Sempre Aos Domingos, no Dia da Poesia: “Tristeza, medo, esperança e meu agradecimento a Pedro Alcântara”

 

Que poesia pode existir neste 14 de março de 2021? Milhares de vidas, que eu não conhecia e sinto demais, foram dizimadas nesta pandemia do vírus que, há pouco mais de um ano, nos aterroriza. Centenas de pessoas do meu universo se foram e eu nem pude ir levar meu abraço para a família.

Ontem foi Marcão, irmão de Xuca, Enalva, Bráulio e outros do meu velho Santo Antônio. Semana passada, foi Jorge Evilásio, meu irmão editor dos tempos de TV Norte. Mas também já perdi minha musa nas letras, Antonila da França Cardoso, Zeca Tanuri, um gentleman do meu coração. Flávio Luiz, com quem eu gostava de disputar meu amor por juazeiro, se foi também, no auge do sonho de ter sua cidade mais na mão. Onias, juazeirense sonhador, se foi também assim. O rei momo Josalan, que me alegrou tanto, nas entrevistas de carnaval, não venceu. Meu chaveiro Sávio socorrista do arco da ponte, sucumbiu. E tantos outros seus e meus que vão ganhando nomes, nesta perda, sem freios, de vidas, da gente.

Uns viraram cinzas, outros foram para cova. Todos vivenciaram, ainda mais solitariamente, a solidão da morte. Os gestores de Juazeiro, ex e atual, contraíram. O gari também se contaminou. Essa doença iguala. Ela não escolhe, não diferencia, não poupa ninguém. Ela é traiçoeira, chega em uns amena, noutros é letal. Ela nos iguala também no medo. O mesmo que eu, privilegiada por ganhar meu pão em casa, e poder ficar praticamente isolada, compartilho com minha irmã Vaníria Brandão, que trabalha em uma unidade da covid 19, e vive em volta deles, os vírus. Nosso medo, talvez, seja maior do que o medo dos negacionistas, aquele povo terraplanista da cloroquina, mas eu sei que, no fundo, eles têm medo também.

A gente bem que poderia ter aproveitado estes tempos de pandemia, para sermos melhores seres humanos. Poderíamos ter aprendido essa coisa que o vírus tem de nos igualar, e nos desinfectarmos da nossa soberba, do orgulho, das maldades e vaidades, do egoísmo, da prepotência e superficialidades. Mas parece que nem este inferno que estamos vivendo, foi ainda suficiente pra ensinar a tanta gente, que essencial mesmo é a vida. Uma ou muitas vidas, importam. Imaginem quase 300 mil vidas, hein? Como elas importam para tantos outros que morreram muito, também, com a morte dos seus, e sem nem poderem se despedir.

Minha poesia hoje é falando de tristeza sim. Não posso ter outro sentimento. Penso nos enlutados, nas vidas interrompidas, me inundo destas lágrimas, os choros ecoam em mim. Não tenho o que celebrar. Festejar o que? Nem com Jesus, ao lado, eu postaria uma foto com a legenda de que “estou muito feliz”. Nem se eu tivesse no céu eu postaria, imagine numa lancha ou numa festa top.

Sim, falo do medo que nos ronda. Um espirro, e o meu coração aperta. O engasgo com água, vira logo a tosse que eu temo tanto. Uma crise de garganta, meu pai, me faz ver a morte. E a palavra “respirador” me tira o ar. Tenho medo de arrumar as gavetas, vir a rinite, e eu ficar no susto. Tenho medo de abraçar meu amigo. De beijar quem eu deseje. Medo de pegar na mão, no pacote do supermercado, no pão, no cigarro e até a cerveja, me dá medo, na primeira impressão.

Medo de não acordar pra trabalhar. Medo de não dormir na minha cama esta noite. Medo de abrir meu celular e ler a mensagem de um amigo “estou com covid”. Meu Deus! 14 dias isolado, sozinho num quarto? Medo de não poder (por 14 dias ou para sempre) fazer o café da manhã de meu filho que tanto precisa de mim. Medo de nem ter tempo para pensar se posto este texto agora, ou deixo para amanhã.

Sei que a morte é iminente, por vida. Sei também que ela nunca deixou de ser imediata e viver ao lado. Mas, nestes 53 anos de idade, jamais respirei a morte tão forte assim. Dentro e fora de uma máscara, mais ainda, está a morte. Nunca a vi tão onipresente, onisciente, invisível. Uma ameaça real e assustadora. Pior: não tem nem a quem prestar queixa desta ameaça.

Minha poesia de hoje é falando de medo sim. De perder a minha vida, as vidas daqueles (as) que amo, e de perder mais vidas que eu nem conheço.

Mas, eu, a quem chamam de coragem, digo que faço do medo, autoproteção. Na medida, do mais que possível, tento não encontrar com o vírus. Álcool virou água. Máscara, um anjo da guarda.

Eu, a quem também ouço dizer que tem muito de arte, preciso terminar essa conversa, falando de esperança.

Aquela esperança que sinto, toda vez que vejo um senhor de Campo Alegre, juazeirense de lascar o cano, vivíssimo, do alto dos seus 73 anos, comandando a chegada das vacinas na região.

De madrugada nos aéreos, no sol a pino da repartição, a noitinha passando boletins, esse senhor do grupo prioritário, mais parece um jovem, bem mais jovem do que eu, alegre, destemido, e muito esperançoso em dias mais seguros.

Dando exemplo de empatia, senso de coletividade, coragem e resistência, bem antes de se vacinar, nestes tempos tão difíceis de uma pandemia que só cresce, minha poesia neste 14, se personifica em Pedro Alcântara, coordenador do Núcleo Norte de Saúde da Bahia, que se quisesse já estaria aposentado, esse teimoso.

Me inspira vida, o rapazinho. Peço que Nossa Senhora Das Grotas Rainha dos Anjos, o protejam e a todos nós filhos de Juazeiro e Petrolina, também!

Como o amor, as máscaras salvam! Use-as! A empatia e a esperança salvam também.

Sibelle Fonseca é radialista, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, conselheira da mulher, mãe de quatro filhos, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante da vida e de gente

3 Comentários

  • Edvaldo Franciolli disse:

    Texto belo e bem escrito. Emocionante! Chorei ao ler. Parabéns grande profissional Sibele Fonseca. Mulher das letras desde a adolescência no Colégio Diocesano Dom Bosco onde era campeã nos concursos literários. Deus te abençoe grandemente.

  • Waldenir Britto disse:

    Bravo menina!! Suas palavras emocionam, trazem reflexões, verdades, alento, esperança!! Bom saber que ainda existe humanidade espalhada por aí, em pessoas com vc!!! Compartilho com vc seu medo, seu cuidado, sua dor de perder amigos e perder pessoas que são importantes na vida de alguém, mas também a expectativa de que vamos superar, pois existem pessoas que trazem e refletem para todos nós, o senso de humanidade!!

  • Jacy Sampa disse:

    No mercado da gratidão a cotação esta em alta.
    Pelo visto seu texto foi o que venceu. Sua maestria com palavras transformadorasnos ensina que ainda há tempo de superar e ser grato.

    Não é por acaso que o assunto gratidão tem sido tão comentado, pois seu potencial é transformador.
    Se cada um de nós agradecesse pelo que tem, saberia valorizar muito mais cada nova conquista.E Pedro Alcantra merece toda nossa gratidão.
    Como vc bem diz no texto ele deveria esta em casa com a família porém, esta cuidando das pessoas. Buscando vacinas.
    Esse médico que sempre se preocupa conosco desde. 1993.
    Obrigada Dr.Pedro!

    E, quando falamos de gratidão, também estamos fazendo menção a palavras como agradecimento, reconhecimento e valorização.
    São todos sinônimos que ajudam a entender o potencial do simples fato de ser grato.

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