“Identidade racial: o meu antes, e o meu depois”, por Thiago Santos

(foto: Yane Andrade/@ajurocblack)

Durante a minha infância e adolescência, a frase “eu sou negro” nunca fez parte do meu vocabulário. Para mim, e para quem estava ao meu redor, era apenas um “moreno da pele escura”. Isso nunca foi um problema para mim, até o momento em que passei a perceber como são perversas as nuances do racismo.

A verdade é que existe uma certa complexidade em ser negro em uma sociedade marcadamente racista onde, a essa ‘condição’, lhes são atribuídas a inferioridade, a incompetência, a feiura pelos traços físicos. Para alguns, que acredito que não seja a maioria, reconhecer-se como negro pode ser uma tarefa fácil. Mas creio que isso só acontece quando se vem de um berço familiar onde discussões relacionadas à identidade racial já são presentes. Eu não tive esse privilégio.

Identidade racial?

Sim, eu nasci em uma família negra, de classe média baixa. Estudei em colégio particular durante minha vida toda – embora como bolsista parcial e integral – mas nunca tive acesso à esse tipo de debate. Não me vem à cabeça, nenhuma memória – repito, nenhuma – sobre um momento em que esse assunto chegou a ser motivo de qualquer tipo de debate dentro e fora da sala de aula. Nenhuma! Nunca soube, muito menos, tinha ouvido falar, sobre essa tal de “identidade racial”.

Como questionar a história eurocêntrica estampada em cada um dos livros de História a qual temos acesso na escola?

Não, não foram os livros da plataforma de educação considerada como uma das melhores do Brasil que me possibilitaram ver o outra versão dos fatos. Também não foram as aulas de História, muito menos a instituição de ensino, também considerada uma das melhores da cidade e da região, que me proporcionaram isso.

Nascido e criado em Senhor do Bonfim, cidade do Norte da Bahia. Município que abarca a comunidade negra rural de Tijuaçu, reconhecida oficialmente como comunidade Quilombola em 2014. Apesar dessa proximidade, isso não representou, em nenhum momento, uma possibilidade de me reconhecer enquanto uma pessoa negra. O motivo? O preconceito.

Na minha época de criança e adolescente – não sei se isso hoje em dia isso ainda é comum – ser associado à comunidade Quilombola era sinônimo de inferioridade. Os negros? Viviam lá, nessa comunidade. Falavam “diferente”. Usavam “coisas” na cabeça. Na cidade, viviam os morenos de peles claras e escuras.

Lembro-me de um episódio de quando questionei à minha madrinha: “Tia (assim eu a chamava), eles falam a mesma língua que a gente?”. Também recordo-me de quando minha mãe colocou, pela primeira vez, suas tranças no cabelo…. “Você é do Tijuaçu?”, questionavam. E eu? Sentia vergonha.

Não descrevo essas situações com orgulho. Pelo contrário. Sinto vergonha, embora hoje reconhecendo que também fui vítima de uma sociedade que quer, a todo custo, impregnar em nossas cabeças “o quão é ruim ser negro”. Também não quero culpar ninguém. Todos também são vítimas!

Repito, nada disso me orgulha!

Diferente de como falei no início do texto, hoje, “eu sou negro” faz, mais que nunca, parte do meu vocabulário. E reconheço que isso se deu gradativamente, e, principalmente, por um motivo: fui privilegiado de frequentar uma universidade pública. Sim, privilegiado. Quantos de nós estão ocupando ou já ocuparam esse espaço?

Foi a partir dela, a qual faço questão de citar o nome – Universidade do Estado da Bahia, Campus III, em Juazeiro-BA – que me encontrei. Foi a partir dela que tive acesso às discussões, que ouvi, pela primeira vez, sobre “identidade racial”. Foi após entrar nela que pude, pela primeira vez, dizer, com certo alívio, “eu sou negro”.

Foi lá que pude conhecer pessoas – algumas, inclusive, que passaram por um processo semelhante ao meu – que me fizeram, direta ou indiretamente, descobrir quem eu sou de verdade, fortalecendo, cada vez mais, a minha identidade. Como eu queria que todos os jovens negros tivessem essa mesma oportunidade que eu tive.

Mas também foi após ter acesso a todo esse volume de informações, que pude entender o racismo e suas facetas. Foi quando pude sentir na pele, o que é o racismo. Digo isso considerando que muito provavelmente, antes, eu tenha sofrido episódios racistas, só, talvez, não tenha percebido, afinal nem tudo acontece de forma escancarada em nossa cara.

Mas sei que, o que passei, foram situações extremamente dolorosas. Doeram. Corroeram por dentro. Me fizeram derramar muitas lágrimas. E sei que, infelizmente, não vai parar por aqui.

Hoje, entendo que a entrada no ambiente universitário foi apenas um ponta pé para todo esse processo de desconstrução.

DESCONSTRUÇÃO! Essa é a palavra certa.

Por muito tempo, tentei esconder quem eu era. Ou melhor, me fizeram esconder. A formação da minha identidade negra perpassa por um processo – longo e doloroso, porém libertador – de ruptura com os estigmas históricos que insistem em nos subjugar. Nos menosprezar. Nos desqualificar. Nos dizer que não somos bonitos.

É preciso quebrar o tal padrão estético-cultural eurocêntrico. Uma tarefa ardilosa, mas que ajuda a compreender a lógica das relações raciais. A conscientização de ser negro é, antes de tudo, uma posição política. Valorizar o trabalho de pessoas negras – seja de qual for o segmento -, também é um trabalho político.

São questões pessoais que acredito que retratam um pouco do que é a nossa sociedade. De como ela nos faz sentir. De como ela tenta nos transformar. Às vezes, só precisamos de um ponta pé inicial. Pena que nem todo mundo tem esse privilégio. E é por isso que, quem tem, precisa entender o lugar que ocupa, onde chegou, e assumir responsabilidades.

Minha intenção não foi fazer um texto de palavras bonitas e rebuscadas. Assim como também não é um texto de um especialista. É mais um desabafo.

Um texto de quem acordou inspirado para relatar um pouco do que viveu, e vive. Um texto de quem, hoje, se olha no espelho, se elogia, aceita seus traços físicos, aceita seu cabelo crespo – lindo, diga-se de passagem -, e a sua cor da pele.

Só quem sabe o quão é libertador se olhar no espelho e ser feliz com a própria imagem, sabe do que eu estou falando. Só quem ouve um “me inspirei em você e deixei meu cabelo crescer”, sabe do que eu estou falando falando. Só quem passou e passa por situações parecidas, sabe do que eu estou falando. E talvez sinta a mesma dor.

E foi por isso que eu quis falar. Desabafar.

Esse é um texto de quem se reconheceu. Um texto de quem sente as dores do racismo. Um texto de quem hoje não mais esconde quem verdadeiramente é.  Apenas um texto de quem entende que a luta não para aqui. Um texto de quem tem muito o que descontruir, e principalmente, o que aprender.

Vidas negras? Sim, elas importam. Sempre importaram!

João Alberto, presente!

Thiago Santos, jovem, negro e jornalista

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