Entre as doses homeopáticas, uma cavalar: pastor evangélico assinará a pasta da Mulher e da Diversidade, em Juazeiro (BA)

(Foto reprodução)

A pingada lista de secretários da prefeita eleita Suzana ainda não terminou. Até o fechamento desta matéria, 15 nomes tinham sido divulgados nas redes sociais da nova gestora. Faltam alguns. O marketing de Suzana adotou uma estratégia “inovadora”, de divulgar os futuros secretários, em doses homeopáticas. De hora em hora, de duas em duas, os nomes iam sendo administrados para os juazeirenses, ansiosos em saber como o município vai “Suzanar”.

Na lista dos 15, fora estão algumas apostas de apoiadores com “perfil” para os cargos; dentro, sobrenomes e parentescos previsíveis. Da família Cordeiro do vice já tem dois, fora a esposa de um colaborador, visto frequentemente dirigindo para Leonardo Bandeira. Da família de Suzana, genro, enteado, um amigo antigo e de muita confiança dos Spinola Ramos. Tem nome importado de Petrolina, por indicação do prefeito de lá. E agora vai, agora o “bairro de Petrolina” deve ir pra frente. Tem outros nomes técnicos, novos nomes, o que é salutar. Não questiono aqui a capacidade de ninguém, é só para registrar que a “velha política” de apadrinhar os seus ainda está valendo, como também estão valendo os acordos de campanha. E tem gente que acha que dever ser assim mesmo.

Confesso que fiquei animada com os três nomes de mulheres que figuram na lista, até agora. Uma ex-petista, militante, uma jovem jornalista antenada com as pautas feministas e uma mulher estatutária do órgão que vai comandar. Assumiram um espaço de poder, e isso eu comemoro.

Mas meu contentamento foi sanado por uma dose cavalar. No meio da lista tinha um pastor, terrivelmente evangélico (parafraseando Bolsonaro), para comandar a Secretaria de Desenvolvimento Social, Mulher e Diversidade.

Alguns internautas, abismados, estão classificando a indicação como “piada pronta”. Eu classifico como piada de muito mal gosto, ou talvez uma afronta às minorias de direitos que lutam por representatividade (mulheres, comunidade LGBTQIA+, povos de terreiros e demais diversos).

Conheço o que pensa Teobaldo de Jesus, o pastor, há pelo menos uns 30 anos. Pessoalmente, em entrevistas ou conversas informais, já pudemos dialogar sobre identidade de gênero, demandas feministas, papel da mulher na sociedade, sexualidade e outras religiões. Ele é bem fundamentalista. E como tal, um conservador religioso que interpreta literalmente os livros sagrados.

Lembro-me de alguns embates que tivemos neste sentido. Ele tentando me convencer de seus dogmas e eu rebatendo, tentando conectar os ensinamentos bíblicos do pastor à realidade. Apontando algumas contradições da retórica de Teobaldo, em relação a mensagem de amor e igualdade pregada por Jesus.

Lembro-me que o pastor me falou do perfil de “mulher virtuosa”, e foi aí que eu encerrei a conversa, uma das últimas que tivemos, anos atrás. Eu já andava cansada, desde aí, de trocar ideia com pessoas de verdades prontas, à luz da bíblia, que também reproduz uma sociedade machista, homofóbica, racista, excludente e de privilégios.

“Mimimi”? Ok! Vocês não sabem o que dizem, não sentem a dor na pele, não sabem o que é ver suas existências condenadas todos os dias, na fila do pão ou dentro de casa mesmo. Vou morrer com esse “mimimi” e não estou nem aí para vocês que, não sabendo do que se trata, e sem conseguir sair da superficialidade, tratam de pensar e escrever com ódio e ofensas nos comentários. Me junto ao filósofo italiano Umberto Eco, quando afirmou que “as redes sociais dão o direito à palavra a uma ‘legião de imbecis’ que antes falavam apenas em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.  Alguns de vocês dirão “mas que filósofo que nada”, ” esse filósofo é comunista”, assim como negam a ciência.

Teobaldo, teólogo, é sim um homem caridoso. Segundo a assessoria de Suzana Ramos, ele “tem forte atuação na área social do Vale do São Francisco”, sem dizer quais, a Ascom informou que o pastor “desenvolveu diversas ações nesse segmento há três décadas, tendo sido parceiro na criação de vários projetos de inclusão em Juazeiro e região”.

Preciso lembrar que caridade, filantropia e voluntariado, são bem diferentes de políticas públicas voltadas para a garantia de direitos dos cidadãos e cidadãs. Acabou o tempo de sopões, doações, bem ao estilo do “primeiro- damismo”, caracterizado pelo histórico do ‘não direito’, do favor.

A Assistência Social, apesar de ter sido reconhecida como política pública na Constituição Federal de 1988, somente  com a implantação do SUAS, através da PNAS de 2004, se contrapôs às práticas emergenciais de compaixão e personalismos para enfrentar as desigualdades sociais, através de serviços e benefícios socio-assistenciais.

Foi uma luta dos movimentos de mulheres de Juazeiro, e que eu participei ativamente como Conselheira da Mulher, função sem remuneração, a conquista de uma secretaria municipal que contemplasse as mulheres. Foi uma luta do movimento LGBTQIA+ a conquista de uma secretaria municipal que contemplasse este público, e também a diversidade religiosa. Foi um avanço.

Nos últimos anos três mulheres estiveram à frente da pasta, o que é bastante lógico. Isso significa representatividade. Quando aquele que fala em nome do coletivo o faz comprometido, alinhado com as demandas, a subjetividade e necessidades dos representados.

Os dogmas religiosos chocam com luta das mulheres. Desde os primórdios do cristianismo, os líderes da Igreja possuem traços anti feministas. A mulher, considerada como sinônimo de perdição. Para Tertuliano, “a porta do Demônio”, e vista como “um ser acidental e falho e que seu destino é o de viver sob a tutela de um homem, por natureza é inferior em força e dignidade”, como disse São Tomas de Aquino.

Não há representatividade no nome do pastor, agora secretário também de Mulher e Diversidade. Vai na contramão. Quem mais entende os interesses e necessidades das mulheres se não uma mulher? Este espaço de poder foi usurpado das mulheres.

Este espaço de poder foi usurpado da diversidade. Os povos de terreiros, historicamente satanizados, serão ouvidos e atendidos pelo evangélico? Quais as políticas públicas para eles e elas? As celebrações da gestão serão ecumênicas, com mãe de santo na mesa também? Como será vivenciado o Dia Municipal dos Povos de Terreiros, lei municipal, por exemplo? Como serão recebidos os gays, as lésbicas, trans e travestis no gabinete do secretário?

Teobaldo, homem inteligente e que apoiou Bolsonaro, deve ter alguma afinidade de pensamento com o presidente. E o que este inqualificável pensa sobre mulheres, gays, índios, diversos e todo o “resto”, já se sabe.

Teobaldo gravou um vídeo justificando a rejeição expressa nas redes sociais, com uma laranja e uma pergunta: “esta laranja é doce ou azeda? Só vai saber quem provar”, respondeu o pastor.

Ele também disse que muitos irão “morder a própria língua por ter feito juízo de valor sobre o que não conhecem”, e afirmou que dará prioridade aos  “pobres”, para “diminuir o impacto da miséria e da pobreza na cidade”.

Não perca de vista, pastor, que há outras misérias e pobrezas, mazelas e chagas, nesta sociedade tão desigual, tão segregadora, preconceituosa e anti-cristã.

Quanto a pergunta da laranja, dou-me ao direito de respondê-la: Eu não preciso provar uma laranja para saber das suas propriedades.

É, a primeira mulher prefeita da minha cidade não pensa como eu. Pior pra mim.

Da Redação por Sibelle Fonseca

4 Comentários

  • Adriel Cândido disse:

    Claro, a Prefeita deveria nomear uma mulher negra, lésbica e sei lá mais o quê, só para agradar os “istas” ou os/as “istas/os como vocês gostam de falar. Esses seres que se acham mais privilegiados que outros pensam que o mundo gira em torno deles. Com esse discursinho prepotente de igualdade que só serve para causar mais desigualdade. Esses/os/as istas/os são os verdadeiros responsáveis por causar ainda mais preconceito e discriminação de todo tipo. Hipócritas e falsos moralistas que falam tanto em igualdades mas querem as coisas bem separadas, como agua e óleo. Para vocês só é igualdade se tiver lgbtaz, negro, feminista (machista?). Para vocês só existe elos/elas, crenças/crenços, negros/negras. Só idiotices.
    Mesmo com diferenças culturais, somos humanos. Mesmo com nossas diversidade de tonalidade de olhos, pele, cabelo, dentes, somos humanos.
    Mesmo com nossas diferenças de se comportar, amar e viver, somos humanas.
    Somos da mesma matéria, da mesma natureza.
    Somos inseparáveis, pela infelicidade de vocês, istas/os.
    Somos humanos, com toda a beleza e diversidade de todo tipo. E isso é o que importa. Não essas idiotices que vocês, istas/os pregam.

  • Cosme disse:

    Bon texto de Sibele Fonseca

  • Álvaro Luiz disse:

    Bela análise, extremamente precisa. Infelizmente já esperávamos um governo assim. Torço, apesar de não acreditar, para que o trio Joseph, seu filho e o Tiririca do Vale tenham pouco poder sobre o Governo e as decisões de Suzana. Quem sabe assim, ao afinal de 4 anos posso vir aqui e dizer que me enganei e parabenizar Suzana por um belo governo.

  • Roberto Silva disse:

    Triste ver Juazeiro patinar no mesmo erro do Brasil. Como se comportou a vereadora antes de ser eleita prefeita? Pra mim é mais do mesmo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.