“Sim, o amor ao próximo é essencial”, por Sibelle Fonseca      

 

Terça-feira, 23 de março. 2021. Há pouco mais de um ano o medo se instalou no mundo. Passou a ser o sentimento de rotina, e o perigo, a morar no ar que respiramos. Também na mão do amigo, no beijo do filho, no toque da mãe e na benção do pai.

A ameaça constante a nossa segurança e a segurança dos que amamos, ativa nosso cérebro, involuntariamente, e as reações são as mais diversas. Passamos a andar assustados, batimentos cardíacos acelerados, em estado de alerta.

Inconscientemente, o sentimento de medo nos prepara para duas prováveis reações naturais: O confronto ou a fuga.

E o medo que protege é o mesmo que mata.

Nestes dias puxados de pandemia do novo coronavírus, quando o Brasil se aproxima de quase 300 mil vidas perdidas, pessoas morrendo sem a assistência de um leito de UTI, sistema de saúde entrando em colapso, também aqui na nossa região, precisamos transformar o medo em proteção. Não há mais como fugir, como negar e nem negligenciar mais. Foi esse negacionismo que fez do Brasil o epicentro da pandemia no mundo. Nosso triste status de agora. Nunca foi uma gripezinha.

É esse negacionismo que faz faltar oxigênio, insumos hospitalares, respiradores, leitos e vacinas.

O mecanismo de negação utilizado pelo presidente  da Republica brasileira, Jair Bolsonaro, acabou inspirando aglomerações nas caminhadas políticas das eleições, nas baladas tops, nas viagens e confraternizações de final de ano e nos dias de carnaval. A juventude colou no deboche do presidente e caiu na farra, levando o vírus pra casa e matando os avós. O discurso do presidente fez muita gente rejeitar a máscara e minimizar a força de contágio do poderoso vírus. A bomba estourou, já era esperado. E estoura bem nos nossos pés, a cada boletim divulgado pelas secretarias de saúde, com números  crescentes de novos casos e mortes.

Ações descoordenadas com os estados, ataques aos governadores, a ciência, a mídia, a imprensa, chacota com o sofrimento do povo brasileiro, falta de empatia com a dor de milhares de famílias. Desde o início, sem o menor controle, sem coordenação. Sem a menor união para vencer o inimigo comum. Foi no cada um por si. Na ausência de piloto, governadores foram apertando os cintos como bem podiam e entendiam.

O Brasil foi um amador diante desta pandemia devastadora. Um vexame mundial. O que faltou para chegarmos ao ponto em que chegamos? Sobrou desumanidade, irresponsabilidade com a vida. A ignorância fez escola.

O resultado disto é que a segunda onda veio. Subestimaram a pandemia. Fecharam hospitais, desinstalaram leitos, findaram o Auxílio Emergencial. E o caos está instalado, sem logística, com profissionais de saúde exaustos.

Faltaram políticas públicas para elastecer leitos, vacinas, respiradores, e o boleto da conta chegou, primeiramente aos pacientes que estão morrendo, mas também a nós outros que podemos ser os próximos escolhidos para viver ou morrer.

Os empresários dizem que estão falindo por conta de medidas restritivas de longo prazo, sem uma resolução. Mas agora é hora de se envidar todos os esforços para reduzir a curva extremamente ascendente. As medidas mais restritivas podem nos salvar.

Estamos vivendo o pior momento, com vírus ativo, muito mais potente.

Enquanto a vacina não chegar de forma efetiva a todos, poderemos ter novas e novas CEPAS do vírus. E os protestos de agora, a luta necessária neste momento, deveria ser por uma vacinação ágil, que salvaria vidas e a economia do país.

Enquanto os cemitérios já não cabem mais tantas histórias de vidas para enterrar, e outros morrem asfixiados nas filas de regulação, no pior momento da pandemia, ainda há quem questione o que é ou não essencial, e ataque os gestores por adotarem medidas mais duras de contenção do vírus .

Essencial é a vida, ou não? E se vidas estão em risco, qualquer sacrifício ainda é pouco. Uns dias de comércio fechado, ainda que os decretos apresentem contradições nos critérios, não deveria gerar tanta revolta. CNPJOTAS poderão ser recuperados, Já os CPFS viram atestados de óbitos.

Em um ano a gente não aprendeu sobre conscientização coletiva. Não abraçamos o objetivo comum de preservar vidas.

O momento é de união, de somar forças, de enfrentar junto essa crise sanitária, sem precedentes e ainda sem dimensão. Poderes públicos, empresas e sociedade, todos e todas, em atitudes orquestradas pelo bem da coletividade.

Precisamos sair melhores seremos humanos destes tempos de horror. Mais solidários, mais justos, mais elevados.

Precisamos ressignificar nosso medo. Transformá-lo em coragem.

Coragem, que é a resistência ao medo, o domínio do medo.

Coragem que é antes de tudo, alimentar diariamente a nossa fé, a nossa esperança. O amor ao próximo.

Sim, o amor ao próximo é essencial.

E como disse Paulo Freire, amar é um ato de coragem!

Da Redação por Sibelle Fonseca/ Foto ilustração

 

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