, do Instituto do Radium , do Hospital Santa Tereza e Hospital Madre Theodora. É coordenador da Oncologia Clínica do Hospital PUC-Campinas e faz a preceptoria dos residentes do hospital.

Carolina Pimentel/Jornalista 

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