Domini-qaos: “por quem os sinos dobram?”, por Lupeu Lacerda

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a)
me pergunto por quem dobram esses sinos enquanto chegamos a impressionante marca de quase DUZENTAS MIL PESSOAS mortas pelo descaso. Olho as pessoas vibrando nas ruas, lambendo as mãos da pessoa que vai empunhar o açoite depois do dia 15 de novembro e torno a me perguntar: por quem dobram esses sinos? De certeza não é pelos animais mortos nas queimadas do Pantanal e da Amazônia… o que é isso? Pantanal, Amazônia? e o carro esquisito passa: “nota de falecimento…”
e)
o vizinho lava o carro e escuta pagode baiano em volume milhão. Para os possíveis desavisados, “Pagode baiano” é um estilo de comunicação sexual com fixação na mãe de quem canta, e de quem escuta: “ai mainha, senta mainha, chupa mainha, vai mainha”. Édipo deve ter nascido em xique xique, uauá ou salvador. Penso: não posso sair de casa, respeitando a quarentena. Não tenho um trinta e oito para calar a caixa de som. Mesmo macumbeiro amador, não consigo incorporar o caboco Chuck Norris. Não posso gastar meu réu primário por conta de uma entidade que tem fixação na boceta da mãe dele. Respiro. Penso na monja Cohen. Em Rambo. Em arrumar uma casa em um lugar que as pessoas se comuniquem por libras. Eu sei… eu sou um sonhador… daqui a pouco os carros de som estarão nas ruas, dizendo em quem “não votar”.
i)
Tentar me entender ainda é meu mais doce mistério. Isso de me descobrir em cada frase proferida. Escutada. De me sentir dentro do filme e da frase do livro. Sou parte multifacetada de um eu feito devagar e sempre. Ontem me encantei com as possibilidades de um tema: máscaras/representações do eu. Do tu. Do ele. Nós… tem muito nó para desatar até que a corda fique solta. Porque assim que acende o dia eu ligo o meu eu de representar: eu. Pai. Irmão. Amigo. Sem saber se o outro: eu, tu, ele, nós, vós, eles decoraram sua fala. De qualquer jeito encaro a plateia. Uns dias, seguro. Outros, nem tanto.
o)
Enxergando menos durante uns dias, saquei o recado de lá de cima: “olhe mais de perto”. Decido ler o livro inteiro. Ver se entendo mais o papel, se me transfiguro até que eu seja minha palavra. E que ela sozinha fale por mim independente da minha presença. É isso. Quero chegar a ser só uma palavra. Um som. E que deus sente em uma cadeira em minha frente. E que o diabo distribua a bebida e os dados. Vamos jogar. O que está em jogo é a alegria. A marca sagrada. A prova dos nove. Representemos então. A VIDA!
u)
Hoje não verei filhas. Uma delas convalesce de uma extração de dentes “siso”. Dentes de “ter juízo”. Quando será que a humanidade vai extrair seus dentes siso? Penso essas besteiras enquanto circulo em minha mini casa e tento abstrair o tezão incessante do vizinho pela sua esquisita mãe. As vezes penso, nas minhas besteiras, que sim, essa porra não é real. E sim, essa porra é o inferno de um planeta não plano infinitamente melhor. E sim, essa porra é só um peça de teatro ruim pra caralho em que a plateia é o personagem. E, como se diz no teatro desejando sorte: merda pra mim. Merda pra vocês.
z)
ontem o professor Otoniel Gondim foi embora na nave que leva os doidos. Lembro de sua casa, no Crato, lembro dos risos, das cervejas. Lembro de Luiz Claudio, o outro professor. Eles dois eram uma dupla de anti-heróis. Caso haja acaso um outro lado, se encontraram, devem estar jogando xadrez. E dizendo, entre risadas: que bobagem é entender a vida porra, basta viver!
por quem os sinos dobram?
Lupeu Lacerda, escritor

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