Professora da Unifan, em Remanso, denuncia caso de LGBTfobia ocorrido na instituição

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(foto arquivo pessoal)

 

A professora do curso de pedagogia da Faculdade Alfredo Nasser (Unifan) no município de Remanso, no Norte da Bahia, Camila Roseno, denunciou que foi vítima de LGBTfobia na instituição em que atuava desde 2020.

Em contato com o Portal Preto no Branco, a educadora, que ministra a disciplina de Educação e Corporeidade, contou que a violência lesbofóbica partiu de uma aluna e de sua mãe. De acordo com ela, as acusadas teriam alegado incompetência da profissional, por a mesma ser lésbica e assumir a sua orientação sexual.

“A aluna é totalmente indisciplinada e após eu chamar a atenção de toda a turma por conta de um trabalho, ela, junto com a mãe, me desqualificou e denunciou perante a direção, como se eu fosse irresponsável, não fizesse o meu trabalho, por assumir minha orientação sexual, alegando que isso era desnecessário. Então, na falta de qualquer argumento sobre a minha competência profissional, elas utilizaram da minha orientação sexual para me atacar”, contou a professora.

Ainda de acordo com Camila, a Unifan foi omissa diante do ocorrido e negou-se a manifestar-se, publicamente, contra esse tipo de crime.

“A instituição tentou resolver a situação de forma interna, buscando sempre ouvir a mãe e a aluna. Disseram que me apoiavam, me ofereceram apoio psicológico, mas que não iria se manifestar publicamente, chegando a me pedir que eu não falasse mais sobre minha condição sexual durante as aulas. Inclusive, queriam me colocar em uma reunião, junto com a agressora, e eu disse que não queria. Solicitei via e-mail e via whatsapp uma retratação pública, para que a instituição esclarecesse o que aconteceu, inclusive para dizer que a agressão não partiu da Unifan, mas sim de uma família. Mas, até o momento, não tive uma resposta”, acrescentou.

A professora também falou sobre o caso em suas redes sociais. Veja o vídeo:

Em carta de demissão enviada à faculdade, Camila declarou que deixará a instituição “Pelo não silenciamento diante de situações opressoras, sejam elas de raça, gênero, orientação sexual, classe, físicas e/ou intelectuais”.

Carta de demissão

À Faculdade Alfredo Nasser – Unifan Remanso

Prezadas senhoras e prezados senhores, venho apresentar meu pedido de demissão do cargo que ocupo nesta instituição de ensino de 01/09/2020. E me comprometo a cumprir o aviso prévio.

Agradeço a oportunidade de poder contribuir com a formação de futuras pedagogas e futuros pedagogos, assim como, na pós-graduação com professoras que atuam nessa cidade, nessa instituição e em cidades circunvizinhas

Gostaria de esclarecer que as razões que me levaram a pedir demissão decorre da violência lesbofóbica que sofri por parte de uma aluna e de sua família, assim como, do silêncio público e institucional dessa empresa diante do ocorrido, e que mesmo após eu solicitar apoio e esclarecimentos via email e whatsapp, não obtive respostas.

Paulo Freire nos diz o seguinte no livro: “Pedagogia do Oprimido”

“Quem, melhor que os oprimidos, se encontrará preparado para entender o significado terrível de uma sociedade opressora? Quem sentirá, melhor que eles, os efeitos da opressão? Quem, mais que eles, para ir compreendendo a necessidade da libertação? Libertação a que não chegarão pelo acaso, mas pela práxis de sua busca; pelo conhecimento e reconhecimento da necessidade de lutar por ela. Luta que, pela finalidade que lhe derem os oprimidos, será um ato de amor, com o qual se oporão ao desamor contido na violência dos opressores, até mesmo quando esta se revista de falsa generosidade referida” (1987, p. 20).

E Audre Lorde diz no artigo “A transformação do silêncio em linguagem e ação” que

“Fomos socializadas a respeitar mais o medo do que nossas necessidades de linguagem e significação, e enquanto esperarmos em silêncio pelo luxo supremo do destemor, o peso desse silêncio nos sufocará” (2019, p. 55).

Pelo não silenciamento diante de situações opressoras, sejam elas de raça, gênero, orientação sexual, classe, físicas e/ou intelectuais, eu me demito dessa instituição.

Atenciosamente, Camila dos Passos Rosen

Remanso, 21 de maio de 2021

Em carta de solidariedade, o também professor, Antônio Carvalho, se solidarizou com Camila.

Carta de Solidariedade à professora Camila Roseno

” Não atura, fecha a firma, bonde das femininas. Que vem de strike a pose direto das revistas. Mas é revista fina, não vem de Ti-Ti-Ti. Se não aprendeu com elas, isso é cultura QUEER. Vem aplaudir Batendo palma, eu te vi resistir. Mas vi daqui. Que enquanto você chora, eu canto pra subir. Se a minha pele é o que incomoda. Eu te convido a vir vestir. Mais quente que o Saara. Eu queimo o céu e faço o mar abrir. Prepara os doces que a festa não parou por aí. Alice Guél hitou mandando um “Deus é travesti!” Segura o queixo que esse trecho é feito pra engolir. Mas se o efeito causou medo, é hora de fugir.  Só mais um trago desse amargo que eu vivi. Contando as notas chora que hoje eu vou sorrir. De batom preto pro velório ou enterro. Vê nas manchete e pede pra eu não ter que repetir.(quebrada queer)”.

Somos corpos precarizados, diriam autoras como Judith Butler, isso devida a toda sorte de vulnerabilidade vivida ao longo das nossas trajetórias de vida/formação docente. Professores e professoras LGBTQIA+ sofrem assédio moral de alunos/as e gestores/as cotidianamente, quase sempre acionam nossas sexualidades e identidades de gêneros numa tentativa de nos desqualificar profissionalmente, como se quisessem nos envergonhar daquilo que somos, nos causar constrangimento diante da comunidade acadêmica/escolar.

Esse tipo de assédio precarizam não só os nossos corpos, mas também o corpus da comunidade, pois somos de algum modo impedidos/as de falar sobre nós mesmos/as na construção dos conhecimentos pretendidos em nossas práticas curriculares e pedagógicas. Casos como o de Camila Roseno, professora do curso de pedagogia da UNIFAN, na cidade de Remano, no norte da Bahia, Vale do São Francisco, é representativo desse tipo de violência. Uma aluna junto com sua mãe denunciou a professora à referida instituição, alegando incompetência da profissional, pois esta seria lésbica e dizia abertamente sobre isso nas aulas de educação e corporeidade. Os argumentos utilizados por essa família partem da premissa de existência de uma anormalidade ou desvio moral da professora que gera incompetência na constituição mesma das suas preferencias sexuais. A família reclama não do comprometimento da profissional com sua atividade docente, ela chama atenção par o seu comprometimento ao sistema heteronormativo que regula a comunidade.

Hoje fique sabendo que Camila Roseno Pediu exoneração do cargo, por não suportar o modo como a questões tem sido lidada institucionalmente. É preferível perder uma pesquisadora e professora qualificada do que se comprometer com o combate aos casos de violência como este.

Minha solidariedade à Camila Roseno. Pra cima dos caretas e covardes, sem piedade!

Antônio Carvalho (viado, pesquisador, professor e amigo da vítiva)

Juazeiro/BA, 21/05/2021

 

 

Da Redação Por Yonara Santos

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