“Não tiro a razão da revolta”: ataque de médico ao Hospital Psiquiátrico de Juazeiro expõe graves problemas na instituição e a “necessidade de uma intervenção”, dizem alguns profissionais e ex-funcionários; direção responde

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O comportamento do médico, que invadiu o Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora de Fátima, em Juazeiro, na noite da última sexta-feira (22), trouxe a tona, novamente, os graves problemas envolvendo a instituição filantrópica, fundada há 64 anos pelo médico Dr. Dewilson.

Em nota divulgada na sexta- feira (22), a atual direção da unidade disse que o médico já havia trabalhado na unidade hospitalar, e que ele teria “invadido a recepção do hospital com um um carro prata, ameaçando  matar profissionais e pacientes, e atear fogo na unidade”. A direção não revelou o nome do médico.

Fontes do PNB informaram que, na verdade, o médico que se descontrolou, trabalhou por longos anos na instituição e estaria revoltado com a situação que a nova direção vem submetendo os funcionários e pacientes internados na unidade psiquiátrica.

O Hospital Psiquiátrico, que tem como presidente Elizabete Teixeira de Almeida, tem sido constantemente alvo de denúncias de funcionários que relatam descumprimento de direitos trabalhistas, condições precárias de trabalho, como já foi tema de diversas reportagens publicadas pelo PNB.

As reclamações começaram ainda na gestão anterior, que por algumas vezes ameaçou fechar a instituição, alegando que não recebia recursos suficientes para manter os serviços prestados.

De acordo com fontes do PNB, a situação se agravou com a mudança de diretoria. São funcionários, ex-funcionários e familiares de pacientes que expuseram os problemas que envolvem a instituição.

“Infelizmente aquela unidade do sanatório vai de mal a pior. Salários defasados, atrasados. Não tiro a razão da revolta do médico. Todos estão muito revoltados, com tanto desrespeito aos profissionais e aos pacientes. Pacientes dormindo no chão, sem lençol, sem travesseiro. A comida é de péssima qualidade. Somos mais de 15 profissionais demitidos, por simplesmente reivindicarmos o que é nosso por direito. O médico que invadiu se descontrolou, mas não tiro sua razão, principalmente porque ele foi um dos fundadores daquele local, que carregou em seus braços, a vida toda, aquela unidade, e não é reconhecido, nem respeitado. Os profissionais também não têm valor para a direção. Falta de consideração, e muito descaso para com nós, que temos contas a pagar, e somos pais e mães de famílias. Há oito meses estamos lutando para receber nosso dinheiro da rescisão. Os repasses são feitos pela prefeitura, o que estão fazendo com este dinheiro?”, questionou um ex-funcionário.

Ele continua questionando a aplicação dos recursos que o hospital recebe.

“Sabemos que o hospital recebeu um milhão de recursos para a Covid e nada fizeram. A prefeitura pode até atrasar, mas faz os repasses devidos. Não vemos nenhum investimento no hospital, nenhuma melhoria para os pacientes e sequer pagam o que devem aos funcionários e a quem já foi demitido e saiu sem nada. Mas sabemos de compra de carro novo, de moto, de terreno. Funcionários com salários atrasados até hoje, 26 de outubro, e o repasse foi feito no dia 5. Os funcionários, inclusive alguns médicos, são humilhados, sofrem assédio moral e sequer podem reivindicar melhoria nas condições de trabalho e na assistência aos pacientes, que são perseguidos e dispensados friamente e sem respeitar a lei. Não estão tomando conta da instituição como deveriam. Deveriam respeitar a história do sanatório de Juazeiro e, ao invés de destruí-lo, investir em um serviço de qualidade e humanizado”, ressaltou.

O ex-funcionário pediu aos órgãos de controle e fiscalização que façam uma inspeção “urgente” no hospital.

“Eu queria que uma autoridade fosse lá de surpresa para flagrar a situação real, sem a maquiagem que a direção costuma fazer. Na parte de baixo eles arrumam, fazem uma maquiagem, mas em cima, na ala masculina, principalmente, é um descaso, muita desumanidade com os pacientes. Eles estão juntando pacientes psiquiátricos, com pacientes que cometeram crimes, o que é inadmissível. Pedimos ao Ministério Público, a Secretaria de Saúde, a Justiça do Trabalho, a Vigilância Sanitária e Conselho de Saúde que façam uma inspeção surpresa naquele lugar, urgente”, finalizou o profissional de saúde.

Mais uma reclamação partiu de outro profissional da instituição, que também não quis ser identificado, e pediu uma intervenção na instituição.

“As autoridades precisam tomar providências, e saber o que acontece dentro dos muros do hospital. Existem pacientes que estão lá há meses. Eles ficam segurando, não dão alta, para segurar o recurso. Os pacientes devem ser tratados por um tempo na instituição, mas o tratamento continua nos CAPSs. Hospital psiquiátrico não é prisão. Os internos são maltratados, os profissionais de saúde também. A direção não dá autonomia nem aos médicos, que sofrem assédio, e mesmo não concordando com as práticas adotadas pela direção, nada podem fazer. A atitude do médico na noite de sexta-feira, mesmo que intempestiva, foi um pedido de socorro que as autoridades devem ouvir. A Secretaria de Saúde precisa intervir nesta situação. Pedimos a prefeita, pessoa que notadamente é sensível ao cuidado com as pessoas, que determine uma intervenção no hospital. Será que os recursos públicos estão sendo bem aplicados? Será que a intenção é sepultar o sanatório de vez? Muitos absurdos estão acontecendo naquela unidade”, concluiu.

O PNB encaminhou as reclamações para a diretoria do Hospital Psiquiátrico. Em resposta, a gestão da unidade declarou que quando “assumiu a instituição, já haviam diversos processos trabalhistas e existia um desiquilíbrio financeiro enorme, gerado por gestões anteriores, com débitos altíssimos”

Veja a nota na íntegra

Cumprimentando-o cordialmente, servimo-nos do presente para relatar que o Sanatório Nossa Senhora de Fátima é uma instituição que presta um serviço essencial em Juazeiro e Região. Hoje é prestada assistência a 50 municípios do estado da Bahia, 20 municípios do estado de Pernambuco e 5 municípios do Piauí. Quando a atual gestão assumiu a instituição, já haviam diversos processos trabalhistas e existia um desiquilíbrio financeiro enorme, gerado por gestões anteriores, com débitos altíssimos. E mesmo com diversos problemas encontrados, conseguimos vencer grandes desafios. Conseguimos realizar reformas internas na unidade como reposição de cerâmica, aquisição e melhoria de leitos para maior conforto dos pacientes, aquisição de camas hospitalares, reposições de colchões, troca da afiação elétrica, aquisição de uma lavanderia hospitalar, conforme as exigências do Ministério do Trabalho. Conseguimos também implantar uma oficina para abordar as atividades terapêuticas , como arte terapia, musicoterapia etc.  A lavanderia e oficina já estão nos estágios finais da estruturação. Foi formada uma equipe multidisciplinar com experiência na área de saúde mental. Atualmente são 60 funcionários trabalhando na instituição, entre eles médicos psiquiatras, médicos dermatologista, técnicos de enfermagem, pedagoga, artesão, 3 psicólogos, cuidadores voltados ao cuidado do paciente psiquiátrico, enfermeiros e enfermeiro CCIH. A instituição está seguindo os padrões atuais da psiquiatria. Todos pacientes são alimentados com o que tem de melhor, pois a prioridade do hospital é tratar os pacientes bem e de forma humanizada, até porque é muito satisfatório, quando a gente ver os pacientes evoluindo bem ao tratamento e estabilizado de seu quadro psíquico. No momento da alta o paciente recebe um encaminhamento para realizar o acompanhamento pós alta nos CAPS de seus municípios, e assim, possa dá continuidade na assistência e no tratamento. Fica evidente que o sanatório é essencial, porém existe um grupo de pessoas que não enxerga isso. Se não tivesse assistência, não teríamos tantos pacientes internados no hospital e famílias satisfeitas com o tratamento. Somos pioneiros em saúde mental em juazeiro e região. Trouxemos assistência em saúde mental quando não havia nenhum programa de saúde mental em Juazeiro e região, cuidando dos pacientes de forma integra e humana. Atualmente a unidade vive ignorada pelo poder público, apesar da assistência prestada a 2.000 (duas mil pessoas), e internações somente este ano, sendo 15 compulsórias (pela Justiça). Temos pedido auxílios ao Governo Federal e a alguns deputados. Em referência a aplicação dos recursos, estamos a 5 meses recebendo bloqueios trabalhistas no percentual de 30 % de toda nossa renda, destinada para pagamento de dívidas trabalhistas. Por 5 meses estamos recebendo somente 70% de nosso recursos, mesmo assim estamos trazendo melhorias para instituição e para qualidade do tratamento e pagamento de salários, FGTS, INSS,PIS, IRRF. Mesmo diante de muitos impasses enfrentados, conseguiremos estabilizar novamente a situação financeira da instituição. Existem alguns processos trabalhistas, mas os advogados da associação estão trabalhando dia e noite para que, o mais rápido possível a gente consiga realizar um acordo judicial com todos que têem seus direitos a receber. O sanatório não está negando a responsabilidade. Estamos procurando a melhor forma para resolver essa situação para que todos que saíram e que precisam desse dinheiro recebam. Atualmente temos dois acordos judicias sendo pagos e acredito que, até o fim do ano a gente consiga realizar um acordo com todos. O problema existe, e como medida estamos procurando solucionar essa situação. O jurídico da instituição já está entrando em contato com todos advogados que estão responsáveis pelas ações judiciais trabalhistas, e logo em breve a instituição estará com sua vida financeira estabilizada, pois a direção do hospital está empenhada em resolver essa situação. A assistência que o sanatório presta é uma das melhores da Bahia.

Outras denúncias

Desde o início deste ano a atual gestão do Hospital Psiquiátrico vem sendo alvo de denúncias. Em janeiro, funcionários denunciaram irregularidades trabalhistas e demissões pela direção da instituição de profissionais que reclamaram da situação.

“Depois de muita espera, porque é impossível ficarmos 5 meses sem salários, a resposta da direção foi demitir e ameaçar demitir quem ‘não vestisse a camisa’ do hospital. Sabemos de funcionário que foi dispensado sem receber nada e ainda de que haveria uma lista com outros nomes que seriam demitidos. Recorremos à imprensa por desespero, por sabermos que não temos ninguém por nós. Tem muita coisa errada. Não depositam FGTS, atrasam salários constantemente. Falam que o dinheiro foi bloqueado, que a Prefeitura de Juazeiro não fez o repasse, que está atrasado. Sabemos que veio recurso alto para a covid. E o que fizeram com este dinheiro?”, relatou na época um funcionário que pediu para não ser identificado.

De acordo com nossa fonte, o atendimento aos pacientes também era precário.

“Os pacientes também sofrem. O pessoal que paga particular é mais bem tratado, mas os do SUS são largados. Tem paciente com problema dentário, sofrendo dia e noite com dor de dente sem ser medicado, paciente dormindo no chão, em cama de ferro. Tem paciente com covid isolado em sala sem ventilação. Um descaso, e o Ministério Público, a Vigilância Sanitária deveria ir ver a situação. Alimentação tem, mas os pacientes precisam ser melhor tratados”.

Na ocasião, o PNB teve acesso a um áudio em que a coordenadora falava em um grupo de funcionários no Whatsapp. Na gravação ela dizia: “Não adianta ninguém ir em blog, ficar reclamando no que for, não vai adiantar, porque o dinheiro aqui não vai aparecer, inclusive vai é sumir. Outra coisa, quem faz este tipo de denúncia é gente que não merece tá trabalhando no sanatório, porque o sanatório é muito mais que isso.

Sobre os comentários de que a instituição estaria ‘sucateada’, ela disse: “A gente tá procurando melhorar o ambiente. Vocês nunca viram o que é está  sucateado. Quando eu trabalhava aí, aí sim era sucateado, e eu nunca reclamei. Comecei a trabalhar em 98, trabalhei por vários anos e nunca reclamei”.

Na época ouvimos Elizabete Teixeira para esclarecer sobre as demissões e ela declarou: “Eu acho que a empresa pode demitir quem quiser, se não cumprir com seu trabalho”.

Ministério Público

Procurado pelo PNB, em resposta às denúncias, o Ministério Público Estadual informou que já existia um Inquérito Civil instaurado para apurar supostas irregularidades na instituição.

De acordo com a assessoria do órgão, a Promotora de Justiça Rita de Cássia Rodrigues oficiou, a Secretaria Municipal de Saúde, para que determinasse a realização de auditoria no Sanatório pelo Componente de Auditoria Municipal SUS e a Vigilância Sanitária para que inspecione a instituição”.

Da Redação PNB

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