Sempre Aos Domingos: “Sobre fritar bananas e superar as crenças”, por Sibelle Fonseca

 

 

Hoje, pela primeira vez na vida, fritei bananas da terra, coisa que eu sempre me recusei, por acreditar que não era uma mulher de fogo baixo, nem de banho-maria. Sou muito prática, apesar de sonhadora. E intensa ao extremo. Essas são as crenças que carrego sobre mim. Tenho pensado nelas e no quanto me limitam, me engessam, me tornam tão repetitiva, ao ponto de incomodar. E no incômodo, eu me coço, me mexo e decido fritar bananas da terra. Outro dia bati um bolo, pela primeira vez na vida, também pra cutucar minhas crenças. Faltava-me paciência pra toda aquela alquimia.

Fritando as bananas e batendo o bolo, fui pensando nos porquês das minhas crenças e no quanto elas me reduziram. Eu deveria ter fritado mais bananas e batido mais bolos nesta vida. Fazê-los requer paciência, disciplina, persistência, tolerância, boa vontade, dedicação, entrega, querer. Cortar as bananas em tirinhas é chato, na fritura o óleo respinga, queima, mexer bolo cansa o braço, untar a forma é um porre. É preciso respeitar o passo a passo e os “segredinhos” para a receita dá certo, para o bolo não solar, é preciso esperar esfriar. Para a banana ficar no ponto, é preciso deixar a gordura esquentar e para tudo é preciso esperar o tempo do tempo.

Bem como na vida.

Fiquei pensando no quanto a gente bate cabeça com a gente mesmo, e se machuca; nos muros que construímos para nós mesmos, e nos aprisionam; nas correntes e algemas que nos impomos, e impedem a expansão do que somos; nas verdades que fazem da nossa vida uma mentira; nas oportunidades perdidas; nas portas que fechamos para nós mesmos. Quantas crenças inúteis e adoecedoras carregamos!

Poderíamos ser bem maiores e melhores, se reciclássemos nossas “verdades”com frequência, se nos permitíssemos mais, nos experimentássemos mais, se exercitássemos a desconstrução de nós mesmos e a novidade não nos assombrasse.

Quais são as suas crenças? O que te limita? O que rejeita? Você é só isso que diz ser? Você é tudo isso que acha ser? Você é você ou é o que os outros disseram e dizem que você é? Quem é você no meio de toda essa trouxa de crenças que carrega? Vai continuar fazendo tudo como manda um figurino que você não desenhou? Está confortável esse modelo? Ou está pesado carregar essa trouxa de roupas imprestáveis, algumas sujas, outras que não te cabem mais e todas elas precisando de uma boa lavagem, de serem passadas a limpo, e amaciadas, em nome da leveza que sua existência necessita?

O que você precisa fritar, bater, desfazer, fazer, aprender, lavar, jogar fora … o que você precisa superar, conquistar e viver?

Pensei nisso tudo enquanto fritava bananas da terra e batia um bolo. Me deu prazer saber que não era verdade que eu não tinha paciência para tal feito. Me senti capaz, boa o bastante. Essa coisa de reinvenção faz um bem danado.

Fritar bananas e bater um bolo, coisas simples, que me inspiraram a pensar sobre o que mais posso fazer além daquilo que acredito que não posso, não sei, não quero, não consigo, e assim me reinventar.

Talvez meu próximo compromisso comigo mesmo seja pular da ponte, criar um gato, matar um rato, fazer um strip, usar roupa de oncinha ou um biquíne, atuar numa peça de teatro, pintar uma tela, fazer bainha de calça e pregar botão, aprender violão, bisquit, francês, decorar um longo poema, não ter uma resposta para tudo, nem me justificar sempre, deixar de fumar e não tragar profundo todas as minhas verdades.

Não sei, vou pensar direitinho sobre isso. Pra começar, farei um pudim neste domingo, e em banho-maria.

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente

 

 

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