Manejo dos recursos hídricos e dos efluentes: tecnologias ecológicas alternativas de convivência com a seca e assistência ao saneamento básico rural, por Carol Tonizza

Gestão eficaz, abastecimento de água potável e saneamento básico são os constituintes mais críticos para a sustentabilidade e, sobretudo, para o desenvolvimento social. Considerando que a água é um recurso necessário e ao mesmo tempo um contexto econômico, social e político; a escassez desse recurso leva à reveses e gera um desequilíbrio na oferta e na demanda de água.

O território brasileiro apresenta uma distribuição de água muito irregular devido à influência de vários processos climatológicos. Um exemplo disso é evidenciado fazendo um comparativo entre as regiões administrativas brasileiras. Enquanto que na região Norte há uma concentração de 80% de toda vazão hídrica e apresenta o menor contingente populacional do país, a região Nordeste conta com um déficit acentuado por água e é a segunda região mais populosa do país.

Diante desse aspecto, no Nordeste a situação ainda é mais grave. No interior dessa região está inserido o semiárido com a maior população do mundo da qual é castigada por carência hídrica já que a distribuição do regime de chuvas apresenta variabilidade espaço-temporal, fazendo que seja mal distribuída, no que influencia na pouca quantidade de água. Além disso, não bastando a precariedade hídrica, os serviços de saneamento básico se mostram inexistentes ou precários.

Consequentemente, o semiárido apresenta um índice três vezes maior comparado a média nacional de domicílios sem esgotamento sanitário, de acordo com o Relatório da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, publicado em 2017.

Considerando, por exemplo, o estado de Pernambuco apenas 6% da zona rural é atendida com algum tipo de sistema de esgotamento sanitário, segundo avaliação feita pelo Projeto Pernambuco Rural Sustentável (2014). Adicionalmente, de acordo com o relatório de saneamento do Instituto Trata Brasil (2018), 1.744.238 pernambucanos residentes na zona rural não são assistidos pelo direito universal ao saneamento básico. Para piorar, devido à carência de informações específicas sobre as áreas rurais do país, onde há maior desprovimento de políticas públicas, acredita-se que este número seja subestimado.

Em relação ao estado da Bahia, frisa-se o protagonismo de ser um dos estados que mais contribuiu para a produção da agricultura irrigada, por outro lado, a Bahia também configura como um dos estados que mais apresentaram conflitos pela água no Brasil, segundo demonstrado pelo Relatório Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil (2021). Em consonância a isso, segundo o mesmo relatório, publicado em 2019, o aumento da produtividade na agricultura intensifica a utilização de produtos agrotóxicos, assim como aumentam os casos de intoxicação, podendo ser oriunda da lixiviação para águas superficiais, principalmente, fazendo com que o estado de Pernambuco ficasse em 4° lugar em notificação de intoxicação por agrotóxicos.

Considerando essa realidade e a pouca oferta de reservatórios hídricos naturais para captação de água na zona rural do semiárido, o uso de tecnologias ecológicas, com o objetivo de propor uma redução na poluição da água e torná-la reutilizável, poderia diminuir as consequências da falta de água e evitaria efeitos adversos na saúde da população. Além disso, no semiárido é comum o uso de águas de lagoas para irrigação da agricultura de subsistência que se encontram com elevada carga de sais, podendo levar à salinização do solo do pequeno produtor rural.

A introdução de um sistema de esgotamento biológico usando minhocas-californianas, por exemplo, é uma das tecnologias ecológicas que pode ser aplicada. Também conhecido como vermifiltro ou sistema bioágua, constitui em um tanque vertical composto de várias camadas sucessivas de substratos que retêm matéria orgânica, fazendo com que seja digerida pelas minhocas e assegurando a permeabilidade do sistema.

A água cinza utilizada na propriedade rural, oriunda de pias do banheiro e da cozinha, por exemplo, pode ser processada nesse sistema e ser estocada para irrigação de culturas de subsistência e devido ao alto teor de nitrogênio na água, promovido pelas minhocas, faz com que ocorra um processo de fertirrigação natural, abrindo mão do uso de químicos nas atividades agrícolas.

Os filtros de drenagem hídrica de solos (DHS) são outra tecnologia bastante proveitosa, nos quais são preenchidos por camadas de pedregulho, brita, areia e carvão para o tratamento do efluente domiciliar, gerando uma água de reúso. Essas camadas, assim como o bioágua, citado anteriormente, promove a retenção de sais que estão contidos na água e estancam a matéria orgânica indesejável, evitando que não seja aspergido diretamente na produção agrícola do produtor rural. Além disso, esses sistemas são eficientes para promoção da limpeza do efluente de produtos de limpezas e essas tecnologias ecológicas mostram-se com alto potencial de aplicação, já que cerca de 50 a 80% do efluente doméstico é composto de água cinza.

As fossas ecológicas também atendem de maneira simples e barata a possibilidade de reúso de efluentes domésticos, assim como o manejo correto de esgoto e captação eficiente.

A construção desses sistemas permite com que os residentes do domicílio não sejam expostos às doenças de veiculação hídrica por falta de esgotamento sanitário domiciliar. A fossa ecológica trata a água recebida e protege o meio ambiente sem que o efluente tenha nenhum contato com o solo. A água tratada é um excelente fertilizante e também pode ser utilizada na irrigação ou lançada em sumidouros, caso deseja-se devolver o líquido para o ambiente adjacente.

Para a estocagem da água da chuva em tempos de cheias, além do uso de cisternas, que já são muito difundidas no semiárido, pode ser citado o uso de barraginhas.

Estas pequenas bacias escavadas no solo de formato circular podem ser construídas no meio da área agricultável e permite a estocagem de água de chuvas. Além da vantagem de controle da erosão e armazenagem da água no subsolo, promovendo, assim, melhorias sociais e possibilidade de sustentar pequenas lavouras familiares. Além das barraginhas poderem ser reabastecidas por água de cisternas, são sistemas de baixo custo e sustentáveis funcionando como esponjas que permitem o umedecimento do solo viabilizando o cultivo de lavouras no seu entorno.

A fitorremediação tem aptidão para reutilização da água domiciliar. Uma das tecnologias que utiliza a propriedade de remoção dos contaminantes do ambiente através das plantas é as wetlands construídas, também chamadas de zona de raízes.

Esses sistema pode ser instalado em caixas d’água de PVC ou em tanques de alvenaria na qual são utilizadas uma ou várias plantas aquáticas, também conhecidas como macrófitas aquáticas, desde as enraizadas até as flutuantes, podendo haver camadas de solos filtrantes. Uma das vantagens da utilização dessa tecnologia é que as macrófitas podem ser coletadas no próprio rio São Francisco e vegetados nesses tanques. Além disso, as wetlands construídas apresentam as seguintes características de alta eficiência, independência de demanda de energia elétrica, ausência de poluentes secundários, baixo custo de operação, geração de biomassa vegetal utilizável na compostagem e fornece valor estético.

O biofilme microbiano também pode ser destacado como um método ecológico de baixo custo e com inúmeras vantagens.

São tanques compostos de substratos artificiais para adesão de uma assembleia de microrganismos que promovem a depuração de baixa carga de poluentes orgânicos e inorgânicos. Os biofilmes são eficientes, principalmente, para atividades de piscicultura de subsistência, pois além de purificar a água promove a alimentação das tilápias-do-nilo, principal cultivo de liderança no Brasil. A utilização de substratos artificiais além de promover a sustentabilidade, mitiga a grande problemática de plásticos que são descartados no meio ambiente, já que até mesmo pedaços de plásticos estendidos na vertical podem ser utilizados e reutilizados várias vezes no sistema implantado.

Logo, essas são algumas estratégias de convivência com a seca e assistência ao saneamento básico rural. Com isso, a gestão dos recursos hídricos e a melhor administração do seu uso, gerando uma ciclagem da água, promovem melhorias no desenvolvimento econômico e social, fazendo com que o bem-estar das pessoas tenha forte impacto sobre a vida da população e sobre o ambiente.

Docente do curso de graduação em Ciências Biológicas, Universidade Federal do Vale do São Francisco, Campus Ciências Agrárias, Rodovia BR-407, Km 12, Lote 543, Projeto de Irrigação Nilo Coelho, S/N, CEP 56300-000, Petrolina, PE, Brasil. Endereço de e-mail: carolina.tonizza@univasf.edu.br

Fotos: Augusto César Cavalcanti Gomes 

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