“Atacar os gestores por adotarem medidas salvadoras, é leviandade”, por Sibelle Fonseca

 

Qual comerciante não gosta de ver sua loja cheia de gente, comprando, pesquisando, dando movimento ao caixa? Só um lunático, imbecil, estapafúrdio e irracional decidiria por fechar as portas por capricho, por prazer, abrindo mão de lucros, não? Somente aqueles com extrema dificuldade de acessar a racionalidade agiriam como um idiota por puro capricho, não é verdade?

Qual gestor de uma cidade, um estado, de um país, limitaria o acesso de pessoas no seu território, deixando de gerar receita, impostos e dividendos? Qual deles optaria por ver seus redutos isolados, tristes, sem a vida do comércio, dos bares e restaurantes, dos shoppings e parques públicos, dos cinemas, casas de entretenimento, igrejas, academias, salões de beleza, sem a alegria das ruas? Repito: só os lunáticos, imbecis e irracionais, aqueles com extrema dificuldade de acessar a racionalidade, por puro capricho tomariam essa decisão. Concorda ou não concorda?

O que deve contar neste momento de uma pandemia, quando o Brasil representa o quarto país com mais casos de covid-19 no mundo, com mais de 16 mil mortes e mais de 241 mil casos confirmados registrados neste domingo, 17, e a curva resiste em dá sinais de arrefecimento no país? O que deve contar neste momento de pandemia de um inimigo invisível, que se espalha rapidamente, pode está em qualquer lugar e ser letal? O que deve contar neste momento de colapso no sistema de saúde, quando os profissionais se matam por dentro para optar pela vida desse ou daquele? O que deve contar neste momento quando eu, você, a minha e a sua mãe, o meu e o seu filho, o nosso melhor amigo ou o nosso avô tão querido, poderemos ser as próximas vítimas, e o pior: condenados a morrer sem ar pela falta de aparelhos e leitos, sem um último adeus, e até sem covas dignas da nossa história?

Estamos falando de mais de 16.000 mortes, mais de 16 mil vidas interrompidas, mais de 16 mil famílias devastadas, de mais de 16 mil pessoas que, de março para cá, foram vencidas por este vírus infeliz. E isso é até o momento, porque os números crescem em velocidade assustadora.

Sem vacina, sem remédio que, comprovadamente, trate a infecção, sem a garantia de uma assistência hospitalar adequada, o que nos resta, a nós outros cidadãos comuns? Higienizar a mãos e superfícies, evitar contato físico, mantermos o distanciamento social, ficando em casa, sem receber nem os nossos mais queridos, usar máscara até para ir bem ali, por nós e pelo outro.

O que cabe aos gestores sensatos e sensíveis à vida? Senão adotar medidas restritivas, estruturar a rede, se virar para conseguir recursos de onde tem e não tem, testar, decretar a limitação de gente nas ruas, suspender, por enquanto, a vantagem dos lucros, a cobrança dos impostos, adotarem o toque de recolher (medida extrema e providencial, quando as cidadãs e cidadãos se comportam de forma irresponsável), fechar o comércio, bloquear o que for possível e até lançar mão do lockdown (bloqueio total) para proteger vidas.

Isso é o mínimo que se pode fazer. É obrigação. Fora disso, é desumanidade, negligência, é ‘escrotidão’ com a vida, nosso bem maior. É perversidade, coisa de gente ruim que só enxerga cifras e CNPjotas, em detrimento das Marias e dos Josés, que terão CPefes cancelados por óbito. O que é irreversível, irrecuperável.

Estamos passando por privações, eu sei. Têm muitas famílias passando necessidade, eu sei. Tem muito arrimo de família vivendo a aflição de não saber como pagará as contas do mês seguinte. Que os governos abram seus cofres para minimizar essa situação. Que se virem para garantir alguma renda e sobrevivência para os cidadãos pagadores de impostos neste período emergencial. Se virem, mas não nos exponham a morte, ao sofrimento. Não permitam que o capital se sobreponha a nossa vida.

Sempre ouvi que Deus era brasileiro. Aqui não tínhamos guerras, terremotos, grandes catástrofes, pestes e essas coisas todas. Não sei se Ele mudou de lugar ou se entristeceu com o nosso país, que deu poderes a um messias cruel, falso e anticristo, que atenta contra nossa vida, desde que se anunciou como mito. Com ele vivemos a era do cristo-fascismo, onde “cidadãos e cidadãs do bem” não sabem o que fazem, e blefam em nome de Deus. Tanto que vão as ruas para pedir a morte, a propagação de um vírus que alimente o capitalismo selvagem.

Tem gente passando fome? A fome mata? Mata sim e o Estado existe e deve dar conta disso. O que o Estado não deve, é promover a morte, nem pelo vírus, nem pela fome.

Ainda bem que a maioria dos gestores brasileiros, que decidem pela vida de milhares de pessoas, os lúcidos, não deram e não dão a menor ousadia a este moleque que se abancou na presidência, criando um pandemônio desde que surgiu no cenário da política brasileira.

Atacar os gestores por adotarem medidas salvadoras, é leviandade, ganância, sovinice. É desumano. Aproveitar o momento para destilar ódios, contendas, divergências políticas, é muito mesquinho. O momento é de solidariedade e apoiamento aos que estão na linha de frente desta pandemia, que nos surpreendeu a todos.

Pela vida, vamos apertar o cerco ainda mais. Das nossas casas, das nossas cidades. Vamos ser solidários, dividir o feijão, o pão, cuidar do outro, cortar nossos gastos, suportar a privação, porque isso tudo vai passar e nós queremos estar vivos para contar histórias de superação. Dinheiro? Riquezas? Lucros? E daí? Isso se conta depois.

Por Sibelle Fonseca

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