A televisão estava baixa e todos conversavam na sala. Pelas imagens do Jornal Nacional achei que Dona Lily
estava sendo biografada. Aumentei o volume, noticiava-se a sua morte. Passou um filme na minha cabeça. Início
de agosto de 2003, atuava como advogado num caso no Rio de Janeiro. O Jornal da Globo noticia o óbito do
jornalista Roberto Marinho. O Senador ACM aparece na tela e, emocionado, relata a amizade e o amor fraternal
que os unia. Chegou a dizer que ele e o Dr. Roberto passeavam de mãos dadas pelos jardins da mansão do
Cosme Velho, enfatizando a intimidade entre ambos.
No dia seguinte, encerrei meu expediente no Fórum, no centro da cidade e fui direto para o charmoso bairro, aos pés do Corcovado. O então recente Governador de Minas, Aécio Neves, encontrava-se na porta principal.
Cumprimentamo-nos com os olhos e a cabeça, dirijo-me ao salão, o qual, naquele momento, não estava tão cheio,
era entre uma e meia e duas da tarde. Fui até o esquife e vi Dr. Roberto rosado, bigode bem feito, maquiado, como
se estivesse apenas tirando um cochilo. De fato, eu estava diante de um dos homens mais importantes do Brasil,
que desenvolveu arte, cultura, novelas, cinema, entretenimento, comunicação, diversão, informação, poder. Não era ninguém menos que o poderoso fundador e dono da Rede Globo de Televisão. Dona Lily, sua esposa, estava sentada do outro lado do caixão, segurando um terço e um lenço. Fiz a volta, aproximei-me e beijei sua mão. Disse-lhe, meu nome, de onde era e o que estava fazendo no Rio. Ainda mencionei parentesco com João Gilberto. Pedi-lhe permissão e recordei para ela, que havia lido, certa vez, numa revista, que o Dr. Roberto há muito que lhe tinha uma profunda admiração.
Que o jornalista era amigo do seu primeiro esposo e resolveu afastar-se, porque não queria sentir-se desleal, tamanha a admiração e encantamento que nutria pela mesma. Dona Lily fitou-me nos olhos, baixou a voz, balançou a cabeça, quase sussurrando e, repetindo, disse: _” é verdade, é verdade…, você tem essa revista?, perguntou-me. Diante de minha hesitação ela voltou a perguntar se eu tinha aquela revista. Tive que dizer que não, em tom e expressão de lamento. Puxa, o que custava dizer que tinha, pedir um prazo para entregá-la, se não pessoalmente, através de terceiro, após encontrá-la no arquivo de alguma editora. Restou-me olhar mais uma vez para o Dr. Roberto e finalizar o diálogo, dizendo que não se poderia esperar outra atitude de homens elegantes como ele. Com mais um beijo em sua mão, despedi-me.
O salão encheu-se, de repente, estava chegando a hora das despedidas. As celebridades iam-se aglomerando, artistas, empresários, atores, atrizes, apresentadores, jornalistas, políticos. Nunca havia presenciado o metro quadrado mais disputado por pessoas da mídia nacional. Foi uma “overdose” de estrelas de televisão. Afastei-me um pouco para recuperar o fôlego. Fiquei frente a frente com Fernando Henrique, que havia, há bem pouco, deixado a Presidência. Passei a circular pelos jardins na borda do lago dos flamingos e, de certa distância, avistei Dr. Antônio Hermírio de Morais. Um senhor alto e forte, vestido num terno claro (a cor predominante naquele local era o preto e o azul escuro, ele era o único vestido naquele tom ) e a franja caindo sobre um rosto simpático e sereno. Fiquei observando-o por alguns minutos. Tive vontade de aproximar-me, mas, a princípio, não quis ocupá-lo. Dr. Hermírio havia percebido a minha presença e me fez um leve aceno com os olhos, balançando, suavemente, a cabeça. Aproximei-me. Chegava um repórter e gravava ou anotava uma declaração do empresário, considerado um dos maiores do País.
Quando o mesmo finalmente voltou a ficar um pouco só, estendi-lhe o braço e nos cumprimentamos. Antes que
chegasse o próximo repórter, perguntei-lhe:_ o que é que o senhor estava fazendo em Juazeiro da Bahia em 1950?
Como foi que o senhor cortou a sua mão? Lembrei-me de uma entrevista em que ele havia falado sobre esse
episódio. Dr. Hermírio abriu bem uma das mãos, franziu a testa, fez um olhar de reminiscências, recapitulou e disse:
_” e minha mão ficou boa, foi costurada por um farmacêutico, minha mão ficou boa”, recordava-se, admirado, como quem tivera medo de perdê-la. _”Eu cheguei na pensão, era quase meia noite, bastante suado, ávido por um banho, fazia muito calor, nossa, que calor, abri o chuveiro com tanta vontade, estava meio escuro, uma penumbra e o mesmo era envolto numa lata velha, lascada, impregnada de limo. Levei um talho enorme e profundo na minha mão, sangrava bastante, fiquei assustado. Fui levado ao farmacêutico da cidade, ele fez curativo, aplicou-me medicamento e costurou a minha mão”. Chega mais um repórter, espero outra oportunidade, quando ficamos novamente a sós, pergunto: _ mas o que é que o senhor estava fazendo em Juazeiro naquela época, cinqüenta e três anos atrás? _”
Eu estava pesquisando minério, mas não deu certo, não era o que esperávamos”. Chega mais outro repórter, sai,
e eu completo. _Mas com Baby deu certo (refiro-me ao empresário e playboy ítalo-brasileiro Francisco Baby
Matarazzo Pignatary, dono e fundador da Caraíba Metais, na mesma região, tendo deixado amigos em Juazeiro da
Bahia _” Não, não, aquilo não deu certo, foi um fracasso”, completa Dr. Hermírio. Não quis questioná-lo, quem era
eu no ramo da mineração, além do mais, estava no lucro de sua generosa atenção. Baby foi outro grande
empreendedor. Sua resposta dava a dimensão do que ele buscava, algo muito maior do que já era grande. Para
finalizar, ainda comentei, em tom ameno: Baby gostava muito de jogar buraco. Dr. Hermírio replicou aos risos, em
tom esportivo: _“ele não era do batente, não”. Voltei à sala do velório e pude acompanhar os últimos momentos
daquela despedida.
O Presidente Lula e vários Ministros já estavam posicionados ao lado do corpo do Dr. Roberto Marinho, o arcebispo-emérito celebrava a missa de corpo presente, esposa, filhos, netos, noras, irmãos, parentes, funcionários das Organizações Globo e um batalhão de fotógrafos e cinegrafistas, com suas máquinas e equipamentos de última geração e vestidos a rigor.
Dona Lily dá o último beijo em Dr. Roberto e quando o caixão está sendo quase fechado, surge, de um dos aposentos da casa, com os braços abertos, balançando levemente o corpo para um lado e para o outro, em marcha rápida, a figura do Senador Antônio Carlos Magalhães, ACM.
Atrevo-me a impostar a voz e peço: senhores, senhores, um instante, por favor. O Senador me agradece com os
olhos. O grupo de antigos funcionários da Globo remove a tampa do caixão e ACM despede-se do amigo, cruzando e
beijando seus próprios dedos e tocando-os na face rosada de Dr. Roberto Marinho. Dona Lily repete o ritual de
despedida e adeus, a urna é definitivamente fechada e transportada até o rabecão nos jardins, na saída para o
cemitério São João Batista. Logo após a descida do caixão por uma das escadarias bifurcadas da sacada, o Ministro
Gilberto Gil descia e o apresentador Jô Soares subia. Os dois cumprimentam-se com um selinho. Os repórteres
fotográficos foram ao delírio e pediram, em coro, que Jô repetisse a cena. _” Jô, Jô, repete, repete”, gritavam, com
as câmeras ativadas e reposicionadas. Gilberto Gil parou a sua descida, virou-se, sorriu, esperou. Jô retornou,
descendo alguns degraus, encostou em Gil e, quando todos esperavam que atendesse ao pedido, virou-se, com
o dedo em riste e tom ríspido, surpreendeu a todos: _“não repito, não”, voltando a subir a escadaria. Gil,
simpático, sorri mais uma vez e segue o cortejo de Ministros.
À saída da mansão reencontro Dr. Hermírio, ainda trocávamos algumas palavras quando se aproxima o então Governador de São Paulo Geraldo Alckmim, com sua senhora, Dona Lú. Hermírio o apresenta, dizendo: _“nosso Governador”. _Claro, nosso Governador, respondo, cumprimentando-nos todos. Pude presenciar esse momento histórico e significativo, observá-lo e testemunhá-lo. A lembrança que guardo de dona Lily Marinho e reforçada em revistas, jornais, tv’s, lançamentos de livro, chás beneficentes, recepções, memórias, é de uma mulher altiva, de grande personalidade e glamour. Em 13 de dezembro de 2010, foi hospitalizada com um quadro de dificuldades
respiratórias e, aos 90 anos incompletos, em 05 de janeiro de 2011, veio a óbito. A ex-Miss França, nascida
na Alemanha, aceitando pedido de casamento com um brasileiro e, poupando-se dos horrores da Guerra, veio
para o Brasil, País pelo qual se apaixonou e adotou como sua Pátria.
Recebi atenção desta dama naqueles breves momentos e saí daquela Casa com a satisfação de haver me entrevistado com a intelectual, excepcionalmente fina e elegante. Gratidão, Lily…!!!
Por Jaime Badeca, advogado









