Eu não tenho nenhum finado, já que o termo se refere a alguém que “deixou de existir”.
Perdi meu avô, minha referência de homem bom, aos 15 anos e ele existe em mim. Foi meu primeiro entrevistado em um gravador que me deu de presente. Foi neste equipamento que eu gravei uma canção, também pela primeira vez. Meu avô teve a perna amputada por um diabetes e assim me ensinou a respeitar as limitações e grandezas dos diferentes. Foram tantas lições que recebi daquele doce “marrão”, que jamais o terei como um finado.
Perto dos 30, perdi minha avó. Já velhinha, esquecida das coisas, calada, cabelinho pintado de branco, com seu velho colar de pérolas e batom vermelho. Ela foi meu maior exemplo de mãe, embora nunca tivesse parido um filho das entranhas. Minha mãe, sua filha adotiva, nasceu do amor entranhado que minha vó tinha em tudo que fazia. Ela servia a um e a outros, era generosa, disposta, sabia aplicar injeção e dava lavagem na vizinhança toda. Me vestia de anjo, de baliza, de flor, nos desfiles da escola e me amou muito. Era linda, linda minha vó. Ela era puro afeto e era forte como uma leoa. Ela vive em mim. Como tê-la como finada?
Daí a morte deu uma trégua na minha família até chamar minha irmã segunda. Ela tinha 46 e eu 42. Aneurismas se romperam e ela se foi. Deixou um fosso dentro de mim e nunca mais ninguém me sorriu daquele jeito. Nem o brilho do seu enorme olho me fitou. O seu cheiro pachouli em outras peles não tem o mesmo perfume. Outras palavras não possuem o mesmo peso da verdade das dela. Era intensa essa minha irmã. Visceral e superlativa em tudo. Era capaz de amar defeitos e potencializar virtudes com um exagero quase mentiroso. Isso para os que ela arrastava para debaixo das suas asas. Foram muitos. Eu, a mais abrigada. Desconheço alguém a quem ela odiasse, mas perdi as contas daqueles que ela olhava feio, “só porque o santo não bateu”. Geralmente ela tinha razão. Farta, exagerada, gulosa. Compulsiva por vida. Extremosa e extremista, como mãe, amiga, como filha, como irmã, como mulher. Ela vive presentemente nos meus dias. Finada? Nunca!
Ainda vivíamos o luto, quando a “indesejada das gentes” voltou à nossa casa e levou meu pai. Quatro meses depois retornamos a mesma sala fria do serviço de assistência funerária para velar nosso guerreiro que lutou contra um câncer com muita dignidade.
Meu pai era um homem bom. Um menino brincalhão que amava crianças, nos enchia de fantasias, contava estórias, levava ao circo, nos dava severas lições e até castigos duros, peias de cinturão e bolos com a escova de lustrar sapatos. Meu pai era rígido e lúdico também. Ele era oito, ou oitenta. Preto ou branco. Sem papas na língua, um justiceiro social e muito honesto. Valente e humilde. Me vejo nele todos os santos dias. Ainda mais agora na maturidade. E tenho um orgulho danado disso. Nas minhas ações, reações, nos meus traços e tragos, ele está. Agora me diga, se esse cara é um finado?
Mais de uma década durou, até que Livinha, a irmã que me sucedia foi chamada. Éramos 5, ficamos 3. Sem desejar incensá-la, como se costuma fazer, ela foi a pessoa mais generosa que já conheci. Tão Prestativa que até esquecia de si. Meiga, sensível de chorar por pequena coisa, irrecuperavelmente carente. Daquelas que a gente diz “um amor em pessoa”. Mas, a sucessão de dores, conflitos e confusões que carregava, não lhe permitiu amar-se o suficiente. E nem se sentir amada por nós como é. Ela se defendeu como pode, resistiu o quanto deu e foi embora, nos desfalcando imensamente. São 5 meses de uma ausência muito doída. Não posso ir ao centro da cidade para não vê-la batendo perna, não posso ver suas meninas sem me emocionar, vejo seus olhos sedentos de atenção e amor em todos os cantinhos da casa da minha mãe. Me olho no espelho e vejo seus traços, principalmente depois de umas cervejinhas a mais. Não, ela também não é finada coisa alguma. Ela vive muito em mim.
Quisera eu poder mudar o nome deste dia para “Dia dos Insubstituíveis”. Daquelas pessoas que conquistaram o lugar de viver para sempre em alguém. O lugar do inesquecível. Dos imprescindíveis e essenciais. Você aí certamente tem o seu, a sua insubstituível. Eu tenho todos estes que destaquei e mais alguns amigos e pessoas referências que compõem a mulher que eu sou.
Um salve aos meus avós paternos que não conheci; aos meus carinhosos padrinhos, Nolasco e Constância; a Edésio Santos, meu mentor musical; a meu primo pai e irmão Lesco, quanta saudade!; a Dona Antônia, mulher preta da minha vida; Araci Monteiro, a negra linda de lenço na cabeça da minha vida todinha; Manuca Almeida, que me honrou com sua poesia e amizade; a Neto, de Neto Mundinho, com quem vivi tantos momentos de música e felicidade; a Cleomar Brandi, jornalista baiano, amigo meu de Sergipe; a Tatau, Zé Maurício e Galvão, gentes de pura poesia e leveza, me deram contentamento em muitos momentos; a Zé Guto de Sobradinho, que figura especial!; a Seu Alberto, Albani, a Sandrinha, minhas eternas cunhadas, e a Galego, da minha família Cavalcanti; a Lúcia, Katia Dias, Cebola e a Seu Antônio Claro, da minha família Ismael; a Dona Val, vó de Fred, a Sônia de Magna, tão do bem elas duas. A Dona Nair, vó de Ananda, um ser de luz que me deu Osir; Aos meus queridos Dedé, Carlos Marques de Bonfim, Naldinho do Chá das 5, Hélio José, Lorrani, vítimas do preconceito; a Jean Rego, Ronni da Rua Tiradentes, Antonila Cardoso, Iuri Ramos, meu irmão, a Jerry das noites de Juazeiro, vítimas da covid mais próximas de mim entre as milhares do país;
E paro por aqui nestas citações de pessoas insubstituíveis. Corro risco de esquecer de tantos que existem em mim, e portanto, jamais serão finados.
Quando a gente passa dos 50, as perdas começam a pesar mais na balança. E isso dói. Muito. Por isso que te digo, vamos cuidar dos nossos e de quem está a nossa volta, para jamais virarmos finados. Somos sim, insubstituíveis!
Uma coroa de vida pra você! Uma coroa de luz para os nossos insubstituíveis!
Sibelle Fonseca é radialista, juazeirense apaixonada, militante do jornalismo, pedagoga, feminista, mãe de Carla, Pingo, Mari e Ananda, mulher da vida, cantora nas horas mais prazerosas, defensora dos direitos humanos e uma amante de gentes.



