“A arte de cultivar a morte: Pandemia e Agronegócio em Casa Nova”, por Anielson Ribeiro e Lucas Oliveira

 

 

“Até quando julgareis injustamente, sustentando a causa dos ímpios? Fazei justiça ao pobre e ao órfão; justificai o aflito e o necessitado. Livrai o pobre e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios”. Salmos 82:2-4

Casa Nova é bastante conhecida por suas belíssimas dunas às margens do Rio São Francisco – um oásis encantado para o turismo. Mas, na verdade, Casa Nova é fundamentalmente um deserto. Parece uma descrição estranha para um município com quase 72 mil habitantes. Mas isso não diz respeito ao seu clima semiárido, se o povo padece sob a penúria abafada entre o “verde” do agronegócio e a desculpa da estiagem. O que evoca essa aridez é menos sua constituição geográfica do que a gestão do desaparecimento e da violência aplicada à sua população.

Diante de um quadro de pandemia global, o governo do município se mostra incapaz de articular um plano de contenção e de isolamento social que priorize as demandas populares por seguridade social (saúde, previdência e assistência social), principalmente àquelas direcionadas aos setores economicamente mais vulneráveis, cerca de 30% da população casanovense, ou seja, 13 mil pessoas em condições de vulnerabilidade social. E esse número tende a se elevar conforme a situação pandêmica do coronavírus avança. Principalmente porque as medidas restritivas afetam de forma mais dura os pequenos comerciantes e os trabalhadores informais, que sem um plano amplo de assistência ficarão desamparados. Já não basta à população ter que lidar com o boicote genocida do governo Bolsonaro ao isolamento social, ainda precisa enfrentar a lentidão na entrega dos R$ 600 para quem tem pressa e precisão. Além disso, o ministro Paulo Guedes pretende reduzir criminosamente o valor do auxílio emergencial para R$ 200. Enquanto a escolha for entre morrer de fome ou morrer de Covid-19, não existirá quarentena real. É preciso haver isolamento social com direitos sociais garantidos.

Enquanto isso, o agronegócio, principal atividade da economia no município, mantém os trabalhadores rurais, que representam 60% da força de trabalho (16 mil pessoas), aglomerados em ônibus superlotados, sem o fornecimento de EPIs adequados e no mesmo regime de produção durante uma crise sanitária que ameaça suas vidas. Vale ressaltar que as empresas agrícolas não se caracterizam como serviço essencial, visto que sua mercadoria tem destino na exportação, ou seja, não faz parte da refeição diária do brasileiro. Mas o funcionamento segue mesmo após os governos estaduais e federal anunciarem um incentivo fiscal de 6,2 bilhões de reais em isenção do ICMS.

Valor que poderia ser revertido na compra de milhares de novos respiradores por cada estado, além de viabilizar a ampliação de novos leitos de UTI e inauguração de hospitais de campanha. Seria uma ajuda mais do que bem-vinda, já que, segundo a própria prefeitura, o Hospital de Casa Nova não dispõe de UTI. Para enfrentar o vírus, conta-se com apenas 7 leitos de unidades semi-intensivas e um total de 4 respiradores. Ou seja, um hospital com a estrutura de um posto de saúde.

É certo que houve um decreto do prefeito Wilker Torres (PSB), publicado no dia 24 de março de 2020, que definia algumas normas relativas à capacidade das lotações, distanciamento em filas de ponto, em mesas de refeição etc. Mas o misto de enfraquecimento dos sindicatos pós-reforma trabalhista e a ausência de fiscalização municipal permitiu que as mesmas práticas que poderiam ser punidas com “a suspensão de licença de funcionamento” continuassem a ocorrer normalmente. Não por um acaso, foi sob essas condições de trabalho que se manifestou o primeiro caso confirmado de Covid-19 na cidade. Um jovem trabalhador rural de 33 anos residente no distrito de Santana do Sobrado.

Mesmo depois dessa confirmação, a empresa continua funcionando com total indiferença aos riscos, negando inclusive acesso à Vigilância Sanitária para o cumprimento da tarefa de testagem nos demais trabalhadores que entraram em contato com o paciente. Adiante a esse cenário, novos casos se confirmaram no município, sendo 1 caso na sede e mais 5 em Santana, totalizando 7 casos. Dentre estes, 4 pacientes são trabalhadores rurais de empresas diferentes, comprovando a vulnerabilidade em que os trabalhadores se encontram. E, mesmo diante do cenário que põe em risco a vida de centenas de trabalhadores, o poder público municipal mantém o decreto que permite a normalidade no funcionamento das grandes empresas, mostrando que o lucro vale mais que a vida e reforçando a mesma necropolítica do governo Bolsonaro.

A exposição ao vírus e o temor da contaminação elevam a tensão psicológica dentro do ambiente de trabalho. Para silenciar esse sofrimento, os patrões usam suas armas de constrangimento e de chantagens empresariais, ameaçando seus empregos e aludindo sempre à substituição pelo exército de reserva dos trabalhadores desempregados. É uma verdadeira gestão do medo. O Município não consegue sequer impor sua própria autonomia administrativa, ainda que o STF tenha declarado que governadores e prefeitos podem protocolar que modelo de contenção será usado, estabelecer quais serviços são essenciais etc. Mas esse recuo perante o agronegócio é uma das formas que o empresariado agrícola tem de cobrar o financiamento de campanha, ao mesmo tempo, da situação e da oposição casanovense. Afinal, não há como perder apostando nos dois concorrentes. Deste modo, os donos das grandes empresas possuem total controle sobre o aparato político-jurídico do município, impõem através disso o poder do desaparecimento e silenciam o grito de todo e qualquer oprimido. Assim é que uma cidade se transforma em deserto: quando nenhuma voz importa, nenhum corpo importa, nenhuma vida importa, a gente também começa a não se importar. É a técnica de cultivar a morte.

A cada dia que passa fica mais evidente que a luta emancipatória da classe trabalhadora contra seu inimigo, o capitalismo, é uma luta pela vida contra a barbárie. Mas a revanche dos invisíveis virá, e sob seus passos esse deserto florescerá.

 Anielson Ribeiro, professor e militante do Coletivo Nova Aurora e Lucas Oliveira, professor e militante do PCB.

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